LOBISOMEM DOUTOR

LOBISOMEM DOUTOR

LOBISOMEM DOUTOR

O Lobisomem Doutor é uma figura do folclore recifense conhecida pela narrativa Um Lobisomem Doutor, registrada por Gilberto Freyre em Assombrações do Recife Velho, publicado originalmente em 1955. A história se passa no Poço da Panela, no Recife, e teria sido contada ao autor por Josefina Minha-Fé, uma de suas informantes sobre crenças e assombrações locais.


Por Rodrigo Viany

Na versão registrada por Freyre, a transformação do Lobisomem Doutor não é associada à lua cheia nem à transmissão por mordida. O doutor estaria submetido a um fado, uma condição sobrenatural ligada às suas aparições nas noites de sexta-feira.

O ENCONTRO COM O LOBISOMEM 

Segundo Freyre, Josefina tinha cerca de treze anos quando foi atacada por uma criatura durante uma noite de sexta-feira. Ela havia saído para comprar azeite destinado às lamparinas dos santos, quando encontrou o ser em um trecho escuro do caminho. 

Josefina não conseguiu observar a criatura por completo. Sua descrição lembrava principalmente um cão feroz, mas apresentava também algo de porco, aparência amarelada, mau cheiro e dentes pontudos. A criatura avançou sobre ela, rasgou seu vestido e a feriu. Durante o ataque, Josefina invocou Nossa Senhora da Saúde e atribuiu sua salvação à proteção da santa. Seus gritos atraíram outras pessoas, e a criatura desapareceu.

Alguns dias depois, a mãe de Josefina, que lavava as roupas de um homem residente no Poço da Panela, teria encontrado entre elas pedaços do vestido rasgado durante o ataque. O homem é descrito por Freyre como um doutor ou bacharel muito pálido, que buscava tratamentos para recuperar a saúde. Josefina concluiu então que ele era o lobisomem. Como não havia reconhecido o homem durante o ataque nem presenciado sua transformação, a identificação baseava-se nos fragmentos do vestido encontrados entre suas roupas.

O relato não informa o que aconteceu ao doutor após essa descoberta.

Rodrigo Viany (Sleipnir) – Escritor, pesquisador e criador do Portal dos Mitos. Matéria originalmente publicada em: https://portal-dos-mitos.blogspot.com/2026/08/lobisomem-doutor.html

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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