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Carolina Maria de Jesus: Exemplo de superação

Carolina Maria de Jesus: Exemplo de superação pela luta e pela escrita

Falar de Carolina Maria de Jesus é trabalho de muita responsabilidade, pois devassa nossa estrutura emocional e nos confronta com a realidade dos preconceitos que ainda  trazemos fortemente em nós arraigados.

Como poderia uma mulher, pobre, favelada e negra usar a escrita para aliviar sua pesada rotina? Pois bem, Carolina Maria de Jesus desafiou desde sempre as imposições da vida e se realizou, em vida, como uma das escritoras mais importantes do Brasil.

Nascida de pais negros e analfabetos, veio ao mundo menina esperta, graúda, de olhos bem vivos para o mundo, em uma comunidade rural da cidade de Sacramento-MG, no dia 14 de março de 1914.  Desde cedo conheceu o amargor da violência e do sofrimento. Era filha ilegítima de um homem casado e cruel. Sua mãe, pensando em seu futuro, colocou-a, aos sete anos, como criada da esposa de um rico fazendeiro. Ali, frequentou a escola por dois anos.

Aprendeu o básico da língua – decodificar e codificar as letras –  e adquiriu o gosto pela leitura. Lia o que aparecia em suas mãos e assim, formando palavras, frases, decifrando parágrafos, aprendeu a ler e escrever.

Carolina em sua escrita traz grande carga de referência religiosa, herdada de sua mãe, católica fervorosa e exemplar devota, expulsa da Igreja e dos rituais católicos por ser mãe de dois filhos ilegítimos. Com a morte de sua mãe, seguiu para o sonho da cidade grande em São Paulo. Ali, na favela do Canindé, se achou parada e perdida, aos 33 anos, desempregada e grávida.

Porém, demarcando seu território com valentia, Carolina ajuntou madeira, lata, papelão, pedaços de pau e construiu sua própria casa. Teve seus filhos, o mais velho João José e outros dois, José Carlos e Vera Eunice e, para sustentá-los, passou a ser catadora de papel pelas geladas e garoentas noites são-paulinas. Era assim que conseguia seu suado dinheiro.

Dos papéis que encontrava, salvava as revistas e, quando tinha a sorte de encontrar um caderno velho, guardava-o com extremo cuidado, pois haveria de aproveitar os espaços em branco e folhas não escritas para registrar sua vida na favela, suas emoções, suas tristezas e, mais tarde, nos apresentar, em forma de livro, as mazelas sociais que queremos esconder no “Quarto de Despejo”. Carolina em seus embates com a comunidade, ameaçava os agressores com o valor da palavra escrita: “Vou anotar tudo isso em meu livro”, dizia ela.

Carolina jamais se resignou às condições impostas pelo meio e pela pobreza em que vivia. Onde reinava o analfabetismo ela se valia de sua maior arma para se defender: sabia ler e escrever, o que já era uma excepcional conquista, e ainda anotava todos os acontecimentos em seu diário.

Carolina anotou: “(…) Sentei ao sol para escrever. A filha da Sílvia, uma menina de seis anos, passava e dizia: – Está escrevendo, negra fidida! A mãe ouvia e não repreendia. São as mães que instigam.”

Recebeu a ira de alguns e também baldes de urina, cuspidas, escarros e outras humilhações de sua vizinhança. Muitos riam, achavam graça uma negra pobre saber ler e escrever, outros se sentiam intimidados e aborrecidos em saber de suas vidas e feitos, nem tão heroicos, registrados pela escrita.

Carolina, num lance de sorte, conseguiu emprego na casa de Euryclides de Jesus Zerbini, médico precursor da cirurgia de coração no Brasil, que permitia que Carolina lesse os livros de sua biblioteca nos dias de folga. Dividia seu tempo como catadora de lixo e faxineira e, nos cadernos velhos, ia registrando seu testemunho e suas impressões da comunidade em que vivia.

E assim foi amontoando memórias, histórias e cadernos. Ajuntou mais de 20, e um destes, um diário que começou a escrever em 1955, deu origem ao seu mais famoso livro: Quarto de despejo: Diário de uma favelada, publicado pela primeira vez em 1960, após ela ser descoberta pelo jornalista Audálio Dantas. Carolina também escreveu poemas, contos e diários breves, embora estes nunca tenham sido publicados.

O livro foi sucesso de público e crítica e foi reeditado mais vezes em vários países. Quarto de despejo retrata, na visão de Carolina, o que queremos esconder socialmente: detalha a lida cotidiana dos moradores da favela impregnada de imensa carga de sofrimento e descreve os fatos políticos e sociais de seu meio. Fala, sobretudo, da pobreza e de como o desespero pode alterar o comportamento das pessoas, inclusive levando-as a trair seus princípios.

Seus livros uniram conceitos até então amplamente antagônicos: favela e literatura. Sua narrativa é contestadora, jornalismo de denúncia de uma triste época de exclusão de minorias, foi e é representativa como escritura de mulheres e feminista. Também, como meio de denúncia da desigualdade social e do preconceito racial.

Por ter presenciado cenas de intensa violência doméstica, Carolina nunca quis se casar, embora fosse, quando jovem, bonita e namoradeira. Cada um de seus filhos tinha um pai diferente. Carolina tinha um sonho: ser cantora e atriz, não conseguiu realizá-lo, mas deixou seu grande legado como escritora social.

Exemplo de resistência, sua escrita e história será marco e referência para sempre na nossa cultura. Seu livro mais famoso e sua luta, tendo a escrita como arma de defesa, é que a faz relevante para o entendimento de situações de segregamento racial e social no Brasil, de ontem e, ainda de hoje, e nos permite uma maior compreensão sobre a vida dos excluídos em comunidades pobres de nosso país.

Morreu em São Paulo, no calorento 13 de fevereiro de 1977, aos 62 anos de idade. Faltaram-lhe ar e lampejo de vida. Já não vivia mais no barraco de tábuas e sim numa casinha de alvenaria no subúrbio. A escrita havia lhe dado essa importante mobilidade social. Já não era mais a favelada e catadora de papéis: era Carolina Maria de Jesus, mulher, mãe, dona de seu teto e de sua vida, e era uma escritora.  Recebedora de prêmios e homenagens, ainda hoje é exemplo de superação.


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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