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Bacurau: Retrato de um Brasil que resiste e luta

Bacurau: Retrato de um Brasil que resiste e luta

Por Paulo Moreira Leite, para o Jornalistas pela Democracia

O Prêmio do Júri do Festival de Cannes tem uma importância inegável na trajetória de qualquer filme, em qualquer país. Mesmo que Bacurau não tivesse sido premiado, porém, não faltariam ótimas razões para ir ao cinema.

A primeira: é um ótimo filme, sob todos os aspectos. Possui um bom roteiro, sustendo por um elenco de atores de qualidade e uma direção firme de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles.

O enredo é muito bom e, como você já deve saber, pode ser acompanhado como uma referência corajosa e coerente com a tragédia política que se abate sobre o Brasil de nossos dias. Acredite. Agressivo, sem concessões, violento quando necessário, afetivo quando preciso, é uma obra com a rara coragem de ir a fundo nos problemas que expõe.

Seus contatos com o momento político brasileiro são claros e diretos, mas o filme está longe de ser um panfleto. É uma obra com valor em si, inteiramente brasileira e, ao mesmo tempo, universal.

Manifesta um respeito profundo e honesto pelos valores e necessidades de homens, mulheres e crianças de um povoado fictício do interior de Pernambuco, capazes de enfrentar a pior miséria econômica e a opressão política mais vergonhosa sem perder a dignidade e o respeito pelos próprios valores — e travar um combate de vida ou morte quando isso se faz necessário.

Não vou dar outros detalhes para permitir que os leitores desse texto tenham o direito supremo de todo espectador — usufruir a surpresa de cada cena e de cada personagem que irá surgir na tela ao longo de mais duas horas de espetáculo. Com oportunidades para a emoção e para a reflexão, o único momento previsível de Bacurau ocorre depois da cena final — quando a plateia presta homenagem a atores e diretores com  aplausos demorados.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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