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MARIANA: Luta contra o esquecimento

A luta em Mariana contra o esquecimento

Três anos depois, a real dimensão do maior desastre ambiental da história brasileira ainda é desconhecida. As críticas sobre a reparação dos danos persistem.

    
Mariana
Antiga igreja de Paracatu, três anos após o desastre ambiental de Mariana. 

 

Nos dias chuvosos, os impactos do maior desastre ambiental do voltam à tona em Mariana. A água do rio Gualaxo do Norte ganha um tom marrom escuro, um indício de que toneladas de rejeito da mineração que, há exatos três anos, vazaram depois do colapso da barragem de Fundão, da Samarco, continuam no ambiente.

A onda de lama que matou 19 pessoas e aniquilou o distrito de Bento Rodrigues, em 5 de novembro de 2015, correu por esse rio até encontrar o Doce. No caminho, destruiu casas e sítios em outros povoados, acabou com vegetação, áreas de pasto e plantações, deixou um rastro de até chegar ao Atlântico, no Espírito Santo.

Maria Benigna, de 74 anos, vê do seu quintal as ruínas da comunidade que cercava a igreja de Paracatu. “Não me esqueço da sujeira e do mal cheiro”, diz sobre o ruído da avalanche naquela noite, quando foi socorrida pelo filho e passou horas no mato com outros vizinhos.

Pela estrada ao lado da casa de Benigna, que não estava no caminho dos rejeitos, o tráfego de caminhões se intensificou recentemente. Eles fazem a terraplanagem do assentamento Novo Paracatu, que vai receber as 140 famílias que ficaram desabrigadas no distrito. Ainda não se sabe quando deve ocorrer a entrega das casas.

Geraldo, de 61 anos, encara as águas do Gualaxo do Norte diariamente. No sítio onde mora, em Gesteira, município de Barra Longa, a lama cobriu a área produtiva. Faz poucos dias que técnicos trabalham no local para recuperar a área. De Mariana à hidrelétrica Risoleta Neves, que barrou grande parte dos rejeitos que escorreram pelo Doce, 237 propriedades rurais precisam do mesmo restauro.

“Eu recebo ração para minhas vacas, mas não é suficiente. Eu tenho que complementar”, diz o pequeno produtor sobre o auxílio que recebe da Fundação Renova até que a área seja recuperada.

Três anos depois do desastre em Mariana, que espalhou 40 milhões de metros cúbicos de rejeito da mineração, persistem as críticas sobre a reparação dos danos.

O trabalho ficou a cargo da Fundação Renova, criada em 2016 especialmente para cumprir esse papel, mantida com dinheiro da Samarco, Vale e BHP Billiton.

“Eu não estou muito satisfeita com o ritmo de implementação dos acordos, tanto sob o ponto de vista socioeconômico quanto ambiental”, analisa Andressa de Oliveira Lanchotti, promotora do Ministério Público de Minas Gerais e coordenadora do Centro de Apoio Operacional do .

“Houve uma grande demora de planejamento de recuperação. Faltou organização”, adiciona. “Mas, agora, parece que está entrando nos eixos”, pontua Lanchotti.

Guilherme Meneguin, promotor que cuida exclusivamente dos atingidos em Mariana, é enfático: “Há muita má vontade da empresa e soluções unilaterais”. Segundo Meneguin, não há busca ativa das vítimas para inclusão no cadastro de atingidos. “Cerca de 60 famílias não estão recebendo auxílio da Samarco. Já formamos as provas e encaminhamos à defensoria pública”, afirma o promotor sobre a situação em Mariana.

André Vasconcelos, da Fundação Renova, sabe da insatisfação. “Receber críticas é natural. Reconhecemos que pessoas estão passando dificuldades”, diz. “Tentamos fazer os processos de forma mais rápida, mas com responsabilidade, tomando cuidado para não cair no descrédito”.

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Maria Benigna, de 74 anos, vê do seu quintal as ruínas da comunidade que cercava a igreja de Paracatu. 

Até o momento, foram realizados 27.500 cadastros familiares ao longo de toda a bacia do . Desses, um acordo para pagamento de indenização por danos foi fechado com 8 mil famílias, totalizando cerca de 270 milhões de reais.

