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Chico Mendes: Um grande legado ameaçado

Chico Mendes: Um grande legado ameaçado 

Quando mataram Chico Mendes, a grande mídia brasileira tratou do caso como mais uma liderança morta na região, algo normal, corriqueiro, coisa de pé de página, quando muito.

Mas Chico já era uma personalidade mundial, premiado até pela ONU pela sua luta pacífica em defesa da vida na floresta e da própria Amazônia. O assunto reverberou mundo afora.

Já era grande o seu legado. A mudança nas relações de trabalho na mata, que era no sistema de barracão, de semiescravidão, a educação desses trabalhadores, o atendimento de saúde, são muitas as mudanças provocadas por sua luta. A maior, porém, talvez seja mesmo a da ocupação territorial, da “reforma agrária” inovadora por ele proposta e adotada pelo Estado brasileiro.

São as reservas extrativistas, que funcionam num formato que já era adotado nas áreas indígenas, em que os moradores ganham o direito de usufruto, mas as terras continuam de posse da União. Saía fora a figura do fazendeiro, o coronel, que se dizia dono de áreas que não eram dele e explorava o trabalho alheio, subjugando os povos da floresta.

No entanto, a ganância de filhos da pátria tupiniquim e de estrangeiros adentra agora com mais força pelo Acre, chegando aos sertões da mesma Xapuri de Chico Mendes. Está virando área de expansão dos grãos de exportação, que espalham transgênicos e agrotóxicos, após a retirada da madeira, sem dó nem piedade, sem a mínima consciência daquilo que hoje chamamos de desenvolvimento sustentável

Se na década de 1970 os incentivos fiscais do regime militar levaram o boi pra ocupar a região, agora é a vez da soja mecanizada, que expulsa o homem do campo. E o surto de estradas “do nada a lugar nenhum”, no dizer da época, como a Transamazônica, se repete agora, em completa dissonância com a realidade local, que é movida pela via das águas.

Os atuais mandatários do país vêm tentando diminuir o tamanho, mudar destinação ou mesmo desfazer algumas áreas de proteção de grande importância. São os casos da Floresta Nacional do Jamanxim, ao longo da BR-163 (Cuiabá-Santarém), no Sul do Pará, e da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), na margem Norte do rio Amazonas, entre o Pará e o Amapá.

Em 2015, o Brasil o incluiu no rol dos heróis da Pátria brasileira. Em 2017, o governo disse ter voltado atrás nos dois casos mais recentes de ameaça ao seu legado, mas em verdade escancarou a porteira aos saqueadores. Assim, no mês de aniversário de sua morte, é sempre bom lembrar de Chico Mendes.

Jaime Sautchuk – Jornalista. Escritor. Fundador da Revista Xapuri. Encantado em 14/07/2021, aos 67 anos de idade. Esta matéria, publicada originalmente no ano de 2018, faz parte do legado de Jaime para as gerações presentes e futuras.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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