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A complexa arquitetura para tirar o PT do Planalto

A complexa arquitetura para tirar o PT do Planalto
 
 
Pensar em como a nossa elite conspirou longos 13 anos para ejetar a soberania popular do Planalto faz a gente pensar na força deste partido político prestes a fazer 40 anos.
É a vida, é bonita e é bonita.
E é engraçada.
Quando a gente for estudar história mais adiante, um dos capítulos mais instigantes será este: “A complexa arquitetura burguesa para tirar o Partido dos Trabalhadores do poder.”
Porque no voto ia ser realmente difícil.
Lembro do ministro do STF Gilmar Mendes desolado dizendo em idos de 2014 mais ou menos o seguinte: “com todos esses programas sociais será impossível tirar o PT do governo”.
Pobre Gilmar. Quase foi baleado por Rodrigo Janot – outro ídolo fascista desse câncer judicial que é a Lava Jato – mas sobreviveu para se arrepender parcialmente dos serviços prestados ao anti-petismo branco. Teve mais sorte que Teori Zavascki.
Divertido é – e trágico. Pensar em como a nossa elite conspirou longos 13 anos para ejetar a soberania popular do Planalto faz a gente pensar na força deste partido político prestes a fazer 40 anos.
Um sentimento ambíguo, sem dúvida.
Aos fatos já históricos.
Depois de três derrotas seguidas, Lula vence. Não fossem essas três derrotas, talvez, ele nem tomasse posse. Foram exatamente essas três derrotas que tornaram a legitimidade de Lula e do PT algo inatacável para a nossa elite assassina. Tiveram de engolir o mais legítimo dos presidentes eleitos da história, porque foi um presidente que sempre apostou na democracia e soube perder.
Não dava para impedir sua posse em 2003, “lamentavelmente”.
Mas a energia de ódio começou a se acumular ali. É terrivelmente frustrante não poder exercer seu maior talento (o talento golpista das nossas elites) porque seu maior inimigo (Lula) lhe desferiu um “nó tático” genial.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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