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Carbon Free

Carbon Free

Por Manuel Gouveia/Portal Vermelho

Deslocaram-se em automóveis “carbon free” (1), o que de imediato levanta a questão: será que eram automóveis elétricos? Movidos a hidrogênio? Não! Eram automóveis a gasolina mas a multinacional que os explora “compensa” as emissões de carbono: diz que planta árvores no Gabão, ou que apoia a compra de fogões termoelétricos em Burkina Fasso, ou qualquer coisa do gênero. Tudo muito moderno e ainda mais “free”.
Não precisamos de refinaria, reivindica esta malta, porque podemos importar os produtos refinados de outras refinarias estrangeiras, e podemos continuar a andar de automóveis a gasolina, basta comprar o direito a poluir no mercado respectivo. A mesma malta que saúda o encerramento da Refinaria de Matosinhos, da Central Elétrica de Sines e da Central Elétrica do Pego. Que importa que quando a capacidade de produção nacional de eletricidade não é suficiente tenhamos de a importar das Centrais a Carvão, a Gás ou nucleares de outros países? Estamos no pelotão da frente da descarbonização, diz o Ministro do Ambiente, e há quem acredite, claro, e quem aplauda até.
Mas se estivéssemos de fato no pelotão de frente da descarbonizarão os manifestantes teriam ido até à Refinaria em comboios elétricos. E em vez de estarmos a desindustrializar – política desde sempre apoiada pelo neocolonialismo europeu – e de andar a reboque dos diferentes mercados e seus instrumentos especulativos destinados à concentração da riqueza, teríamos uma política nacional ambientalmente sustentável na defesa da floresta, nos transportes coletivos, na produção de energia, no urbanismo, e em tantos outros domínios. Uma política patriótica e de esquerda, diriam os caretas dos comunistas.

1 – O mecanismo permite que uma empresa poluidora adquira créditos de carbono de países que poluem menos e registre como percentual de redução de suas emissões. Uma espécie de licença para poluir. (Nota da Redação).

Fonte: Avante!

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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