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Marcos 2

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Cresci sendo ensinada a como andar, sentar, me portar a mesa, sorrir, falar e me calar, mas em um determinado momento a vida foi se abrindo e os limites impostos foram sendo rompidos, um a um, e o incrível é que para mim não houve resistência para que fossem ultrapassados, ao contrário recebi o apoio e o estímulo de um homem; sim, um homem!

Por Giselle Mathias

Meu pai foi esse homem que me enxergou e possibilitou que eu me tornasse livre, mas era único e era meu pai, eu estava ali como a filha, aquela que talvez ele desejasse que não se submetesse, que fosse livre, que não fosse enjaulada e prisioneira do masculino, como ele fizera com minha mãe. Mas enquanto me incentivava e acreditava em toda a minha potência de vida, o modelo era seguido à risca em casa; as mulheres e homens que estavam a minha volta, os filmes, as novelas, os romances, os amigos e o trabalho me mostravam que eu não poderia ter essa liberdade tão almejada, era puxada para a realidade imposta pelo modelo social.

As frustrações e os medos foram me tornando cada vez mais próxima do padrão, era mais fácil viver de acordo e moldada como todos a minha volta; cedi ao que era confortável, sem perceber que me matava aos poucos, que perdia minha pulsão de vida, que permitia apenas o passar dos dias, meses e anos; eu não existia, apenas estava ali, respirando.

Rompi com os “Marcos” quando decidi viver, simplesmente ser, quando abandonei minha zona de conforto, status e o modelo perfeito de família posto em imagens capturadas por câmeras e expostas nas minhas redes sociais, como se fosse a minha realidade.

Acredito em escolhas! E a minha foi viver, com todas as consequências que se apresentam, hoje percebo que não há mais “Marcos” que se coloquem a minha frente, porque quando o fazem eu os rompo, não permito que se tornem muralhas intransponíveis.

Hoje penso e sinto a vida correr em minhas veias, pulsar meu coração e inflar meus pulmões; ainda reconheço em mim medos e a imposição do padrão de sucesso, mas também percebo toda a minha luta para transpô-los, ultrapassá-los sem o peso das minhas escolhas, levando apenas o tempo necessário para dores e sofrimentos, sem as culpas e cobranças dos encarcerados.

Desejo as realizações, as quais não conquistamos em duas horas de filme, mas com pequenos passos, persistência e a crença em si mesma; não faço uma ode a solidão, também desejo os amores reais, todos, com ou sem rótulos, desnudo, sentido, emocionante, inebriante, doloroso, saudoso, aqueles das descobertas, do toque, dos cheiros, do riso, da lágrima, do coração acelerado, do calor no ventre, da incerteza do tempo que durará, do gozo intenso, do desejo da carne, da mente e do que não se explica e tão pouco se entende, mas é verdadeiro.

Percebo a minha força e humanidade cada vez que me sobreponho aos “Marcos” que tentam me impor as fronteiras; a liberdade que busco não me será dada, mas terá que ser conquistada a cada dia, em cada posição que tomo, em cada escolha que faço e com as consequências que se apresentam, mas com a alegria de me ver humana, sem ter que cumprir os padrões da bonequinha de luxo ou do bibelô na estante esperando o próximo comprador.

Essa tem sido a minha jornada, vivendo as minhas histórias, ouvindo as das minhas amigas, relembrando as do passado e observando como tudo me influenciou e me construiu, mas acima de tudo entendendo o que ainda preciso aprender, observar, crescer, superar; continuar a me construir para me aproximar de mim mesma, de uma plenitude minha, mas não só, porque viver significa união, compreensão, carinho, atenção e até mesmo disponibilidade para o outro e para si.

Aos “Marcos” de minha vida só tenho a agradecer por ter conseguido derrubá-los – com dores, sofrimentos e decepções, mas sem nunca descer do meu belo salto agulha vermelho.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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