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MARGARETHA GERTRUIDA ZELLE – A MATA HARI

Margaretha Gertruida Zelle – a Mata Hari

“Vadia, sim! Traidora, jamais!”

Por: Iêda Vilas-Bôas 

Estas foram as últimas palavras desta dançarina linda, exótica e ousada, nascida em 07 de agosto de 1876, em Leeuwarden, nos Países Baixos, que fi gura entre as mulheres fortes que fi zeram a história do mundo. Acusada de espionagem, foi condenada à morte e fuzilada em 15 de outubro de 1917, em Vincennes, França, durante a Primeira Guerra Mundial.

Estamos indo para 102 anos de sua morte e ainda paira a dúvida no ar: Mata Hari traiu seu país? Margueretha Gertruida Zelle era apenas uma jovenzinha bonita, esperta e assustada que, por problemas familiares, após a morte de sua mãe e com o novo casamento de seu pai, foi enviada, juntamente com seus três irmãos mais novos, para a casa de parentes.

Com devaneios próprios de uma juventude difícil, a jovem Margaretha destoou da educação vigente em sua escola e foi expulsa, aos 16 anos, como consequência natural do sistema patriarcal, por se envolver sexualmente com um dos diretores da instituição.

Com a expulsão, ela decidiu fugir de casa, indo morar com um tio em Haia, na Holanda. Já não era virgem e não servia para o casamento com os moços do lugar e estava ficando “velha”. Assim, com 19 anos, lê e responde a um anúncio amoroso em um jornal. Quem escreveu foi o capitão do exército Rudolf MacLeod, de 39 anos, que vivia nas Índias Orientais Holandesas, atual Indonésia.

Margaretha foi atrás do seu sonho de se casar, constituir família e viver feliz ao lado do militar. Entretanto, ele era um alcoólatra violento e tinha uma amante oficial. Mais experiente e possuidora de um gênio inquieto e curioso, a moça resolveu, também, ter um caso extraconjugal e, de quebra, aprender sobre a cultura oriental com seu amante japonês.

Do casamento nasceram dois filhos: Jeanne (Nonnie) e Norman, falecido aos dois anos de idade. Margaretha e Rudolf suspeitaram que as crianças houvessem sido envenenadas por inimigos do militar. Outra hipótese para essa morte prematura teria sido por doença de origem congênita, já que o pai era sifilítico e havia se tratado com altas doses de mercúrio. Em seguida, Rudolf foi dispensado do serviço militar, e o casal retornou, com a menina, à Holanda.

Em 1902, Margaretha se separou do marido e, em seguida, perdeu a guarda da filha. Essa perda foi um enorme baque emocional para Margaretha. Ela não conseguiu reverter a causa em seu favor. Era mulher, separada e de reputação duvidosa. Ia contra todos os padrões machistas, seu comportamento era considerado pouco convencional e desafiador. Além disso, não dispunha de recursos financeiros para disputar a guarda e recuperar sua menina.

Com tantas adversidades em seu caminho, ela se mudou para Paris, em 1903. Sobrara-lhe o rosto perfeito, o corpo de deusa e a longa cabeleira negro-azulada. Além de uma facilidade nata de se comunicar e de encantar a todos. Com esses atributos vira artista e nasce a Mata Hari — que em malaio, um dialeto indonésio, significa “Olho da Manhã” ou simplesmente “Aurora”.

A vida continuava difícil, e a jovem mulher trabalhava como modelo para quadros de nu feminino e, nas durezas mais severas que a vida lhe impôs, foi prostituta. Surgiu-lhe a oportunidade de trabalhar em um circo e, então, Mata Hari começou a se apresentar como dançarina e adquiriu alguma fama.

Passou a apresentar-se em festas organizadas em luxuosas mansões, com roupas exóticas, transparentes e reveladoras. Usava, de costume, um biquíni bordado de joias (e dizem, nunca tirava a parte de cima do biquíni porque tinha vergonha de seus seios pequenos) e alguns ornamentos nos braços e na cabeça. Rejeitava sua origem europeia, gostava de se passar por nativa das Índias Holandesas.

Em suas apresentações, Mata Hari passava-se por uma princesa hindu da Indonésia, e os parisienses adoraram essa exoticidade. Seu show consistia basicamente em um sensual strip-tease em que trazia toques da dança de misticismo oriental e inventava histórias sobre como havia sido criada em um templo na selva em Java. Em 1905, ela se apresentou pela primeira vez no Musée Guimet, dedicado à cultura asiática.

