“A AUDÁCIA DOS INVERTIDOS”

A Audácia dos Invertidos’: livro aborda sobre a história do movimento LGBTQI+ no Rio de Janeiro

De autoria de Rodrigo Faour, “A Audácia dos Invertidos” conduz o leitor por um mergulho profundo na formação cultural, social e política do movimento LGBTQI+ no Rio de Janeiro

Um dos maiores especialistas em história da música brasileira, o pesquisador Rodrigo Faour, acaba de lançar A Audácia dos Invertidos (Ed. Record), obra dedicada à reconstrução da trajetória do movimento LGBTQI+ no Rio de Janeiro, especialmente entre as décadas de 1950 e 1980.
Inspirado em documentos de acervos pessoais e em depoimentos de quem viveu essa história por dentro, Faour realiza um mergulho profundo na formação cultural, social e política da comunidade. O livro revela como, ao longo de décadas, famosos e anônimos teceram um dos capítulos mais vibrantes da diversidade no Brasil, ajudando a moldar a cultura queer e a própria identidade da vida urbana carioca.

Nomes de destaque

Como apontou Faour em conversa com o Aventuras, o movimento carioca se construiu pela força somada de indivíduos muito distintos entre si. No espectro mais marginalizado, surge a figura de Madame Satã, um ícone de enfrentamento e sobrevivência em meados do século 20. No extremo oposto, destacam-se o luxo e o brilho de Clóvis Bornay, mestre dos concursos de fantasias carnavalescas e símbolo de glamour.

Entre esses polos, há diversos nomes que rasgaram fronteiras e desafiaram normas com uma coragem que atravessou eras: Rogéria, estrela travesti com trânsito em todos os nichos artísticos desde 1964; Angela Ro Ro, que nos anos 1980 se tornou a primeira cantora a se assumir lésbica em nível nacional; Gal Costa e Caetano Veloso, cuja arte e comportamento foram essenciais para quebrar padrões rígidos de gênero; os Dzi Croquettes, que revolucionaram o teatro e a performance; e Roberta Close, cuja presença ficou atrelada, nos anos 1980, a uma provocação emblemática: “A mulher mais bonita do Brasil é homem”.

Isto para não falar de Eloína dos Leopardos, nossa primeira madrinha de bateria e, depois, criadora de um show em que explorava a sensualidade e nudez masculina que ficou dez anos em cartaz”, destacou o autor.

Importância dos espaços

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Madame Satã – Revista Híbrida 

Além das inúmeras personalidades, entre famosas e anônimas, Faour destaca ainda um segundo pilar importantíssimo para a construção coletiva da cultura LGBTQI+ carioca: os espaços de socialização. Bailes, boates, concursos e grupos de ativismo exerceram papéis centrais na consolidação do movimento. Cada um deles foi um ato político.

O La Cueva, por exemplo, foi um estabelecimento criado em 1964 e segue em atividade até hoje, sendo um dos espaços LGBTQI+ mais antigos do país. Criar um local assim, em plena ditadura era um ato de coragem.

O Baile do Travesti, criado em 1955, inaugurou uma tradição de celebração e enfrentamento e, em 1974, no Teatro Carlos Gomes, o produtor Luiz Garcia lançou o Miss Boneca Pop, um concurso que deu visibilidade a gays e travestis em um palco tradicional da cidade — um escândalo para a época.

A efervescência também se manifestava na criação de prêmios como o Oscar Gay, de Pedrinho Martins, que reunia celebridades com artistas travestis marginalizadas, quebrando muros sociais que pareciam intransponíveis.

E, no campo político, surgiam iniciativas pioneiras, como o grupo Somos, primeiro núcleo organizado de ativismo LGBT no Brasil. Segundo o historiador, cada um desses espaços, de formas distintas, ajudou a construir o que hoje chamamos de movimento LGBTQI+.

Importância da música

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Caetano Veloso – “Transa” – Divulgação

Questionado sobre a importância da música para o movimento, o autor declarou que ela é expressão cultural de maior força no Brasil e que “até no quesito contracultural da virada dos anos 1960 para os 1970, e nas transgressões de sexualidade e gênero, seus artistas tiveram um impacto na sociedade dos mais expressivos”.

Desde os anos 1960 e 1970, artistas romperam padrões e sugeriram, em suas obras e performances, outras possibilidades de existir. Gal Costa, Maria Bethânia, Maria Alcina e Leci Brandão transgrediram comportamentos e discursos. Angela Ro Ro abriu o jogo sobre sua vida afetiva, enquanto Marina Lima falava abertamente sobre homo e bissexualidade em entrevistas e canções. Simone, ainda que mais discreta, viveu publicamente um romance de grande visibilidade.

Entre os homens, Caetano Veloso foi um dos primeiros a desafiar os códigos de masculinidade, ainda na Tropicália. Depois do exílio, intensificou esse movimento, abrindo caminho para artistas que levariam a ambiguidade de gênero ao centro do palco, como Ney Matogrosso, cujo impacto foi imediato e duradouro. Edy Star, Ronaldo Resedá, Cauby Peixoto e Agnaldo Timóteo, cada qual à sua maneira, também contribuíram para desenhar essa estética de ruptura. Muitos desses nomes estavam, direta ou indiretamente, ligados ao Rio de Janeiro.

Resistência

Durante suas pesquisas, Faour afirma ter se surpreendido sobretudo com a “audácia dos invertidos”, isto é, em “ver como pessoas das mais pobres às mais abastadas intelectualmente, famosas ou não, fizeram do Rio um polo de experimentação na área de gênero e sexualidade, e de forma natural.”

Em um contexto de repressão constante, sendo policial, estatal, familiar, religiosa ou social, homens gays, mulheres lésbicas, travestis e pessoas trans insistiam em existir. Ser afeminado podia significar prisão

Organizar um baile podia terminar em batida policial. Ainda assim, se um evento era proibido, outro era marcado; se uma boate era fechada, outra surgia; se um ponto de pegação era vigiado, novos espaços eram inventados. Do Centro a Copacabana, da Zona Norte à Baixada Fluminense, nichos de encontro e transgressão floresciam por toda parte.

Essa vitalidade fez do Rio de Janeiro uma referência internacional. Não por acaso, como diz Milton Cunha no epílogo citado por Faour, a cidade ganhou fama de ser um lugar “onde o pecado pesa menos”.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.
 
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Madame Satã, Angela Ro Ro, Clóvis Bornay e Roberta Close – Arquivo Nacional, Divulgação, MBRTV e Arquivo Pessoal

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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