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Educação é ato político para salvar o Ribeirão do Sobradinho

Educação é ato político para salvar o Ribeirão do Sobradinho

Professora da rede pública de ensino do DF inspira-se em projeto socioambiental de colega e apresenta pesquisa educacional que ressalta a multiplicidade cultural e diversidade biocultural para ajudar na preservação do Ribeirão Sobradinho

Um caminho longo e tortuoso é percorrido pelo Ribeirão do Sobradinho, curso de água de 28 km de extensão, localizado no centro-norte do Distrito Federal. Formado por diversas nascentes, ele contorna toda a cidade de Sobradinho e deságua no rio São Bartolomeu. No trajeto, as águas que correm formando cachoeiras exuberantes carregam, desde onde brotam, o martírio do esgotamento sanitário, do agronegócio, dos resíduos. A Via Sacra imposta ao Ribeirão do Sobradinho por diversas ações humanas não só deixa o corpo hídrico em condições degradantes como também ameaça a história de quem sempre viveu às suas margens.

A professora da rede pública de ensino Iassana Rodrigues Soares realizou durante mais de um ano pesquisas da diversidade cultural da Rota do Cavalo, região cortada pelo Ribeirão do Sobradinho. A partir de conversas com moradores locais, Iassana, que também tem parte de sua história construída neste espaço, constatou que as águas do rio formam a matriz da multiplicidade cultural existente ali. São ciganos, pequenos agricultores, pequenos pecuaristas, trabalhadores rurais sem terra, produtores de semente crioula. Uma diversidade biocultural rica e com conexões históricas de subsistência e afeto com o Ribeirão do Sobradinho. Povos que, devido à poluição do rio, têm sua expressão cultural abalada.

O caminho encontrado por Iassana, que trabalha com séries iniciais na Escola Classe Sítio das Araucárias, é educar as centenas de crianças dessa região para que elas conduzam o trabalho de despoluição e reconstrução do Ribeirão do Sobradinho. O objetivo é torná-las protagonistas de suas próprias histórias, a partir do pertencimento ao espaço.

“Retornarei à sala de aula para fazer a educação ambiental territorial para além dos muros da escola. O objetivo é ter a água como matriz ecopedagógica. A escola não tem o poder de mudar o sistema diretamente, mas ela tem o poder de conscientizar. Vamos usar a educação para chegar às famílias”, reflete a professora.

A ideia de Iassana tem como fonte o trabalho desenvolvido pelo professor de História Robson Eleutério. Aposentado da Secretaria de Educação do DF, Robson está empenhado há anos em ações que incentivam a inserção da ecopedagogia no Projeto Político Pedagógico das escolas.

Além de coordenador do Instituto Cerratense, o professor é criador do Ecomuseu Pedra Fundamental, que idealiza um dos mais amplos projetos de despoluição e reconstrução do Ribeirão do Sobradinho. “Os estudantes das escolas próximas ao Ribeirão moram na região, e é importante que estejam inseridos nesse processo de reconstrução do rio, pois estão ali diariamente. Eles são os personagens principais, e por isso é importante trabalhar a consciência através da educação ambiental”, explica o professor que também coordena o curta-metragem Planaltina Memória e Patrimônio e o projeto 60 Anos: Caminhamentos Missão Cruls, ambos em execução pelo Ecomuseu Pedra Fundamental.

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Além da Escola Classe Sítio das Araucárias, que já se comprometeu a entrar de cabeça no projeto de despoluição e reconstrução do Ribeirão do Sobradinho assim que a pandemia do novo coronavírus acabar, a Escola Classe Córrego do Meio e a Escola Classe Pedra Fundamental, ambas na zona rural de Planaltina-DF, também se somaram ao projeto. Para conscientizar os estudantes das três escolas que estão às margens do rio, foram desenvolvidos projetos de visitação, coleta de lixo e uma série de atividades lúdicas sobre a importância desse corpo hídrico.

“O projeto de despoluição e reconstrução do Ribeirão é muito importante, pela proximidade do Ribeirão das escolas e pelo perfil das comunidades que têm ali. Nossa escola tem 160 alunos matriculados. Todos eles são oriundos de assentamentos localizados na Rota do Cavalo. Esses alunos são muito afetados pela poluição do rio, e é determinante que essa prática de conscientização ambiental seja permanente. É isso que queremos fazer”, conta a diretora da Escola Classe Sítio das Araucárias, Queti Diettrich.

A história de luta em defesa do Ribeirão do Sobradinho mostra que mesmo em um período marcado pela desconstrução da política de proteção ambiental – entre tantos outros retrocessos –, a Educação continua sendo uma das mais eficazes ferramentas de resistência. Se de um lado o líder máximo do Poder Executivo federal nega com mentiras a crise ambiental gerada para atender ao mercado, do outro, professores fazem da educação um ato político na perspectiva da construção de uma sociedade mais consciente, justa e equânime.

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Vanessa Galassi, do Sinpro-DF


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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