MARIGHELLA: RELATOS DA TORTURA

Relato da Tortura 

(…) Como dizia, fui levado imediatamente à Polícia Central e espancado pelos “tiras”. Recebi alguns murros no peito, nas costas, no rosto e, em seguida, apresentaram-me ao Sr. Serafim Braga, delegado da Ordem Social. A Polícia, que se entregava às ações subversivas, estava dividida em dois ramos: a Delegacia de Ordem Social e a Delegacia de Ordem Política.

Por Carlos Marighella

(…)
O Sr. Serafim Braga mandou se procedesse, de imediato, a um espancamento inicial, sem mais preâmbulos.
O Sr. PLINIO BARRETO, PRESIDENTE: – Mesmo sem ouvi-lo?
O Sr.  MARIGHELLA: – Sim. No meu bolso se encontravam vários documentos que revelavam a situação do país sob o regime da ditadura, os espancamentos que sofríamos, porque eu havia participado de todas as lutas dos estudantes na Bahia, contra o fascismo. Havia pertencido mesmo à Aliança Nacional Libertadora e também tinha ideias comunistas, sendo ainda filiado ao Partido Comunista.

O que se encontrou no meu bolso no momento foram documentos que revelavam, para o estrangeiro, as atrocidades que se cometiam no Brasil. Nos envelopes não haviam sido inscritos os verdadeiros nomes dos destinatários, porque sabíamos a situação em que se
achava reduzido o país, naquelas condições. O que desejavam saber, em primeiro lugar, era a quem se destinavam as comunicações. Eu não revelava os destinatários, mesmo porque ignorava seus nomes. Devia entregar a correspondência ao cidadão que ia procurar na manhã em  que fora preso.

O fato é que fui submetido a esse espancamento inicial, feito por uma turma de investigadores, da qual participava um de nome Matos, o único que pude gravar, porque, nesses espancamentos, eles têm o cuidado de não revelar os nomes uns dos outros. Esse investigador é muito conhecido pelos que passaram pela Polícia Central, àquela época. De borracha em punho, juntamente com os demais “tiras”, também colaborou no espancamento. Fui agarrado pelas pernas e braços e o Sr. Serafim mandou que iniciasse pela sola dos pés. Foi-me tirado o calçado. Como, porém, não desse grande demonstrações de me achar abalado, passaram a espancar-me nos rins. Depois de certo tempo,
o próprio Serafim Braga teve seus receios e mandou que suspendessem aquele tratamento. Queria que eu confessasse minhas atividades e dissesse com quem mantinha contato, enfim, o que fazia como militante do Partido Comunista.

Fizeram-me várias perguntas, levando-me, para efeitos de intimidação, para uma saleta especial, destinada aos espancamentos. Mais tarde, depois de ter ficado sem comer durante toda a manhã, fui entregue ao Sr. Emílio Romano, Delegado da Ordem Política e Social, que havia chegado e reassumido o cargo.

Fui interrogado, com o objetivo de obter de qualquer maneira uma confissão. Queriam que confessasse que estava conspirando, que exercia atividades subversivas, e que o Partido Comunista se destinava a fazer uma revolução e que prosseguia, portanto, nas suas atividades subversivas, conforme eles informavam.

Sob as ordens de Emílio Romano passou-se então a uma nova forma de espancamento: eram murros mais ou menos nesta altura da cabeça (indica a região), até que comecei a lançar sangue pelo nariz.

Depois de ter desfalecido, fui ameaçado, no meio das tropelias, gritos e urros dos Investigadores, de ser levado para a Polícia Especial, onde teria de sofrer ainda mais, caso não confessasse.

Com efeito, cumpriram a ameaça. À noite, fui levado para a Polícia Especial, onde se reuniram, no pátio, todos os investigadores – os que tinham vindo da Polícia Central, e, mais, os que já se encontravam no quartel da Polícia Especial, naquele momento sob o comando do Tenente Euzébio de Queirós, se não me engano, então chefe daquela corporação. Fui colocado numa roda em que pude distinguir o investigador Galvão, conhecido espancador que trabalhava na Polícia Central e na Polícia Especial.

