A Audácia dos Invertidos’: livro aborda sobre a história do movimento LGBTQI+ no Rio de Janeiro
De autoria de Rodrigo Faour, “A Audácia dos Invertidos” conduz o leitor por um mergulho profundo na formação cultural, social e política do movimento LGBTQI+ no Rio de Janeiro
Nomes de destaque
Como apontou Faour em conversa com o Aventuras, o movimento carioca se construiu pela força somada de indivíduos muito distintos entre si. No espectro mais marginalizado, surge a figura de Madame Satã, um ícone de enfrentamento e sobrevivência em meados do século 20. No extremo oposto, destacam-se o luxo e o brilho de Clóvis Bornay, mestre dos concursos de fantasias carnavalescas e símbolo de glamour.
Entre esses polos, há diversos nomes que rasgaram fronteiras e desafiaram normas com uma coragem que atravessou eras: Rogéria, estrela travesti com trânsito em todos os nichos artísticos desde 1964; Angela Ro Ro, que nos anos 1980 se tornou a primeira cantora a se assumir lésbica em nível nacional; Gal Costa e Caetano Veloso, cuja arte e comportamento foram essenciais para quebrar padrões rígidos de gênero; os Dzi Croquettes, que revolucionaram o teatro e a performance; e Roberta Close, cuja presença ficou atrelada, nos anos 1980, a uma provocação emblemática: “A mulher mais bonita do Brasil é homem”.
Isto para não falar de Eloína dos Leopardos, nossa primeira madrinha de bateria e, depois, criadora de um show em que explorava a sensualidade e nudez masculina que ficou dez anos em cartaz”, destacou o autor.
Importância dos espaços

Madame Satã – Revista Híbrida
Além das inúmeras personalidades, entre famosas e anônimas, Faour destaca ainda um segundo pilar importantíssimo para a construção coletiva da cultura LGBTQI+ carioca: os espaços de socialização. Bailes, boates, concursos e grupos de ativismo exerceram papéis centrais na consolidação do movimento. Cada um deles foi um ato político.
O La Cueva, por exemplo, foi um estabelecimento criado em 1964 e segue em atividade até hoje, sendo um dos espaços LGBTQI+ mais antigos do país. Criar um local assim, em plena ditadura era um ato de coragem.
O Baile do Travesti, criado em 1955, inaugurou uma tradição de celebração e enfrentamento e, em 1974, no Teatro Carlos Gomes, o produtor Luiz Garcia lançou o Miss Boneca Pop, um concurso que deu visibilidade a gays e travestis em um palco tradicional da cidade — um escândalo para a época.
A efervescência também se manifestava na criação de prêmios como o Oscar Gay, de Pedrinho Martins, que reunia celebridades com artistas travestis marginalizadas, quebrando muros sociais que pareciam intransponíveis.
E, no campo político, surgiam iniciativas pioneiras, como o grupo Somos, primeiro núcleo organizado de ativismo LGBT no Brasil. Segundo o historiador, cada um desses espaços, de formas distintas, ajudou a construir o que hoje chamamos de movimento LGBTQI+.
Importância da música

Caetano Veloso – “Transa” – Divulgação
Questionado sobre a importância da música para o movimento, o autor declarou que ela é expressão cultural de maior força no Brasil e que “até no quesito contracultural da virada dos anos 1960 para os 1970, e nas transgressões de sexualidade e gênero, seus artistas tiveram um impacto na sociedade dos mais expressivos”.
Desde os anos 1960 e 1970, artistas romperam padrões e sugeriram, em suas obras e performances, outras possibilidades de existir. Gal Costa, Maria Bethânia, Maria Alcina e Leci Brandão transgrediram comportamentos e discursos. Angela Ro Ro abriu o jogo sobre sua vida afetiva, enquanto Marina Lima falava abertamente sobre homo e bissexualidade em entrevistas e canções. Simone, ainda que mais discreta, viveu publicamente um romance de grande visibilidade.
Entre os homens, Caetano Veloso foi um dos primeiros a desafiar os códigos de masculinidade, ainda na Tropicália. Depois do exílio, intensificou esse movimento, abrindo caminho para artistas que levariam a ambiguidade de gênero ao centro do palco, como Ney Matogrosso, cujo impacto foi imediato e duradouro. Edy Star, Ronaldo Resedá, Cauby Peixoto e Agnaldo Timóteo, cada qual à sua maneira, também contribuíram para desenhar essa estética de ruptura. Muitos desses nomes estavam, direta ou indiretamente, ligados ao Rio de Janeiro.
Resistência
Durante suas pesquisas, Faour afirma ter se surpreendido sobretudo com a “audácia dos invertidos”, isto é, em “ver como pessoas das mais pobres às mais abastadas intelectualmente, famosas ou não, fizeram do Rio um polo de experimentação na área de gênero e sexualidade, e de forma natural.”
Em um contexto de repressão constante, sendo policial, estatal, familiar, religiosa ou social, homens gays, mulheres lésbicas, travestis e pessoas trans insistiam em existir. Ser afeminado podia significar prisão
Organizar um baile podia terminar em batida policial. Ainda assim, se um evento era proibido, outro era marcado; se uma boate era fechada, outra surgia; se um ponto de pegação era vigiado, novos espaços eram inventados. Do Centro a Copacabana, da Zona Norte à Baixada Fluminense, nichos de encontro e transgressão floresciam por toda parte.
Essa vitalidade fez do Rio de Janeiro uma referência internacional. Não por acaso, como diz Milton Cunha no epílogo citado por Faour, a cidade ganhou fama de ser um lugar “onde o pecado pesa menos”.






