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Cerrado: Essa paixão que vive em mim!

Cerrado – essa paixão que vive em mim!

Vivemos no Cerrado, somos parte desse solo seco, envolto em uma nuvem areienta, que chega com os ventos campineiros de agosto e só cede lugar à chuva fininha, demorona, chuva do caju, em meados de setembro.

Depois, caem os céus em pancadas. A chuvarada maneira de setembro vem para abrir alas às chuvas torrenciais, temporãs, que caem na cabeceira dos rios e vão se avolumando. Sem medo de nada. Descem correnteza abaixo de goela aberta, engolindo, arrastando e depois vomitando turbilhões, a nos lembrar de sua força e a nos dizer, estrondosamente, que a água é força elementar da natureza, poder vital e necessário.

Água não segue lei, revira, remexe, serpenteia e sai lá adiante. Vai bebendo em sua sede insaciável barrancos, galhos, casas, gentes. Muitos já viraram também água. Fugiram às regras e não voltaram ao pó bíblico. Viraram água corrente, água bruta, para depois se transformarem em calmaria de biquinha, de olho-d’água no meio do Cerrado. Foi assim com o Zé, com a mulher e seus dois netos, também com os muitos jovens ousados e destemidos do ruído e da fúria da água. Todos se embrenharam, para nunca mais sair, nesse redemoinho.

Depois, de novo a seca. E de novo a chuva. Assim, bem separado. No Cerrado é isso. No Cerrado existe a beleza de Eros. Eros como força fecundadora do Universo, ligado à vegetação, cuidando de todas as espécies de amores. Este é o Eros que nos interessa: o princípio da vida. Eros é belo, desperta desejos, mas é filho de Gaia, a própria Terra, e rola no chão e cobre-se de folhas e de poeira.  Brinca como criança. É terra, é chão.

À primeira vista, o Cerrado exala aos que não pertencem a este solo uma desconfiança lerda. Uma desconfiança sem motivo, ou melhor, motivada pelos preconceitos históricos que se arraigaram séculos afora. Façamos algumas reflexões: não quiseram conquistar-nos desde o início?

Não viram nossas imensas riquezas? O preconceito nasce atrelado ao desconhecimento e, ainda bem, tem muitos sábios modernos que pensam que em nosso Cerrado reina o primitivo e tem onças soltas a esmo. E de fato tem: onças bravias na defesa de seus direitos, de suas crias, de seu espaço. No Cerrado tem… onças, bruxas, duendes, segredos. Que só se desvendam a quem se despir de outros lugares, costumes, tradições, para se tornar um ser cerratense.

O Cerrado vai se mostrando aos poucos. Não possui a exuberância das florestas tropicais, nem o apelo das paisagens beira mar. Vai se mostrando, como quem nele vive, em pequenas saliências.

Qual de vocês já se debruçou sobre uma caliandra, que em seu festivo carmim espraia alegria e vermelhidão por entre a vegetação coberta de pó? Qual de vocês já se deitou debaixo de um pé de sucupira florido e cismou amores? Qual de vocês gastou tempo observando as proezas do urubu-rei e do caracará, pra ver, ali, que a cadeia alimentar e a luta pelo seu topo recomeça, instantaneamente, ao primeiro brilho do Sol?

Para mim, falar de leituras, literatura e cultura que valorizam nosso bioma me traz um enorme sentimento de pertencimento. Sim, sou deste chão sarobento, cheio de toá, chão amarelo, chão poeirento. Sou chão, sou terra, sou cerratense. Deste espaço geográfico amplio minha visão para múltiplos mundos e possibilidades, mas volto. Sempre! É aqui que meu espírito mora. Talvez amarrado num pé de pequi carregadinho de bagos. Ou anda meu espírito preso pelas cagaiteiras, nos pés de mangaba, pelos jatobás ou, simples que é, preso nas ramadas das quaresmeiras em flor.

Não basta somente saber que o Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e que ocupa uma vastidão de terras do território nacional. Importa saber que terras são essas, que povo é esse. São muitos os que vivem e sobrevivem dos recursos naturais do Cerrado: etnias indígenas esparsas e sobradas pelo acaso, quilombolas corrompidos pelo afã do mundo virtual, geraizeiros que continuam se arriscando por profissão ou afeição nas brenhas dos Gerais.

São ribeirinhos, babaçueiros, vazanteiros que traduzem e compõem o valoroso mosaico do patrimônio geográfico, histórico e cultural brasileiro. Somos, com orgulho, o povo cerratense, que habita o miolo geográfico do país.

Implica saber que estamos no Planalto Central e que o Cerrado nos cobre com sua benção. Esparrama seu manto amarelo-azul-gaio-cinzento sobre os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal. E, por bondade, estica seu manto para beiradas além no Amapá, Roraima e Amazonas.

Meus escritos têm a inicial pretensão de resgatar os mitos e lendas cerratenses. E de trazer as cores do Cerrado, o azul do nosso céu, a cor baça de nossas crianças, o amarelo do sol latejante em nossas cabeças.

Meus escritos têm a imensa vontade de contribuir para que o Cerrado em forma geográfica, histórica, ambiental, cultural, literária ou outra qualquer, seja, sobremaneira, valorizado. O Cerrado vive em mim!

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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