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A Culpa é do Presidente  

A Culpa é do Presidente  

Por Iêda Leal

O secretário de Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, foi demitido depois de publicar um vídeo em que cita o discurso e imita Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler. Não há coincidência inocente no uso das frases e da postura nazistas.

O discurso do ex-secretário foi considerado pelo presidente, ao demiti-lo, apenas “infeliz” porque o seu subordinado disse no momento errado uma verdade defendida por ele e aliados. Afinal, o seu discurso escancara a raiz do pensamento deste governo racista, machista e homofóbico.

O que Alvim fez foi retirar as sombras do discurso de ódio promovido e divulgado pelo presidente, evidenciando o caráter nazista do governo, sem disfarces. Isto incomodou os poderosos que apoiam e inflamam a política econômica de Paulo Guedes e Rodrigo Maia.

Exonerar Alvim não minimiza o comprometimento do governo com o ideário nazi-fascista. Ao contrário, revela a estratégia do tipo de governo que colocou o Brasil no painel internacional dos crimes contra a humanidade.

O governo tenta nos inviabilizar e destruir nossas forças com ações antidemocráticas, autoritárias, arbitrárias. Porém, mais do que nunca, não podemos nos omitir diante dos ataques deliberados contra a população negra, os povos indígenas, mulheres, comunidade LGBT+, artistas, jornalistas e contra a classe trabalhadora.

Precisamos nos organizar nacional e internacionalmente para a luta. Com a força inspirada na luta daqueles e daquelas que enfrentaram o nazismo, a escravidão, a ditadura, a xenofobia e todas as formas de opressão; vamos organizar uma frente contra esse governo. Essa é a chamada. Vamos agora!

Não aceitamos um governo nazi-fascista. Nunca!!! Nossos passos vêm de longe. Nossa luta continua!

Iêda Leal – Coordenadora Nacional do Movimento Negro Unificado (MNU).

Foto: EBC

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

 

 

 

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