Daí pra frente foi sucesso total, alcançou reconhecimento internacional e muita fama. Mata Hari despertava cobiça entre os figurões daquele tempo e era descrita pela imprensa parisiense como sendo “felina, extremamente feminina e majestosamente trágica”; e, ainda, possuidora de “milhares de curvas e movimentos de seu corpo que tremiam com milhares de ritmos”.

Passado o auge de sua meteórica carreira, tornou-se uma importante cortesã, mantendo um vasto círculo de admiradores composto por políticos, altos militares e homens influentes de vários países.

O ano era 1914, e a Primeira Guerra Mundial havia começado. A Holanda a princípio manteve uma atitude neutra, depois foi ocupada pelos alemães. Por ser holandesa, Mata Hari não tinha qualquer problema na hora de viajar de um país a outro pela Europa. Entretanto, suas idas e vindas despertaram dúvidas no alto comando francês.

Seu nome passou a figurar na lista de pessoas suspeitas de espionagem. Existem evidências de que ela agiu como espiã para os alemães e também tenha atuado como agente duplo a serviço dos franceses. De repente, Mata Hari estava totalmente envolvida no mundo obscuro da espionagem e dos traidores.

No mês de janeiro de 1917, as autoridades francesas interceptaram uma mensagem enviada por um oficial alemão, da base de Madri. A mensagem era destinada a Berlim e em seu conteúdo delatava atividades de um espião identificado como H-21. Imediatamente, uniram a denúncia à Mata Hari. Existe uma corrente que acredita que todo esse evento tenha sido apenas uma armação dos alemães contra ela e de que ela tenha sido um bode expiatório do exército francês.

Sem condições de justificar sua inocência, em fevereiro, Mata Hari foi presa e enviada à Prisão Saint Lazare, em Paris. Permaneceu presa de fevereiro a outubro, de onde saiu somente para se encontrar com a rajada mortífera que lhe ceifou a vida. Seu julgamento foi parcial, atípico e estranhamente ligeiro. Historiadores apontam que o julgamento de Mata Hari foi tendencioso e que boa parte das evidências usadas contra ela eram circunstanciais.

Há quem acredite que a sua execução serviu para desviar as atenções das imensas perdas que o Exército francês estava sofrendo em seu fronte oriental. Ela foi acusada de revelar aos alemães detalhes sobre a nova arma dos aliados: o tanque de guerra. Também foi acusada de usar “tinta invisível” para escrever mensagens aos inimigos. Foi considerada culpada de todas as acusações e condenada à morte por fuzilamento.

Em sua defesa, Mata Hari relatou que, devido à guerra, havia ficado novamente em situação financeira muito difícil e que teria recebido dinheiro de um cônsul alemão em pagamento de itens pessoais vendidos a ele, como: casacos de pele e peças caras de vestuário, mas negou ter realizado qualquer “serviço” de espionagem para esse homem ou qualquer outro.

Sobre a tinta invisível, Mata Hari alegou que a usava a substância como material para as maquiagens em suas apresentações. Seus argumentos não convenceram seus algozes. Uns dizem que Mata Hari estava mais para uma vítima de seus erros do que para traidora.

A sua própria fama e sua paixão por um homem 18 anos mais jovem, um soldado, é que a fez morrer. Podemos dizer que ela foi vítima de uma “caça às bruxas” ou morreu em consequência da misoginia, tendo a sua fama e comportamento sidos jogados e usados contra si.

Em 15 de outubro de 1917, Mata Hari vestida elegantemente disse convicta suas últimas palavras: “Vadia, sim! Traidora, jamais! Eu tenho orgulho do meu passado e não fui espiã, eu fui Mata Hari”. Dizem que Mata Hari recusou a venda e soprou um beijo ao padre, ao seu advogado e ao pelotão, antes de os atiradores abrirem fogo. Seu corpo caiu, ali, inerte em um bosque perto de Paris. Ninguém apareceu para reclamar seus restos mortais.

Hollywood eternizou esta mulher-mito através de sua estrela Greta Garbo em “Mata Hari” (1931). Desde então, houve cerca de 50 filmes e séries de TV sobre a espiã ou baseados livremente em sua vida. Em 2016, foi lançado um livro com correspondências inéditas escritas em próprio punho por Mata Hari e o escritor brasileiro Paulo Coelho dedicou-lhe um romance: “A Espiã”.

Por onde anda a dançar e encantar Mata Hari? O que dela ficou em nós, a nos dar força, enquanto mulheres, que lutam para mudar destinos a nós impostos?

Salve a aurora exótica! O olho da Manhã! Salve, Mata Hari!

Publicado originalmente em 2 de mar de 2019

Iêda Vilas-Boas
Escritora


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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