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A POESIA E A PROSA

A POESIA E A PROSA

Há que se destrinchar a fina linha de arremate da tecelagem dos conceitos de verso e prosa quando o objetivo do estudo é definir os elementos que integram estas modalidades textuais. O ilustre poeta, escritor e compositor de grandes sucessos musicais formosense Antonio Victor, traz significativa definição para a poesia e a prosa. Apresenta-nos , em prosa poética, belíssima reflexão acerca dessas duas interessantes figuras (estilos literários). Para quem gosta do tema perceberá uma intertextualidade entre Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, todos em diálogo com o nosso poeta Antonio Victor

A poesia é uma mulher exótica e independente. Estrada íngreme e estreita, feito porta de céu. Já vi muita gente caminhar léguas e léguas, pensando que estava nela…  Não estava. Porque ela é ingrata… Finge ser sem estar sendo. E, às vezes, o é. Porém disfarça. Poeta fulano de tal dizia ser casado com ela. Morreu iludido. Creio mesmo que ela jamais o enxergou. Dissimulada e oblíqua, às vezes violenta, nos dá de machadadas.

Mas atraente. Convidativa e sedutora, debocha dos seus possíveis clientes, exige-lhes, no mais das vezes, muito mais suor do que inspiração, e, ao final da noite, dorme com quem deseja.

Não. Nunca dormiu comigo. Conheço-lhe o cheiro, os passos, a presença, por sutil que seja. Conheço-lhe as intenções mais doces e a mais dolorosa frieza; identifico-lhe mesmo o vulto ou sua forma densa ou diáfana. Mas nunca dormi com ela.

Carlos me disse um dia onde ela mora. Imaginando que tudo valesse a pena, agigantei minh’alma, andei por mares nunca dantes navegados e caminhei por muitos anos rumo aos seus braços. Durante o trajeto, removi muitas pedras que havia no meio do caminho.

Cheguei um dia, finalmente, e, ofegante, bati à sua porta. Ô de casa; gritei. Ô de fora, respondeu-me. Posso entrar? Perguntei. Estou à tua espera, me disse amável. Abre a porta, então; foi o que eu disse. Silêncio. Trouxeste a chave? Retrucou de dentro. Silêncio maior.

E, ajoelhado à soleira da porta, com o coração nas duas mãos trêmulas, fiquei por algum tempo imaginando-a lá dentro, deitada e nua no seu divã de veludo escarlate, perfumada e úmida, com tantas palavras preparadas, quem o saberia, só para mim.

Chorei o pranto amargo dos preteridos, e segui o meu caminho. Jamais sentirei em mim o borbulhar do gênio; tampouco entenderei estrelas. E essa eterna mágoa, carregarei comigo.

Muito tempo passou. E ela me visitava, muitas vezes, em sonhos. Ora disfarçada de Vênus ou então de Nossa Senhora. Outra vez era Esfinge, então eu acordava, sobressaltado, no exato momento em que me ultimava: Decifra-me. Ou te devoro.

Sei que não a terei, nunca. Sofro por isso. Mas numa noite dessas, sofri escandalosamente e vi meu coração querendo me rasgar o peito. De supetão, topei com ela quando nem a  estava procurando. Não. Não estava sozinha. Estonteantemente bela, feliz e eufórica, aos beijos com Vinícius. Parece-me que ele estava bêbado. Mas não era a primeira vez. Ela sempre o embriaga e ele, incorrigível, é dado a homéricos porres.

Que mistérios possui essa dama e que espécie de amante é Vinícius? Ele, um louco; ela, uma prostituta. Ele, um santo; ela, uma divindade.

E, ao vê-los desaparecerem na extrema curva do caminho extremo, ainda uma vez segui também o meu caminho, agora de maneira irreversível, rumo à insípida prosa da minha vida primitiva e cada vez mais árida.

82451046 1911415625668572 7097477853716938752 nAntonio Victor – É importante figura cultural da cidade de Formosa. Escritor, poeta, compositor de inúmeras músicas que foram interpretadas por famosos cantores do Brasil.  Está com disco novíssimo na praça: Antonio Victor volume 01. Também é professor na Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. Fez letras pela UnB e foi aluno destaque  Colégio Estadual Hugo Lôbo. Levou seus escritos para o México, onde foi aclamado. Vive e mora em Formosa. Via ALANEG – Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano/RIDE

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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