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Um rio de sangue banhou a Amazônia

Um rio de sangue banhou a Amazônia: Dorothy – testemunha de luta e extermínio

“Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar.”

Dorothy Mae Stang, a Irmã Dorothy, foi muito mais que uma religiosa americana que se naturalizou brasileira e procurou seguir os passos do Nazareno, clamando por justiça social. Deu testemunho de morte ao optar pelo lado dos mais fracos na luta por igualdade.

Nasceu em Dayton-EUA, em 7 de junho de 1931 e tombou em solo paraense, brutalmente assassinada com seis tiros, em Anapu, no fatídico 12 de fevereiro de 2005.

Pertencia à Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur – Califórnia, uma instituição religiosa católica que atua em trabalho pastoral nos cinco continentes. Irmã Dorothy ingressou na vida religiosa em 1950 e, em 1956 emitiu seus votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.

De 1951 a 1966 foi professora em escolas da congregação. Ainda no ano de 1966 veio para o Brasil e iniciou seu ministério de evangelização e ativismo social, na cidade de Coroatá, no Maranhão.

Dorothy trouxe consigo uma extrema indignação contra as injustiças sociais e, logo ao chegar, postou-se ao lado dos trabalhadores rurais da Região do Xingu. Atuava ativamente na busca da geração de emprego e renda e implementava projetos de capacitação das pessoas e de reflorestamento em áreas degradadas.

Destaca-se entre suas inúmeras iniciativas em favor dos mais empobrecidos a fundação da primeira escola de formação de professores na rodovia Transamazônica: a Escola Brasil Grande. Suas múltiplas atividades a fizeram envolver-se nos conflitos fundiários da região, e ela ocupou este espaço com a forte intenção de minimizá-los.

Para desgosto de seus algozes, sua luta e envolvimento nos movimentos sociais no Pará e nas atividades de desenvolvimento sustentável extrapolaram os limites fronteiriços da Vila de Sucupira (um lugarzinho perdido, distante a 500 quilômetros da capital e longe da justiça oficial de nosso país), no município de Anapu, no Pará, e ganhou reconhecimento nacional e internacional. Em Vila de Sucupira reinava o império da matança, da exploração servil e dos senhores da terra.

Irmã Dorothy era membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e trazia nas veias um misto de determinação e solidariedade para com a luta dos explorados trabalhadores do campo. Defendia uma reforma agrária justa e sustentável. Era ponte do diálogo entre lideranças camponesas, políticas e religiosas, que buscavam soluções duradouras para os conflitos relativos à posse e à exploração da terra na Região Amazônica.

Irmã Dorothy recebeu em sua caminhada muito carinho, muita gratidão, mas também diversas ameaças de morte, porém jamais se intimidou. Talvez acreditasse num sentimento fraternal que interligaria a todos – fazendeiros, ruralistas e trabalhadores rurais no mesmo elo de uma só corrente solidária e amorosa. Talvez sua prática de vida devotada ao próximo a fizesse crer num altruísmo imanente em qualquer ser humano. Que pena! Estava enganada a irmãzinha.

Entretanto, a luta seguia e o reconhecimento também. Em 2004, Dorothy Stang recebeu premiação da Ordem dos Advogados do Brasil (secção Pará) pela sua luta em defesa dos direitos humanos. Em 2005, foi homenageada pelo documentário livro-DVD Amazônia Revelada.

O ano era 2005 e mal havia começado quando Irmã Dorothy Stang foi assassinada, com seis tiros: um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, no dia 12 de fevereiro, às sete horas e trinta minutos da manhã, em uma estrada de terra de difícil acesso, a 53 quilômetros da sede do município de Anapu, no Estado do Pará, Brasil. Conta-se que, antes de ser alvejada, perguntaram a ela se estava armada, ao que a guerreira Dorothy respondeu: – Eis minha arma! E mostrou a sua Bíblia. Poucos minutos depois, perderia a vida.

Dorothy recebeu sua sentença de morte decretada pelo fazendeiro Vital Miro Moura, o Bida. Ele foi condenado em um primeiro julgamento a 30 anos de prisão. Num segundo julgamento, contudo, foi absolvido. Após um terceiro julgamento, foi novamente condenado pelo júri popular a 30 anos de prisão.

Dorothy morreu porque ousou desobedecer às regras vigentes da região e porque encorajou moradores e trabalhadores a protegerem a floresta e a confiar nas técnicas agrícolas sustentáveis. Foi assassinada porque defendia a implantação de assentamentos para trabalhadores rurais em terras públicas que eram reivindicadas por fazendeiros e madeireiros da região. Suas ideias eram contrárias aos interesses do agronegócio, dos fazendeiros e latifundiários. A irmã missionária era testemunha dos incêndios provocados, da derrubada das árvores e da especulação ruralista. Tornou-se uma pedra no sapato dos poderosos.

Assim, Dorothy virou alvo e foi executada friamente, sem nenhum direito a defesa. Irmã Dorothy Stang, hoje, faz parte de uma triste estatística. Juntou-se ao Panteão dos que morreram pela Amazônia: ambientalistas, agricultores e defensores dos direitos humanos. Todos e todas vítimas de assassinatos premeditados para eliminar a oposição à destruição da floresta amazônica, a relembrar destacamos: Chico Mendes, Padre Josimo, José Claudio Ribeiro, Maria do Espírito Santo e Gonzalo Hernandez. Esses nomes sobressaem no cenário dos conflitos agrários no Brasil e se associam aos de tantos outros anônimos homens, mulheres e crianças que perdem, perderam e perderão a vida em busca de seus direitos cotidianamente desrespeitados.

A religiosa, a ativista, a missionária ambientalista morreu porque queria uma comunidade autossuficiente e por defender a floresta. Que sua morte não tenha sido em vão. Que a sua esperança de uma Amazônia mais justa não se apague. Salve, Dorothy Mae Stang!

Iêda Vilas-Boas –  Escritora

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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