No meio deles também se encontrava o investigador ou polícia especial Julião que, como aliás o próprio Galvão, também era da Polícia Especial, mas trabalhava em permanente contato com a Polícia Central.As torturas a que fui submetido foram as seguintes:
depois de murros, pontapés e outros golpes que me aplicaram, fui queimado por todo o corpo com pontas de cigarros que os próprios investigadores estavam fumando.

Além disso, o investigador Galvão tirou seu alfinete de gravata, que enfiou debaixo de minhas unhas, deixando-as em sangue. Em seguida, fui submetido ao chamado “aperto de escrotos”; reuniram-se todos e, através dos golpes chamados “chave de braço”, fui levado ao chão várias vezes, o que me produziu um ferimento na testa, como se pode  verificar pela cicatriz que apresento.

Os jornais da época publicaram fotografias. Nesta que aqui tenho se vê bem o esparadrapo no lugar do ferimento. Vossa Excia., Sr. Presidente, pode verificar o que afirmo pela fotografia, que é uma prova incontestável.

Na  Polícia Especial, o espancamento durou até a madrugada. Cheguei lá mais ou menos às 7 ou 8 horas da noite, e só de madrugada suspenderam o que chamavam de “sessão”. Em virtude de ter desfalecido, fui levado para curativos na própria enfermaria da Polícia
Especial.

Depois desse curativo, com ameaças de ser sangrado e outras mais, fui posto de castigo na chamada Sala Santa Fé, da Polícia Especial. Apesar de estar todo machucado em consequência das surras e torturas, não podia deitar-me, nem sentar-me. Tinha
de ficar passeando no interior da saleta, que aliás é pequena. Assim fiquei com as roupas completamente estraçalhadas e ensopadas de sangue os trapos que restavam, mas, mesmo nessas condições era obrigado a permanecer de pé. O polícia especial de nome Gaúcho, que montava guarda de mosquete em punho, obrigava-me a levantar e marchar, até o momento em que caí exausto.

 

Marighella CB

Fonte: Iara Xavier e Gilney Viana

Depois disso, fui novamente removido para a Polícia Central, onde recomeçaram os espancamentos. O Sr. Emílio Romano deu ordem, diante do fato de que eu procurava reagir aos espancamentos, para que eu fosse algemado. E, assim, com as mãos para trás e deitado de bruços na cama, fui espancado a canos de borracha que me atingiram as costas, as nádegas e as solas dos pés.

Em seguida, fui submetido a novo tipo de torturas. Levado à noite para uma sala em completa escuridão, sem saber o que poderia suceder ali, e agarrado por mãos invisíveis, fui obrigado a sentar-me numa cadeira. Lançaram então sobre o meu rosto uma lâmpada de grande poder, projetada diretamente sobre os meus olhos, e um investigador que se encontrava do outro lado e que eu não podia ver, fazia-me perguntas, a fim de que eu indicasse onde se encontrava a oficina do Partido, a imprensa da “Classe Operária”, e fazia outras perguntas no sentido de levar avante a provocação que o Governo tinha em vista, e informando, mesmo, que o Sr. Presidente da República já havia oferecido tudo para que se encontrasse a imprensa onde era publicada a “Classe Operária”, que o Partido publicava
clandestinamente no Distrito Federal e que tinha circulação em todo o país.

Esses espancamentos se deram no dia 1º de Maio e, depois de alguns dias para curativos, e de novas ameaças, chegou o dia 23 de maio. Nesse dia, tornava-se urgente a publicação das diligências que haviam sido feitas. Não havia, porém, grandes possibilidades para isso , porque precisavam de fotografias, e eu não estava em condições de ser fotografado para os jornais.

O Sr. Romano, considerando que não era possível conseguir uma fotografia apresentável, que não servisse de indício e prova, chegou à conclusão de que se fizesse de qualquer  maneira, e por isso os jornais publicaram a fotografia como aqui se encontra, em que se vê que fui espancado da maneira mais brutal.

Mais tarde, os jornais aperfeiçoaram e retocaram a fotografia e conseguiram, por meio de processos químicos, fazer desaparecer os esparadrapos.

Nesse período estavam também presos cerca de 400 marinheiros, pude observar que estes também eram terrivelmente espancados. Cumpriram pena em Fernando Noronha, na Ilha Grande, na Casa de Correção e na de Detenção, no Pavilhão dos Primários, etc.

