Dia de Finados
No México, os vivos convidam os mortos, na noite [de finados] de todo ano, e os mortos comem e bebem e dançam e ficam em dia com as intrigas e as novidades da vizinhança.
Por Eduardo Galeano
Mas no final da noite, quando os sinos e a primeira luz da alvorada lhes dizem adeus, alguns mortos se fazem de vivos e se escondem nas ramagens ou entre as tumbas do campo-santo.
Então as pessoas os espantam a vassouradas: vão embora de uma vez, deixem a gente em paz, não queremos ver vocês até o ano que vem.
É que os defuntos são desse tipo de visita que gosta de ir ficando.
No Haiti, uma antiga tradição proíbe levar o ataúde em linha reta até o cemitério. O cortejo segue em zigue-zague e dando muitas voltas, por aqui e por ali e outra vez por aqui, para despistar o defunto, e para que ele não consiga mais encontrar o caminho de volta para casa.
No Haiti, como em todo lugar, os mortos são muitíssimos mais que os vivos.
A maioria vivente se defende do jeito que dá.

Foto: viajocomfilhos.com.br
ANOTE AÍ:
Este texto encontra-se em Os Filhos dos Dias, livro de grande escritor Eduardo Galeano. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora LP&M, 2ª Edição, dezembro de 2012.
Eduardo Galeano nasceu em Montevidéu em 13 de setembro de 1940 e faleceu também em Montevidéu em 13 de abril de 2015.
Desde 1973, viveu exilado na Argentina e na Espanha, na região da Catalunha. Para o Uruguai, regressou em 1985.
Na orelha de Os Filhos dos Dias está escrito: “Galeano comete, sem remorsos, a violação de fronteiras que separam os gêneros literários. Ao longo de uma obra na qual confluem narração e ensaio, poesia e crônica, seus livros recolhem as vozes da alma e da rua, e oferecem uma síntese da realidade e sua memória.”
Autor da obra-prima As Veias Abertas da América Latina, é também de Galeano, uma das mais singelas e ao mesmo tempo mais profundas definição de Utopia:
“A Utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a Utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar“.

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GALEANO, MEMÓRIA DO CONTINENTE
“A memória guardará o que vale a pena. A memória sabe de mim mais do que eu; e ela não perde o que merece ser salvo.“
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Foto: PCB
Escreveu livros como a lava dos vulcões. Essa era sua tinta preferida. E com a infinita ternura com que miramos as criaturas sem defesa que o mundo se empenha em esconder… para ser solidário com elas. SAbia que a memória da pele e a memória da alma devem ser cultivadas como centelhas, nas noites escuras, para termos nas mãos com que acender madrugadas…
Nota da Redação: Num dia 13 de abril, no ano de 2015, o grande escritor uruguaio Eduardo Hugles Galeano, nascido em Montevidéu em 03 de setembro de 1940, partiu dos espaços deste mundo. Nossa homenagem, sempre, ao autor de tantas obras gigantescas, formadora de consciências de gerações e gerações. Seguiremos lendo as Memórias do Fogo, seguiremos refletindo sobre as pílulas de memória de “O Filho dos Dias.”
