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Mangueira, samba que teu samba é uma reza!

Mangueira, samba que teu samba é uma reza!

Mangueira, samba que teu samba é uma reza! O grande “crime” do samba da Mangueira foi a coragem e impetuosidade de comparar Jesus aos verdadeiros ´pobres do século XXI’ e ter feito essa maravilha de samba insubordinado, insolente, atrevido e insuportavelmente verdadeiro

Por Marcia E. Bortone

Se as pessoas lessem e entendessem a importância antropológica do carnaval, independente de gostar ou não de cair na folia, teriam uma visão diferente e menos preconceituosa em relação a ele.

No carnaval que passou (2020), em que o Brasil virou de cabeça pra baixo e recuou mais de 500 anos, um samba enredo veio resgatar essa visão tão cara ao carnaval, da relação profunda entre o sagrado e o profano.

Vamos falar um pouco sobre o que é carnaval em uma visão cultural. Foi na idade média que as obras sacras desceram para a praça e se transformaram em festas profanas. No Brasil, as festas populares carregam muito dessa tradição.

As festas dos santos padroeiros, principalmente nas pequenas cidades, com quermesses, fasta de roças para os mais diferentes santos são um exemplo vivo. Após toda uma liturgia, procissões, novenas, etc., acabam sempre com comilança, dança e muita bebida.

O carnaval tem essa característica. É um ritual onde se celebra Baco e as orgias, momento tão importante e entranhado na construção sociocultural brasileira. No carnaval, todos se unem na folia. Há uma inversão de toda ordem social: as distâncias sociais são abolidas em favor de uma atitude carnavalesca de contatos livres e familiares.

Rompem-se as barreiras do código de valores institucionalizados e instala-se uma nova ordem, que são um tipo especial de alianças carnavalescas que aproximam o sagrado e o profano, o sublime e o insignificante, o rico e o pobre, a linguagem culta e a vulgar, etc.

Embora a natureza carnavalesca remonte à antiguidade clássica, é na Idade Média que as festas religiosas ganham um caráter profano ao serem levadas para a praça pública. Essa visão dupla do homem medieval em relação à religião permanece até nossos dias e o folclore e o carnaval no Brasil retratam muito bem esta postura.

Mas por que tanta polêmica em torno do samba enredo de 2020 da Mangueira?

Primeiro, é necessário lembrar que 2020 e agora no início de 2021, o Brasil tem sido o “avesso do avesso, do avesso”, como diria Caetano, em um de seus belos sambas, quando ele se depara com São Paulo, uma metrópole fria e diferente de tudo o que ele entendia por cidade* ; assim, se tornou o Brasil, um pais tão cheio de afetos e de expressões culturais, que está se transformando num antro de tristezas tão estranhas e opostas a tudo o que
entendemos por brasilidade.

Mas vamos voltar a nossa Mangueira, a majestosa verde e rosa, que inovou ao construir um discurso que já existe, mas com cores e matizes de modernidade. Seu samba–enredo falava de Jesus de Nazaré. Falar de Jesus como alguém pobre, que, se vivesse hoje, moraria em uma favela torna-se, nesse Brasil do preconceito, um absurdo. O samba nos fala de um Jesus negro, favelado, pobre, frágil, mulher, e afirma que “é um Jesus da gente”.

Isso para os preconceituosos é um grande pecado, uma afronta sem tamanho! Mas o narrador advertiu logo no início, que isso aconteceria “Vão te inventar mil pecados”. É o medo que as pessoas pobres dos grandes centros e das pequenas cidades percebam que elas não são culpadas por serem pobres e que o estigma que paira em suas cabeças foi deliberadamente feito por uma elite atrasada e inculta, encastelada e distante desses que se
parecem tanto com Jesus. – Como pode?!

Diria uma dama da alta sociedade – Eu amo Jesus, sou cristã, mas não suporto que o comparem com a gentalha. Esse talvez seja o grande “crime” do samba da Mangueira, ter tido a impetuosidade de comparar Jesus aos verdadeiros ´pobres do século XXI’ e ter feito essa maravilha de samba insubordinado, insolente, atrevido e insuportavelmente verdadeiro.

Se não bastasse isso, o samba assumiu um discurso em primeira pessoa, a partir do sujeito, que não é outro senão o próprio Jesus. – Que insolência, diriam os hipócritas!

Jesus pergunta; – “Será que o povo não entendeu o meu recado, porque de novo cravejaram o meu corpo”. Ele pede ainda, que a favela pegue a visão: – “Não há futuro sem partilha e nem Messias de arma na mão” Numa clara referência aos evangélicos e ao presidente no apoio às armas e aos assassinatos de negros e pobres das favelas brasileiras.

Os evangélicos intolerantes, os fascistas e todos os incultos de classe média estão matando os despossuídos em nome de um Jesus que eles reinventaram. O discurso desse samba é revelador, belo e instigante. Ele não precisa de palavrão, de insultos ou de outros recursos quaisquer a não ser a própria simplicidade de sua letra para fazer uma denúncia gravíssima. E é nisso que ele se revela não só como força poética, mas como um hino de respeito ao segundo maior mandamento de Deus: ame teu próximo.

Este samba não acabou na avenida, ele ficou e ficará como uma mensagem contundente no coração e na alma dos homens de boa vontade!

 

A Verdade Vos Fará Livre – Leandro Vieira –  Letra do samba-enredo da Mangueira (na íntegra) – Leandro Vieira

Mangueira
Samba, teu samba é uma reza

Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

*Ver Sampa de Caetano, uma obra prima.

 

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Marcia Elizabeth Bortone – Professora aposentada da UnB – Departamento Letras. Trabalha com a linha da Sociolinguística e é Membro Efetivo da Alaneg/RIDE – Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano. Reside atualmente em São Lourenço – MG.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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