Mas será o Benedito?

Mas será o Benedito?

 365 anos depois da excomunhão de Benedito de Spinoza, um rabino de Amsterdã continua a perseguir os seguidores do filósofo

Por Antônio Carlos Queiroz (ACQ)

 O rabino Joseph Serfaty, chefe da comunidade judaico-portuguesa de Amsterdã (Portugees-Israëlietische Gemeente te Amsterdam) comunicou nesse domingo, 28 de novembro, ao professor Yitzhak Melamed, da Johns Hopkins University, que lhe foi negado o pedido para fazer um filme sobre o filósofo Benedito de Spinoza nas instalações da Sinagoga e da Yeshivá Ets Haïm (escola de estudos do Talmud) de Amsterdã.

Melamed é um dos mais conceituados estudiosos da obra do filósofo holandês de origem portuguesa, cuja família fugiu das fogueiras da Inquisição de Portugal no século XVII.

O rabino Serfaty alegou que o herem (o equivalente judeu da excomunhão),  imposto a Spinoza em 1656, continua valendo e não pode ser revogado. Por isso proibiu as filmagens naquelas instalações. Pior: pelo fato de Melamed ter dedicado a vida ao estudo das obras banidas do filósofo, ele próprio foi declarado persona non grata no complexo da Sinagoga Portuguesa de Amsterdã. 

As razões do herem de Spinoza continuam obscuras porque a certidão do herem não explicita quais teriam sido as ofensas que motivaram a duríssima punição. No entanto, como explica Steven Nadler, outro grande estudioso do filósofo, os motivos são claros, incluindo a negação da existência de um Deus pessoal e providencial, a negação da origem divina da Torá e a validade de seus mitzvot (mandamentos), a negação da imortalidade da alma etc, posições que devem ter perturbado os líderes da comunidade portuguesa de Amsterdã no século XVII.

De falta de coerência os líderes judeus de Amsterdã não podem ser acusados nos últimos 365 anos! Na época do herem, julho de 1656, eles até tentaram comprar o jovem aspirante a filósofo, então com 23 anos, oferecendo-lhe uma  mensalão para ele voltar ao aprisco. Trocando o seu nome de batismo, Baruch, pelo nome latino Benedictus, Spinoza resistiu bravamente à proposta indecente.

Desde então houve tentativas de suspender o banimento. Em 1953, o primeiro-ministro israelense Ben Gurion fez um apelo nesse sentido. Mas só em setembro de 2012 abriu-se um processo formal para analisar a possibilidade, proposto por um membro da Talmud Torah de Amsterdam.

Eu mesmo acompanhei o julgamento através de um blog holandês mantido pelo saudoso Stan Verdult, falecido ano passado. Benjamin Moser, biógrafo da Clarice Lispector, leu a sentença da excomunhão, redigida em português. Formou-se um conselho consultivo – Steven Nadler (Universidade de Wisconsin-Madison), Jonathan Israel (Instituto de Estudos Avançados de Princeton), Yosef Kaplan (Universidade Hebraica), e Piet Steenbakkers (Universidade de Utrecht) para contextualizar o processo do banimento em termos históricos, religiosos e filosóficos. Cada membro do comitê redigiu razões, sem consulta mútua, para manter ou suspender a punição. Como era de esperar, manteve-se a proibição, sob o argumento de que Spinoza atentou contra os fundamentos do Judaísmo.

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Em dezembro de 2015, alguns participantes do processo, agora em parceria com o Instituto Crescas de Educação Judaica e a Universidade de Amsterdã, organizaram um simpósio para discutir a questão, acompanhado por 500 pessoas. Segundo o relato de Steven Nadler, a questão central em jogo foi se haveria ou não nos dias de hoje espaço para a liberdade de ideias e de expressão numa comunidade judaica ortodoxa

O rabino Nathan Lopes Cardozo de Jerusalém argumentou que sim. Mas o chefe da Sinagoga de Amsterdam, o rabino Pinchas Toledano, contra-argumentou que a liberdade de expressão não tem valor absoluto, em especial numa comunidade religiosa. Tratava-se de impedir, naquele caso específico, a destruição dos fundamentos do Judaísmo, disse Toledano.

Com base nesse argumento, Toledano decidiu que não podia suspender o herem. Disse que o fato do Benedito ter sido enterrado num cemitério não-judeu demonstrou que ele era indiferente, “até o último suspiro”, à punição, nunca tendo implorado perdão nem pedido a teshuvá, a reintegração à comunidade.

Ainda segundo o relato de Nadler, o rabino Toledano disse no final de sua fala: “Como podemos considerar a suspensão do herem de uma pessoa com ideias tão absurdas, que estava destruindo os próprios fundamentos de nossa religião… No momento em que removêssemos o herem … isso implicaria que compartilhamos as suas visões heréticas”.

Toledano concluiu que os líderes da comunidade judaico-portuguesa de Amsterdã no século 17 sabiam exatamente o que estavam fazendo, e que, portanto, ele não tinha o direito de revogar a decisão deles.

Enfim, Benedito de Spinoza continua sendo considerado uma peste, “o mais pernicioso e ímpio ateu na face da terra” tanto para as religiões organizadas como para muitas escolas filosóficas, comprometidas com a crença no Deus de Abrahão.

O Vaticano, por exemplo. Em 2017, o papa Francisco revelou ao jornalista Eugenio Scalfari, fundador de La Repubblica, o desejo de reabilitar o filósofo papa-hóstia Blaise Pascal, um jansenista que foi inimigo dos jesuítas, a sua própria Ordem. Obviamente ele jamais cogitará um pedido de desculpas ao Spinoza, cujos livros foram lançados na lista do Index Librorum Prohibitorum, só abolido em 1966 pelo papa Paulo VI.

Como há males que vem pra Belém, a Biblioteca Apostólica do Vaticano preservou uma belíssima cópia manuscrita da obra-prima do filósofo, a Ética, que ele havia confiado ao falso amigo e alcaguete Niels Stensen (Nicolau Steno), que o denunciou ao Santo Ofício.

Antônio Carlos Queiroz – Jornalista.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora