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A força feminina da Pimenta Baniwa

A força feminina da Pimenta Baniwa

A força feminina da Pimenta Baniwa

Do cultivo das pimenteiras à rotulagem, envase e gerenciamento das Casas da Pimenta, o trabalho das mulheres sustenta a produção da jiquitaia, que cresce no mercado nacional e internacional…

Por Roberto Almeida/ISA

Quem sai da comunidade Canadá leva mais ou menos uma hora para chegar. Primeiro, é preciso cruzar o rio Ayari, cheio em maio, no bote com motor. Depois, passar por um igapó e desembarcar na beira, ainda chão de areia, para então caminhar.

À frente na trilha, Nazária Mandu Lopes, com aturá vazio nas costas, é seguida por Ilda Fontes da Silva e Nazária Andrade Montenegro Fontes. Mulheres baniwa em busca de muitas, muitas pimentas — Aatti, na língua Baniwa, do tronco linguístico Aruaque — para celebrar a inauguração da Casa da Pimenta Takairo na comunidade Canadá, Terra Indígena Alto Rio Negro (AM).

A caminhada de 40 minutos, em passos largos de quem conhece a mata, é pontuada por um igarapé acobreado, de água fria na altura do joelho. O caminho segue até a chegada na roça, que é como a abertura de um novo horizonte.

A terra é firme, coberta de troncos queimados. Entre eles, desponta uma infinidade de mandiocas. As pimenteiras ficam em um espaço separado na roça de Nazária. Ali, frutos de tamanhos diversos brilham em vermelho, amarelo, roxo. Os nomes são especiais: bico-de-mutum (koitsi hitako, em baniwa), braço de camarão (dzaaka inapa), bico de peixe lápis (dzoodzo hitako), entre tantos outros. (Saiba mais no livro Pimenta Jiquitaia Baniwa.)

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Mulheres baniwa trabalham no cultivo e colheita das pimentas. O processo é finalizado em família: Nazária e suas filhas terminam de escolher os frutos. Fotos: Carol Quintanilha/ISA

Nazária colhe e conversa, conversa e colhe. Despeja o colorido no aturá. “Essa roça aqui é feita pelo pai das minhas filhas sozinho. Depois de queimada, aproveitamos esse espaço aqui para fazer coivara [técnica de queima e plantio], para formar espaço para plantar essas pimenteiras”, disse. As parceiras baniwa ajudam na colheita. O aturá logo fica iluminado, pronto para retornar à comunidade.

Tantas e tão diversas — são ao todo 78 variedades registradas — as pimentas estão na mesa do povo Baniwa todos os dias. Na quinhapira (pimenta + peixe, em Nheengatu), uma caldeirada poderosa e colorida, ou na caça moqueada e pilada com pimenta desidratada. A ardência é forte mas breve, e alimenta os ânimos.

Os saberes de Nazária são exemplos vivos do funcionamento do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, declarado em 2010 Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Eles envolvem as técnicas de manejo da roça e dos quintais, o sistema alimentar, os utensílios de processamento e armazenamento e a formação de redes sociais de trocas de plantas e conhecimentos associados.

Com o aturá de Nazária cheio, e a noite se aproximando, chegava a hora de retornar para a comunidade, que se aprontava para a festa do dia seguinte, 7 de maio, dia de abrir as portas da Casa da Pimenta Takairo. A quinta unidade de uma rede de casas de beneficiamento da Pimenta Jiquitaia Baniwa que hoje pontua os rios Negro, Içana e Ayari.

Assista ao vídeo desta história:

Para garantir um futuro melhor

Takairo, na língua baniwa, é um besouro pequeno e potente, capaz de serrar grossos galhos de árvore que, caídos no chão, sinalizam às comunidades que já é tempo de abrir roças.

Quando a Casa da Pimenta Takairo foi inaugurada, com a comunidade Canadá em festa, o desenho do besouro foi desvelado. Nazária novamente à frente, no topo da escada, exibia seu balaio com o colorido das pimentas.

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Festa de abertura da Casa de Pimenta Takairo, na comunidade Canadá, rio Ayari. Fotos: Carol Quintanilha/ISA

“Agora que nós temos Casa da Pimenta na nossa comunidade, pretendo aumentar mais um pouco o plantio das pimentas para poder vender e receber meu dinheirinho. Assim, vou poder comprar materiais que preciso em casa. Como nós estamos morando tão longe da cidade, sempre temos dificuldade de ter acesso a mercadorias”, contou Nazária.

