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Mato Grosso: o estado preferido para o agronegócio sofre com contaminação por agrotóxicos

Mato Grosso: o estado preferido para o agronegócio sofre com contaminação por agrotóxicos

O Mato Grosso é o terceiro maior estado brasileiro em extensão e o único a ter, sozinho, três dos principais biomas do país.

Por Mídia Ninja 

Além do Cerrado e do Pantanal, mais de 500.000 km² da Amazônia estão em território mato-grossense. Portanto, assim como todo o resto da Amazônia, é fundamental colocarmos o estado no centro dos debates ambientais.

O maior produtor do agronegócio no país, sofre as consequências de ter esse título: os casos de contaminação por agrotóxicos no estado estão sempre em níveis alarmantes.“Eu chamo esse modelo econômico de modelo químico dependente de fertilizante. Isso leva ao risco sanitário, alimentar, ambiental. É claro que Mato Grosso é campeão nacional de produção de soja, de milho, de algodão, mas também é campeão nacional de consumo de agrotóxico”, disse o professor Wanderlei Pignati, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso.

Um caso emblemático ocorreu recentemente em uma escola, onde cerca de 150 crianças foram contaminadas e apresentaram sintomas como náuseas, vômitos, dores de cabeça, nos olhos e na pele. Uma matéria investigativa feita pelo Repórter Brasil mostrou que os estudantes e funcionários da Escola Municipal de Educação Básica Silvana, localizada na zona rural de Sinop, tiveram reação aos agrotóxicos aplicados na plantação de soja de Carlos Henrique Moreira Alves, que fica a menos de 20 metros da escola.

Em resposta a imprensa, logo após o ocorrido, a prefeitura chegou a afirmar que nenhuma criança havia sido atendida nas unidades de pronto atendimento da cidade, o que foi desmentido durante a reportagem que entrevistou diversos familiares dos menores, que até então, 12 dias após o ocorrido, não haviam sido procurados ou orientados a como proceder em casos de envenenamento. “Os órgãos do Estado não só falharam em tomar diversas providências básicas como tentaram abafar a repercussão do caso, prejudicando ainda mais o atendimento” afirma a reportagem.

O agro é câncer

Ao menos 12 estudos publicados nos últimos seis anos no Brasil buscam avaliar o efeito da exposição aos agrotóxicos nas células, os resultados indicaram que os agentes químicos podem provocar dano ao DNA e, por consequência, levar ao desenvolvimento de câncer. Um dos estudos revelou ainda que crianças e jovens que vivem em regiões com maior produção agrícola são mais propensas a desenvolver a doença.

Um dos estudos mais recentes, chamado “Câncer infantojuvenil: nas regiões mais produtoras e que mais usam agrotóxicos, maior é a morbidade e mortalidade no Mato Grosso”, foi publicado no livro Desastres Sócio-Sanitário-Ambientais do Agronegócio e Resistências Agroecológicas no Brasil, por pesquisadores do Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (Neast/ISC/UFMT).

Ao longo dos oito anos analisados no estudo, Mato Grosso registrou mais de 10,9 mil internações por câncer infantojuvenil, sendo que 30% são crianças de 0 a 4 anos. Além disso, 406 pessoas de 0 a 19 anos morreram por câncer, dos quais 30,7% foram adolescentes e jovens de 15 a 19 anos. As leucemias foram os tipos de câncer mais presentes entre os pacientes internados, correspondendo a 50,2% dos casos. A leucemia linfóide (quando surge um linfócito imaturo e danificado na medula óssea) causou 37,2% das mortes. O estudo observou correlação positiva entre o uso médio de agrotóxicos em litros e a média de mortes e internações por câncer infantojuvenil.

“Tem agrotóxicos que inibem a produção de hormônio e vários deles [provocam] mutação genética, que altera o DNA. E isso vai [resultar] na produção de células com malformação. Uma parte [das malformações] é rapidamente descartada pelo fígado, mas a outra vai se reproduzir muito, porque tem agrotóxicos que também baixam a imunidade. Então, somam-se vários fatores: mutação, desequilíbrio hormonal, baixa imunidade. Você tem as células cancerígenas se reproduzindo e não tem um sistema de imunidade para ir lá retirar aquela célula com malformação”, explicou Pignati em entrevista para o Joio e Trigo.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), há pelo menos oito ingredientes autorizados pela Anvisa cuja exposição está relacionada ao desenvolvimento de alguns tipos de câncer como linfomas, leucemias, pulmão e pâncreas.

No painel de monografias da Anvisa – ferramenta que permite acesso a informações atualizadas sobre os ingredientes ativos de agrotóxicos em uso no Brasil – é possível verificar que há 452 substâncias liberadas para uso em 154 culturas diferentes. Só na cultura do arroz, por exemplo, é permitido usar 98 ingredientes ativos; no feijão, 134; e no tomate, 123.

“Nós somos campeões de câncer infantojuvenil, de doenças psicossomáticas, distúrbios, autismo (…) a gente já conviveu aqui com agricultores que tiveram a área pulverizada e entrou em surto psicótico que foi internado, preso. São vários problemas de gente que trabalha com agricultura familiar e isso não é divulgado”, conta a professora da Universidade Federal do Mato Grosso Rafaella Felipe, que é também Doutora em Ciências (Fisiologia e Bioquímica de Plantas) pela Universidade de São Paulo. Em entrevista para Mídia Ninja, Rafaella contou que acredita que a solução para o problema seja a agroecologia.

Segundo a doutora, graças ao avanço do agro no estado a agricultura familiar vem perdendo espaço, obrigando famílias a migrarem do campo para as periferias do meio urbano, muitas vezes tendo que viver em situações precárias. “Tem que haver diálogo”, ela diz, pois o agro acaba não se mostrando benéfico para todos.

Fonte: Mídia Ninja  Capa: AkaratWImages


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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