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Marcio Santilli: Carta Aberta ao Almir Suruí

Marcio Santilli: Carta Aberta ao Almir Suruí

Marcio Santilli: Carta Aberta ao Almir Suruí

Os covardes que te perseguem estão no poder, mas nunca serão reconhecidos pela ONU, como você que, em 2013, ganhou o título de “Herói da Floresta”, pelo trabalho de conservação da Terra Indígena Sete de Setembro, título também concedido ao Dalai Lama. Você pode olhar para os seus filhos com orgulho; eles não. Então, resista, prossiga em grandiosa existência…”

Por Marcio Santilli 

Amigo Almir,

Contaram-me que o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) pediu para a Polícia Federal (PF) abrir um inquérito contra você e que um agente da delegacia de Ji-Paraná (RO) tem interrogado parentes Paiter-Suruí, por telefone, para criminalizar a campanha feita pela Organização Metareilá para combater a epidemia do coronavírus entre vocês.

Fiquei muito triste e indignado, por você, pelos Suruí, pela Funai, pela Polícia Federal e pelo Brasil.

Você vem lutando a vida inteira para construir uma relação saudável entre o seu povo e os demais brasileiros, conservando e compartilhando a sua cultura, promovendo os produtos da floresta, sem destruí-la, para que os serviços ambientais da sua terra continuem garantindo qualidade de vida para todos nós, em tempos tão críticos para o clima mundial.

O presidente da Funai deveria te respeitar. Você não é criança e ele chegou só agora a essa função. Não tem história, nem compromisso com os povos indígenas. Veio pelas mãos dos ruralistas, a quem prestou serviços em uma CPI criada para destruir a Funai e os direitos dos povos indígenas. Ele abandonou a sua carreira como delegado da PF e, agora, constrange os seus ex-colegas para atuarem como covardes, usando essa importante instituição do Estado para fazer uma mesquinha perseguição política.

Sim, Almir, porque ele não está a serviço da instituição que preside, cuja finalidade é defender os indígenas e os seus direitos, nem da Polícia Federal. Ele serve a Jair Bolsonaro, que quer te perseguir porque você, junto com o líder Raoni, pediu uma investigação ao Tribunal Penal Internacional sobre as responsabilidades dele diante das proporções catastróficas que a pandemia alcançou no Brasil, com um impacto brutal, também, sobre vidas indígenas. Não tendo argumentos para convencer sobre a sua inocência, ele quer calar quem aponta os seus erros. O crime é dele, mas o inquérito é contra você.

Revolte-se, mas nunca se renda! Num desses dias sinistros, o nosso amigo, Ailton Krenak, lembrou-nos que os povos indígenas são resilientes a 520 anos de violência colonial e que são os não indígenas que correm maior risco de extinção por conta da tragédia bolsonariana. Esse pensamento dele não chega a ser um alento, mas é um grito de alerta que deveria ser ouvido por todos que respeitam a vida.

Você não está sozinho nesse sofrimento. O presidente da Funai fez o mesmo com a Soninha Guajajara, coordenadora da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), e é possível que outros parentes estejam sendo, secretamente, perseguidos. Por ordem do ministro da (in)Justiça, a PF também foi usada para constranger o Felipe Neto, influenciador; o Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST); o Antônio Nobre, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); o Márcio Astrini, do Observatório do Clima. Apesar de tudo, você e a Soninha estão em boa companhia.

Os covardes que te perseguem estão no poder, mas nunca serão reconhecidos pela ONU, como você que, em 2013, ganhou o título de “Herói da Floresta”, pelo trabalho de conservação da Terra Indígena Sete de Setembro, título também concedido ao Dalai Lama. Você pode olhar para os seus filhos com orgulho; eles não. Então, resista, prossiga em grandiosa existência.

Almir, acho que você sabe, esses caras passarão. Deixarão dolorosas sequelas, mas a vida e o Brasil são muito maiores do que eles e do que os outros dementes que os sustentam. Ainda veremos, juntos, um novo tempo, em que as nossas energias possam ser poupadas da precaução contra o ódio e mais voltadas para a reconstrução da natureza, do Brasil e do mundo.

Falando nisso, no final do ano, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-26), vai focar na regulamentação do REDD, uma sigla exótica para aquela batalha que travamos juntos, buscando reconhecimento e apoio de todo mundo para a conservação das florestas em pé. Espero que, afinal, cheguem a bons resultados.

Foi uma ironia do destino vermos o Bolsonaro falando, como se fosse um anjo, nessa reunião de cúpula, recém convocada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden (Partido Democrata), e pedindo dinheiro, usando os argumentos que nós tanto ajudamos a construir, para ele poder continuar devastando a Amazônia. Enquanto ele dizia isso lá, a sua polícia estava atrás de você. Foi uma ironia para nós e para ele, não é mesmo?

Não há de ser nada, meu amigo. O mundo gira com a força da vida. Com a morte, ele pára. E não há vida melhor vivida do que aquela dedicada a todas as formas de vida!

Saiba que eu estou muito longe de você na geografia, mas muito perto do teu coração. Abração!


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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