Não há prazo para que as indenizações sejam pagas por completo. “É um processo muito heterogêneo em toda a bacia. Os danos são diferentes: perda de casas, objetos, de fonte de renda… Então o ritmo depende de cada situação”, justifica Vasconcelos.

Próximo à foz do rio Doce, no Espírito Santo, Arlei, de 45 anos, ainda espera. Proibido de pescar camarão na região onde costumava trabalhar desde que os rejeitos atingiram o mar, ele não ganha o suficiente para pagar aluguel e vive de favor num barco. A esposa e filhos de Arlei se mudaram para a casa de um parente, no Rio de Janeiro.

“A gente pegava até três toneladas de camarão. Agora, quando a gente consegue pescar, os antigos compradores não querem mais comprar. Eles têm medo de contaminação”, conta Arlei. Há mais de um ano ele se inscreveu para receber algum tipo de auxílio, mas não teve retorno.

Casos como o do pescador informal são um desafio para a Fundação Renova. “Nunca aconteceu no Brasil indenização de quem pratica a pesca que não fosse pescador profissional devidamente regularizado. Nós estamos fazendo um processo de reconhecimento de pescadores não regularizados, informais, para que eles também sejam atendidos”, explica Vasconcelos. Até o momento, cerca de 7 mil famílias ligadas à pesca foram reconhecidas como atingidas.

Em toda a bacia do rio Doce, que ocupa os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, os trabalhos de recuperação da vegetação se concentram em 5% da área. O plano da Renova é fazer o plantio de espécies nativas em 40 mil hectares.

Todas as ações são acompanhadas de perto por um Comitê Interfederativo, comandado por Suely Guimarães de Araújo, presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

“Nossa expectativa de recuperação ambiental propriamente dita é de 15 anos”, avalia Araújo. “Houve atrasos, aplicação de sanção. Estamos aprendendo a gerenciar um desastre sem precedente até no plano internacional”, complementa.

Três anos depois, a dimensão do impacto segue desconhecida.

O programa que monitora a marinha depois do desastre, por exemplo, começou há menos de um mês. “O impacto todo ainda não se sabe. Tanto o social como o ambiental”, diz Araújo.

Até agora, Samarco, Vale e BHP Billiton destinaram R$ 4,4 bilhões para Renova. As 25 multas aplicadas pelo Ibama, que somam R$ 350 milhões, ainda não foram pagas pela Samarco.

“As primeiras multas já foram julgadas em última instância. A Samarco já deve para a União”, complementa a presidente do Ibama.

Enquanto isso, a empresa se prepara para voltar a extrair minério de ferro. As obras na cava Alegria Sul, que terá capacidade para receber 16 milhões de metros cúbicos de rejeitos, estão em andamento há um mês.

Ainda falta uma licença para a Samarco reiniciar a produção.

Ainda assim, dinheiro para os trabalhos de restauro após o desastre provocado pelo rompimento de Fundão não deve faltar, assegura o MP. Para implementar os 42 programas ambientais e sociais, a Fundação Renova conta com 527 profissionais especializados e cerca de 5 mil colaboradores indiretos.

“Na nossa avaliação, não existe risco de o dinheiro acabar.  A recuperação, pela nossa legislação, é ilimitada, não tem valor. As empresas têm que fazer aporte sempre que necessário”, diz a promotora Andressa de Oliveira Lanchotti.

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O rompimento de barragem de rejeitos da mineradora Samarco, em 5 de novembro, causou uma enxurrada de lama que inundou a região do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana/MG, a cerca de 120 quilômetros de Belo Horizonte. A empresa é controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Biliton. 

 

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O tsunami de rejeitos da Samarco percorreu 650 quilômetros até a foz do Rio Doce, no distrito de Regência, em Linhares/ES. Para tentar salvar a vegetação, a mineradora instalou boias de contenção nas margens do rio. Para evitar a morte de tartarugas, o Projeto Tamar removeu vários ninhos na praia de Comboios. 

ANOTE AÍ

Fonte: DW Brasil

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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