Gerar renda com as pimentas foi uma demanda das mulheres baniwa, como Nazária. Em 2005, na assembleia da Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi), elas pressionaram por uma alternativa.

“Foi feito um levantamento de recursos naturais para trabalhar sem danificar o meio ambiente; citaram o cipó titica, a farinha, a pimenta, entre outros. Selecionaram a pimenta porque é fácil de plantar, todas as mulheres plantam, é fácil de manejar e ainda por cima é bem consumida na região por qualquer pessoa”, relembra Alfredo Brazão, gerente de comercialização da Oibi.

Em passos pequenos, mas firmes, a cadeia produtiva da pimenta foi se estruturando. As vendas começaram tímidas. Mas o produto final, a Pimenta Jiquitaia Baniwa, uma nobre desconhecida, passou a ganhar corpo e faturamento.

Entre 2012 e 2017, foram vendidos 20 mil potinhos de Pimenta Baniwa. A renda é repassada integralmente para as famílias produtoras e os gerentes da Rede de Casas da Pimenta

Para Nelson da Silva Tomé, professor da Escola Tiradentes Eeno Hiepole, na comunidade Canadá, a renda vem em boa hora para melhorar as perspectivas dos jovens e o bem viver do povo Baniwa. “Com as pimentas vendidas, receberemos nosso pagamento e, com o dinheiro, poderemos comprar materiais necessários para nós, roupas para nossos filhos, construiremos casas para nossos filhos e, assim, vamos garantir um futuro melhor para eles”, disse.

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Selma da Silva Lopes e Walter da Silva Lopes, co-gerentes da Casa da Pimenta Takairo. Fotos: Carol Quintanilha/ISA

A Casa da Pimenta Takairo, na comunidade Canadá, deve receber pimentas das roças de 25 famílias. A expectativa de Walter Lopes da Silva, co-gerente da unidade, é entregar 360 potes de 15g a cada três meses.

“Esta pimenta é boa. Ela é feita com bastante cuidado. As produtoras entregam pimenta frescas para nós. Queremos mandar a nossa pimenta para o não-indígena experimentar o nosso alimento. Espero que eles gostem e que comprem sempre conosco”, contou Selma da Silva Lopes, que ao lado de Walter é co-gerente da casa de pimenta.

No final de maio Selma e Walter entregaram o lote C01, o primeiro produzido por eles, na sede da Oibi em São Gabriel da Cachoeira. Foram 509 potinhos produzidos a partir de pimentas colhidas nas roças de 19 famílias. Até dezembro, a expectativa é chegar à meta de 2100 potes envasados.

Na ponta do lápis, os ganhos ultrapassam o quesito financeiro. As associações envolvidas com a produção da pimenta ganham em capacidade de gestão e empreendedorismo para geração de renda sustentável. A autoestima também entra em cena. Mulheres e homens Baniwa destacam que estão difundindo sua cultura através da pimenta. Como dizem as lideranças: “Cada potinho é como um livro que a gente escreve e envia para o mundo ler”.

O dividendo político do momento é o protagonismo feminino à frente da produção da pimenta, bem como do artesanato. Ficou evidente que as mulheres passaram a ganhar proeminência nas associações indígenas de base do Rio Negro, como conta Elizângela Costa, coordenadora do Departamento de Mulheres da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro).

“Através da pimenta e através dos artesanatos, as mulheres indígenas começaram a ser presidentes de associações de mulheres. Antes, não eram. Todas as nossas associações eram gerenciadas pelos homens”, lembra Elizângela Costa, coordenadora do departamento de mulheres da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro). “Claro que precisamos melhorar, mas através desse poder elas conseguiram também gerenciar associações”, comemora.

Frente às ameaças, mais pimenta

A pimenta faz parte do dia a dia das comunidades do Rio Negro. Entre os Baniwa, em dias de festa, ela é a estrela de todos os pratos. O salto comercial do produto, a partir do trabalho nas Casas da Pimenta, foi surpreendente.

