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A Lenda Lago Paranoá

A LENDA DO PARANOÁ

A Lenda do Lago Paranoá

Reza a lenda que há muito, muito tempo, antes da chegada dos primeiros bandeirantes ao Planalto Central, ali já existia um povo indígena: os Goiases. E dentre eles crescia um belo jovem indígena chamado Paranoá.

Infelizmente o pai de Paranoá havia morrido por picada de cobra cascavel e sua mãe foi embora para outras terras na companhia de um jovem guerreiro. Paranoá cresceu, então, sob os cuidados do cacique dos Goiases. Os dois se davam muito bem e, juntos, se preocupavam com o futuro de seu povo, que se reduzia cada vez mais.

Certo dia, Tupã apareceu a Paranoá em sonhos. Disse que ele deveria ficar vivendo no Cerrado, mesmo quando todo o seu povo tivesse partido. Disse ainda que mandaria uma linda mulher a quem Paranoá deveria amar: com ela teria filhos e repovoaria toda aquela terra.

Obediente, Paranoá ficou sozinho aguardando sua prometida. Enquanto esperava, o jovem andava pelas matas e foi durante essas caminhadas solitárias que Jaci, a lua, de tanto admirá-lo, se apaixonou por ele.

Um dia, Paranoá ouviu sons diferentes na floresta e foi verificar. Avistou uma linda mulher e perguntou: “É você a minha prometida?”. Estendendo os braços para ele, a mulher afirmou: – Sim, sou Brasília, a sua prometida.

Fiel ao seu sonho, Paranoá começou a andar em direção a Brasília. Finalmente não estaria mais sozinho. De repente, no entanto, percebeu que seu coração já tinha dona: era de Jaci, a lua. O amor dela tinha sido constante durante todos aqueles anos.

Tupã percebeu o que estava acontecendo e, decepcionado com Paranoá, resolveu transformá-lo num lago, cujos braços estendidos tentam alcançar Brasília, que foi transformada numa linda cidade, ao mesmo tempo em que contempla a distante lua.

Dizem os mais antigos que, se um dia Jaci conseguir levar Paranoá para viver com ela no céu, Brasília desaparecerá tão rápido quanto surgiu.

Fonte: Imagine um Lugar  – com edições de Zezé Weiss


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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