10 mensagens indígenas do Brasil ao mundo

ACREDITAMOS QUE O STF NÃO ABANDONARÁ INDÍGENAS

O indigenato – ou direito originário – norteou o debate em 1988 e, de forma eloquente e fecunda, o Constituinte Originário o fez albergar no artigo 231 da Constituição. Mendes Júnior, jurista inominável e também Ministro do STF ao tempo de 1917 já defendia, com nobreza e vivacidade, o direito originário dos índios e o seu contributo vive em cada palavra incrustada no Capítulo “Dos Índios”, da Carta Política vigente.As terras do indigenato não se perdem no tempo, não se dispõem ao mercado, não se sujeitam a uso diverso do que cada etnia entenda como mais apropriado, e isso em decorrência do usufruto exclusivo e imanente que liga cada povo e cada comunidade indígena ao verdadeiramente sagrado. 

Tanto a Constituição Federal de 1988 em seu artigo 231 como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em seu artigo 14 não deixam qualquer margem interpretativa para a admissão da artimanhosa tese do Marco Temporal. A proteção dos direitos e territórios indígenas é cláusula pétrea, não havendo salto hermenêutico capaz de revogá-la.Se é certo que o texto constitucional regula dois mundos, o sagrado e o cotidiano, bem como engloba duas gentes, a originária e a colonizadora, também é certo que entre esses dois mundos há uma greta, um distanciamento abissal que somente pode ser contemporizado pela existência de um pacto de respeito mútuo. Sabemos que este pacto não foi totalmente cumprido. A República Federativa do Brasil está em mora com os povos indígenas porque não cumpriu com os mandamentos constitucionais e com a vontade do Constituinte Originário.

A União deveria ter demarcado as terras dos índios no prazo de 5 anos a partir da promulgação do Texto Constitucional e, ao não fazer, sujeitou os povos da terra a toda sorte de violência e aceitou o risco de prejuízos socioculturais e ambientais que são incalculáveis. 

Além do mais, à omissão do Estado brasileiro na política indigenista também se soma uma história de genocídio, de caçadas humanas e de violência generalizada que se naturalizou durante o trágico período da ditadura militar. Um documento histórico, conhecido como Relatório Figueiredo (disponível nos arquivos de Memória Histórica, Comissão Nacional da Verdade) narra os casos de horror que envolveram maus-tratos, expulsões de comunidades inteiras, assassinatos, castigos, torturas, doação ilegal da renda e da propriedade indígena e a consequente perda forçada do território, o uso de venenos como estricnina jogado de aviões e até a crucificação de índios, atos que foram cometidos como parte de uma estratégia genocida contra os povos e suas riquezas originarias.O Relatório, assim como outros documentos inéditos, foram revelados como resultado de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI instalada em plena ditadura militar, em 1967, e que tinha por objetivo apurar as atrocidades do Serviço de Proteção aos Índios – SPI (o que mais tarde veio a ser a Fundação Nacional do Índio – FUNAI).

Ao contrário, foi o déficit na demarcação das terras indígenas que fez manter as posses injustas de particulares sobre terras do indigenato, estimulando a prática do esbulho e outras formas de violência contra as terras e os povos.Um dos casos especialmente dramáticos que exemplifica as consequências desse déficit diz respeito à Comunidade do Povo Xavante do Território Indígena Marãiwatsédé, no município de Boa Vista (MT), ocupada há séculos pelos índios Xavante.O povo Xavante de Marãiwatsédé foi vítima do Estado Brasileiro que, por meio do Serviço de Proteção aos Índios e com o apoio de aviões da FAB, em 1966 enganou, forçou e deslocou os indígenas para outro imóvel localizado há mais de 500 km de suas terras com o fim de legitimar ocupação não indígena para a exploração da madeira, pecuária agricultura (projeto que ficou conhecido como Suiá-Missú).Logo após a remoção forçada, e diante de uma grave epidemia de sarampo que vitimou centenas de indígenas na região de São Marcos (MT), os sobreviventes resolveram, com o apoio da igreja, retornar à pé para suas terras originárias. O documentário Vale dos Esquecidos (de Maria Raduan, 2013), conta essa história, incluindo o relato de quem viveu ou sobreviveu aos abusos, como o Cacique Damião, à época uma criança de apenas 06 anos de idade, e atualmente um destacado líder a se insurgir contra a ignomínia tese do Marco Temporal.Desde que voltaram heroicamente às suas terras, o povo Xavante de Marãiwatsédé passou a enfrentar outra jornada, longuíssimos processos administrativos e judiciais para estabilizar a retomada do território, homologado pelo STF somente em 2012. Mesmo com as terras demarcadas, os Xavante vivem intranquilos e protegendo seu território de diversas tentativas de intrusão ilegal.Eis que mais uma vez o Supremo Tribunal Federal é chamado a restabelecer o respeito à ancestralidade e a garantir as terras originarias a serem demarcadas e devolvidas aos povos indígenas, conforme já preconizava o Alvará da Coroa Portuguesa de 1º de abril de 1680 que, ao cuidar das sesmarias, ressalvava as terras dos índios, considerados “primários e naturais senhores delas”.Com o julgamento que terá início nesta quarta-feira, o STF poderá reverter o curso da história de violência e garantir hígido o texto constitucional, não permitindo que fiquem impunes os crimes cometidos contra os índios e seu patrimônio, em especial, os crimes de esbulho e apropriação ilegal das terras do indigenato.São tempos sombrios para os povos indígenas e para a política indigenista. Mas, é também, em contraposição à lógica da destruição da natureza, da floresta, do meio-ambiente e dos povos indígenas, que o máximo Guardião da Constituição cumprirá a missão precípua, de impor obediência ao estatuto jurídico-constitucional dos índios, conforme quis Mendes Júnior, como já apontava o Alvará Régio e como fez valer o Constituinte Originário em 5 de outubro de 1988.Fonte: brasil247 – capa: Matheus Veloso/Apib

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(Foto: @webertdacruz)

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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