“Quando começaram o projeto da pimenta, as mulheres não tinham imaginado que um dia ela seria consumida em vários estados ou países como está acontecendo”, contou Alfredo Brazão, gerente de comercialização. “Com essas notícias, as produtoras ficam felizes pois sabem que a pimenta [leia-se, o povo Baniwa] está cada vez mais famosa. Isso é uma grande alegria para elas.”

A Pimenta Baniwa avança de maneira consistente nos mercados nacionais e internacionais.

O produto está nos cardápios de restaurantes estrelados como o D.O.M., de Alex Atala, e Maní, de Helena Rizzo, e é insumo para produtos inovadores, como o Molho de Pimenta Jiquitaia com Açaí — Orgânica da Soul Brasil, bem como da barra de chocolate com Pimenta Baniwa da Na’Kau.

As parcerias para novos produtos, desenvolvidas com apoio do Selo Origens Brasil, envolve um termo de cooperação e repasse de parte do lucro das vendas para um fundo de sustentabilidade Baniwa e Koripako. Ao todo, são 29 parceiros comerciais.

Na Irlanda, a cervejaria Hopfully Brewery produziu a Baniwa Chili, um rótulo sazonal com abacaxi, hortelã e a pimenta. No acordo de uso de imagem, um contrato inédito de contrapartidas às comunidades foi estabelecido entre cervejeiros e indígenas. Nos Estados Unidos, a Pimenta Baniwa é comercializada pela Culinary Culture Connections, empresa dedicada à venda de produtos da floresta com relações justas e transparentes.

Ao mesmo tempo em que o produto avança, as comunidades são constantemente achacadas por empresários e garimpeiros, que buscam aliciar lideranças para obter permissão informal para explorar suas terras.

Pouco antes da inauguração da Casa da Pimenta Takairo, na comunidade Canadá, empresários propuseram aos Baniwa a exploração de minérios — tantalita, entre outros — nas margens dos rios Içana e Ayari. Foram desmascarados. Uma carta pública de rechaço, assinada pela comunidade de Inambu e endereçada à Funai, ao Ministério Público Federal do Amazonas e à Foirn, foi lida diante de todos em cerimônia na comunidade.

“Estamos cientes de que os nossos direitos territoriais são vistos como impasses pelos olhos de interesse de políticos e empresários. Sabemos que a política do cenário nacional não é favorável aos nossos direitos”, afirma o texto.

A pressão por mineração e garimpo na Terra Indígena Alto Rio Negro é de longa data, assim como a exploração dos 23 povos indígenas que habitam a região há milênios.

“Os garimpeiros e empresários são as grandes ameaças para nós. Em nosso rio Içana e em toda a região do rio Negro, desde 1984, ou um pouco antes ou depois, eles passaram por aqui e chegaram a solicitar uns pedaços de terra para desenvolver pesquisas sobre recursos minerais”, conta André Baniwa, liderança da Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi).

Ele continua: “Nosso trabalho é um trabalho que se desenvolve em pequenos passos. Por isso, eles [garimpeiros e empresários] estão batalhando contra nós o tempo todo, querendo nos vencer para que a gente seja sempre dominados por eles.”

O contraponto à altura à predação de seu território, quem oferece é Nazária Mandu Lopes e seu aturá cheio de pimentas prontas para serem desidratadas, piladas e colocadas nos potinhos.

“A pimenta é a comida tradicional dos nossos avós. Eles usavam para temperar comida, faziam quinhapira para oferecer aos parentes que os visitavam. Por isso, a pimenta é inseparável da nossa comida. Não dá para perder o valor, muito pelo contrário, vamos continuar plantando nossas pimentas para sempre e ofertar mais para pessoas que estão por vir”, disse a produtora.

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Ivanílson Pascoal Rodrigues beneficia a Pimenta Baniwa na Casa de Pimenta Yamado, em São Gabriel da Cachoeira. Fotos: Carol Quintanilha/ISA

Pimenta Baniwa pode ser adquirida na loja online no site do Instituto Socioambiental, no Mercado de Pinheiros, em São Paulo, e em empórios pelo país. Veja a lista aqui.

O projeto da Pimenta Baniwa é executado através de uma parceria de longo prazo que envolve o ISA (Instituto Socioambiental), o Instituto ATÁ e a Oibi (Organização Indígena da Bacia do Içana). A reportagem foi realizada com apoio da União Europeia.

Fotos: Carol Quintanilha/ISA

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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