Excerto do livro: Carlos Marighela: comunista e poeta de todas as horas – Escrito por

Gilney VianaIara Xavier Pereira

Marighella OAB

Fonte: Iara Xavier e Gilney Viana
 
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Como nasceram as estrelas 

Pois é, todo mundo pensa que sempre houve no mundo estrelas pisca-pisca. Mas é erro. Antes os índios olhavam de noite para o céu escuro – e bem escuro estava esse céu. Um negror. Vou contar a história singela do nascimento das estrelas.
Por Clarice Lispector
Era uma vez, no mês de janeiro, muitos índios. E ativos: caçavam, pescavam, guerreavam. Mas nas tabas não faziam coisa alguma: deitavam-se nas redes e dormiam roncando. E a comida? Só as mulheres cuidavam do preparo dela para terem todos o que comer.
Uma vez elas notaram que faltava milho no cesto para moer. Que fizeram as valentes mulheres? O seguinte: sem medo enfurnaram-se nas matas, sob um gostoso sol amarelo. As árvores rebrilhavam verdes e embaixo delas havia sombra e água fresca.
Quando saíam de debaixo das copas encontravam o calor, bebiam no reino das águas dos riachos buliçosos. Mas sempre procurando milho porque a fome era daquelas que as faziam comer folhas de árvores.
Mas só encontravam espigazinhas murchas e sem graça.– Vamos voltar e trazer conosco uns curumins. (Assim chamavam os índios as crianças.) Curumim dá sorte.
E deu mesmo. Os garotos pareciam adivinhar as coisas: foram retinho em frente e numa clareira da floresta – eis um milharal viçoso crescendo alto. As índias maravilhadas disseram: toca a colher tanta espiga.
Mas os garotinhos também colheram muitas e fugiram das mães voltando à taba e pedindo à avó que lhes fizesse um bolo de milho. A avó assim fez e os curumins se encheram de bolo que logo se acabou. Só então tiveram medo das mães que reclamariam por eles comerem tanto.
Podiam esconder numa caverna a avó e o papagaio porque os dois contariam tudo. Mas – se as mães dessem falta da avó e do papagaio tagarela? Aí então chamaram os colibris para que amarrassem um cipó no topo do céu.
Quando as índias voltaram ficaram assustadas vendo os filhos subindo pelo ar. Resolveram, essas mães nervosas, subir atrás dos meninos e cortar o cipó embaixo deles.
Aconteceu uma coisa que só acontece quando a gente acredita: as mães caíram no chão, transformando-se em onças. Quanto aos curumins, como já não podiam voltar para a terra, ficaram no céu até hoje, transformados em gordas estrelas brilhantes.
Mas, quanto a mim, tenho a lhes dizer que as estrelas são mais do que curumins. Estrelas são os olhos de Deus vigiando para que corra tudo bem. Para sempre. E, como se sabe, sempre não acaba nunca.
Clarice Lispector  no livro: Clarice Lispector, do livro “Doze lendas brasileiras: como nasceram as estrelas”. Rocco, 2015.

 

CLARICE LISPECTOR: "A FORÇA DO SONHO"

Imagem: Guia do Estudante

CLARICE LISPECTOR 

Clarice Lispector é uma escritora brasileira. Ela nasceu na Ucrânia, mas chegou ao Brasil quando tinha dois anos de idade.
Mais tarde, fez faculdade de Direito, morou em diversos países em companhia do marido cônsul, publicou muitos livros e também atuou como jornalista.
Suas obras apresentam fluxo de consciência, fragmentação e metalinguagem, características que podem ser observadas em A hora da estrela, um de seus livros mais conhecidos.”
A romancista faz parte da terceira geração modernista (ou pós-modernismo). Seus textos são marcados pelo monólogo interior e pela metalinguagem. O livro A hora da estrela é uma de suas obras mais famosas.”
Clarice, que faleceu em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, faz parte da terceira geração modernista (ou pós-modernismo).

 

COMO NASCERAM AS ESTRELAS

Clarice – Foto: Brasil Escola

FRASES DE CLARICE LISPECTOR

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. MONTERO, Teresa (org.). Correspondências. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalhoA hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
 
Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nomePerto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980.
A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digoPerto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácilA descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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