Kambô: E chegamos a oitava morte em seis meses…
A culpa não está na aldeia, a culpa está na ambição humana. A ânsia do lucro, em geral, subtrai a prudência do agir. Por isso é que creio que, sem informação e conhecimento sobre certas medicinas, como, em último grau o kambô, esse triste quadro de mortes e demais situações (como coma e outras coisas do tipo) só aumentarão. O kambô é uma medicina maravilhosa, mas deve ser usada com muito cuidado. Jairo Lima
Por Jairo Lima
Vou me inteirando das ‘conversas’ do mundo indígena enquanto passo a vista nas notícias do dia vendo os horrores dos atentados internacionais, as tragédias nacionais e os dramas pessoais de nossa sociedade.
Vejo que fui marcado numa postagem recente sobre mais uma morte ocorrida no Chile, envolvendo o uso do kambô. Somando-se a essa tivemos, na semana anterior, outra morte, desta vez na terra da rainha Elizabeth. Creio que, com estes dois sinistros recentes já contabilizam-se oito mortes – conhecidas – nos últimos seis meses.
O que dizer sobre isso? Não sei mais o que escrever que não ‘chova no molhado’ no assunto mas, vamos lá, seguimos.
Certo dia vi em algum comentário que o ‘problema está na aldeia’. Discordo. O problema está nas pessoas, não na aldeia. Claro que tem indígenas vendendo as ‘palhetas’ de kambô, principalmente para atravessadores, alguns destes que não tem discrição alguma de ofertar seu ‘produto’ nas redes sociais, de maneira aberta, mesmo sendo essa prática considerada crime, de acordo com a Portaria da Anvisa de 2004.
O problema não está na aldeia, está no ‘mercado consumidor’, ou seja, na demanda pelo produto.Só se vende aquilo que é buscado. Não é problema de ‘índio bandido e capitalista’, é problema de ‘branco bixo-grilo-do-mal que quer ser xamã e ganhar dinheiro’, e dessa palhaçada generalizada, também chamada de ‘terapia espiritual’ (nome chique e ridículo), que anda se espalhando pelo mundo, gerando muita grana e um bocado de zumbi espiritual.
A cada dia vejo pelas redes sociais a profusão de dawa* babaca ostentando cocar na cabeça e com as fuças pintadas de urucum, se dizendo xamã, terapeuta, ou qualquer outra babaquice dessas, oferecendo seus serviços para todo tipo de viagem que se possa imaginar, até para – acreditem – ‘acompanhamento da concepção’!!! É, galera, acreditem, não foi alguém que me disse não, eu mesmo que vi o anuncio no Facebook.
Tem gente se travestindo, melhor, se apropriando, de aspectos culturais dos povos indígenas do Acre em busca de se dar bem: usam cocar, cantam, se pintam, passam rapé, etc. Tudo gourmetizado para a clientela, ávida pela ‘sabedoria’ do guru. Que idiota isso. E sabem o que mais dá grana a esses charlatões? Vos digo: aplicação de kambô.
O que acho mais pirado nisso tudo é a sacralização/misticismo que se cria em torno de certos costumes tradicionais, onde tudo passa a se transformar em ‘dieta’: dieta do rapé, do kambô, da sananga, da argila, etc. Aí inventa-se outro monte de besteiras ritualísticas, cheia de gestos, caras e sinais, onde até um ato simples, de passar um rapé em alguém transforma-se em uma ação que mais parece uma peça de teatro de quinta categoria.
O interessante é que esses dawa que se fazem passar por índio querem ser pajé, xamã, terapeuta e o escambau-a-quatro, ao passo que ativista pelos direitos indígenas poucos querem. Afinal, não dá dinheiro isso e, infelizmente, é esse papel higiênico do capeta que move nossa sociedade ridícula e dependente de superficialidades.
Menos, gente… menos…
Sei que muitos podem pensar: Mas, isso não é bom como reconhecimento da cultura indígena?
Respondo: Não. Não é, pois, interpretar a cultura em bases tão bizarras e grotescas, mais atrapalha que ajuda. Mais diminui que engrandece.
Voltando ao assunto do kambô o que digo é que há mercado para isso. Mercado esse em franca expansão, de um jeito que ‘o sapo’ (na verdade é uma rã) já é criado em cativeiro, facilitando, assim, os negócios, e evitando-se ter que adquirir na floresta amazônica.
Mortes ocorreram, e mais mortes ocorrerão. E, enquanto reina esse caos, não se iludam achando que cabe ao governo reprimir isso. Acredito que a repressão, pura e simples, não é o caminho, já que criminalizar geral não é a solução. Não se pode tratar todos como bandidos, não adianta querer que o Estado ‘faça alguma coisa’ para reprimir de qualquer jeito, pois, os que mais vão se dar mal nisso são os que agem corretamente, acreditem.
A culpa não está na aldeia, a culpa está na ambição humana. A ânsia do lucro, em geral, subtrai a prudência do agir. Por isso é que creio que, sem informação e conhecimento sobre certas medicinas, como, em último grau o kambô, esse triste quadro de mortes e demais situações (como coma e outras coisas do tipo) só aumentarão. O kambô é uma medicina maravilhosa, mas deve ser usada com muito cuidado.
É isso, galera: não adianta achar que todo sapo vira príncipe. Alguns destes podem se transformar em algo bem feio e até matarem, acreditem…
Boa semana a tod@s!
* Não-índio
