O ELOGIO PROFISSIONAL, UM DISCURSO TRABALHOSO

O ELOGIO PROFISSIONAL, UM DISCURSO TRABALHOSO

O elogio profissional, um discurso trabalhoso

Com a facilidade que se tem para cursar o Ensino Superior, muitos profissionais têm surgido na sociedade. Contudo, eu tenho uma dúvida: você, profissional, acredita no que você faz?
 
Por Joacir d´Abadia 
 
Todo profissional carece de acreditar em sua profissão, sendo esta uma bondade e beleza daquele que faz, ajuda a cada profissional ser bom para outras áreas do trabalho. Um princípio básico para todo profissional  alcançar estabilidade no que faz é, com simplicidade e doçura na vida, elogiar seu próprio ofício e valorizar o serviço dos demais, com todas as suas intempéries.
 
Com muita dor e um pouco de ressentimento eu escutei uma pessoa criticando seu chefe ao dizer: “Não critica, mas também nunca elogia”. Somente um coração endurecido pela mundanidade consegue viver sem a experiência do elogio.
 
Não é para triunfar ninguém com os elogios é, antes, para reconhecer que pertencemos a nós, mas também a alguém. O elogio é um reconhecimento da disponibilidade para servir, uma entrega que se consome com os sofrimentos diários; é uma disposição pela beleza e bondade da vida. Ao elogiar, se valoriza o talento de outrem.
 
Na valorização do que o outro tem de bom em suas ações é como dizer: “deixa-me, caro chefe, ser eu mesmo no meu trabalho!”. Este respeito pode gerar confiança e empatia pelo que se desempenha. Quanto mais segurança um empregado tem no seu emprego, ele pode ser mais proativo nas decisões do seu ofício e ainda pode, segundo suas próprias condições, ajudar a desenvolver todo o processo da empresa. Basta, todavia, valorizar o empenho dos profissionais e não ter receio de elogiar cada um deles na medida que fizerem suas obrigações com zelo e segurança.
 
O trabalho não se faz solitário, isolado da sua prática, antes, em conjunto, pois na coletividade fica menos propenso o cansaço, a fadiga do labor, que vê sentido por meio de palavras que se trocam enquanto se exerce uma atividade. A palavra, o diálogo, conta muito para a eficácia do serviço. O resultado deste serviço se torna extraordinário quando consegue dialogar com o essencial da ocupação de cada trabalhador, que faz seu ofício com muito amor.
 
O amor no serviço exige uma dimensão humana que não se pode excluir que é sua missão no mundo: ser feliz e encontrar sentido em todo o encanto que a beleza da vida pode o oferecer. O que desvaloriza o trabalhador na sua ação é quando ele próprio se converte apenas no profissional e esquece que é humano.
 
Neste caso, dificilmente conseguirá responder positivamente a esta indagação inicial: Você acredita no que faz? Ou, para ajudar a pensar, você é feliz ao ponto de elogiar a profissão que exerce atualmente? Você respeita e valoriza o trabalho das outras pessoas? Saiba, você sendo profissional ou não, que o elogio profissional é um discurso trabalhoso, mas não é impossível atingir. Assim, acredite, elogie, respeite e valorize sua profissão, bem como a profissão das demais pessoas.

Padre Joacir d’Abadia, filósofo autor de 15 livros, sendo os mais recentes: “O Humano do Padre”, “Aos cuidados da sabedoria” e “Vivás-Vasti: o contemplador”, membro de 3 Academias de Letras e da “Casa do Poeta Brasileiro”

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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