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“Não, não está tudo bem. Está tudo branco”

Não, não está tudo bem. Está tudo branco, em cada canto que ando está tudo branco

Por Cassiana Rosa dos Santos

Está tudo bem Mãe, o seu filho vai voltar essa noite, durma.

Está tudo bem filhos, são só tiros lá fora nada acontecerá com a gente aqui dentro, durma.

Está tudo bem filha, não foi dessa vez, mas você consegue na próxima, talvez eles não estivessem precisando mesmo de funcionários, descanse.

Está tudo bem mamãe, não faz mal eu já acostumei brincar sozinha, não chore. Está tudo bem filho, ele só quer olhar a sua mochila, não é nada de mais. Não chore.

Está tudo bem Mãe, não me importo em brincar com a Barbie, Ela não se parece comigo, mas está tudo bem.

Está tudo bem vó. Não me importo de prender o cabelo hoje. Está tudo bem. Não, não está tudo. Não está tudo bem por que estamos infelizes.

Não está tudo bem, por que isso é racismo. Não é possível ficar tudo bem se não me deixam ser quem sou, se o lugar onde eu moro sou alvo fácil pela minha cor. É um absurdo dizer que está tudo bem quando o meu único privilégio é sobreviver.

Não, não está tudo bem. Não iremos mais só enxugar nossas lágrimas, esconder nossos filhos, nossos gritos. Filhos e filhas de mães guerreiras, pretas resilientes não iremos mais aceitar o seu “está tudo bem”.

Está tudo branco, em cada canto que ando está tudo branco. E quando a coisa ficar PRETA, ai sim vai estar tudo bem!!!

Bené chorando Stuckert e1545543820193

ANOTE AÍ:

Cassiana Rosa dos Santos: Egressa do Curso de Licenciatura em Educação do Campo Comunidade: Kalunga Vão do Moleque, município de Cavalcante Goiás.

Texto enviado por Pedro Henrique Xavier  via Facebook.

 


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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