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Neidinha Suruí: ‘Tenho espírito de onça-pintada, das mais bravas’

Neidinha Suruí: ‘Tenho espírito de onça-pintada, das mais bravas’

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Desde 1992, a indigenista Ivaneide Bandeira Cardozo lidera a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, organização não-governamental de Rondônia que atua com mais de 50 etnias indígenas. Conhecida como Neidinha Suruí por ter sido casada com o cacique Almir Suruí, foi a primeira mulher a trabalhar na Funai com índios isolados e, por isso, se acostumou a enfrentar madeireiros ilegais, mineradores e outros invasores de terras indígenas e unidades de conservação.

Mãe de cinco filhos e “muito feliz” por estar prestes a ser avó pela primeira vez, Neidinha passou a infância em plena floresta amazônica. Em Porto Velho, onde vive, cursou História e fez mestrado em Geografia. Com esse cacife, essa mulher miúda é uma gigante na defesa ambiental e dos direitos dos povos desde os locais mais embrenhados na mata até em eventos internacionais mundo afora. Chegou a impedir o Príncipe Charles, da Inglaterra, de entrar em terra indígena com seguranças armados. E, por esse motivo, acabou convidada a visitar o Palácio de Buckingham.

Essa trajetória faz dela, hoje, uma das ativistas mais ameaçadas do país. Ao blog Mulheres Ativistas – no Conexão Planeta – conta como o ativismo chegou à sua vida e porque os riscos aumentaram para quem atua na área: “O discurso do governo está colocando em perigo a vida de ativistas no Brasil. Quem deveria nos proteger, está nos atacando”, diz.

O que te despertou para as causas ambiental e indígena?

Sou filha de seringueiro. Nasci no Acre e, quando estava com seis meses, fui para um seringal no meio da floresta em Rondônia, onde vivi até os 12 anos. Para sair de lá, ou se andava por 60 dias a pé pela mata até a cidade ou se esperava o avião que vinha duas vezes por ano. Ele trazia alimentos, revistas femininas para minha mãe e livros de bolso com histórias de caubói. Aprendi a ler com esse livros e minha mãe. O problema é que, neles, os índios sempre se davam mal e isso me incomodava muito. Dizia para mim mesma que, se algum dia saísse dali, iria mudar essa história.

Fui para Porto Velho aos 12 anos para estudar e logo comecei a fazer teatro engajado e a lutar contra o racismo, que sempre existiu. Também gostava de literatura e, mais uma vez, me incomodava como os povos tradicionais eram retratados nas obras. Tudo isso me levou a participar de grupos envolvidos com direitos humanos. Também pintava e fazia poesias com essa temática. Na adolescência, participava de um grupo chamado Num Só Canto, que fazia teatro, poesia e música. Dizem que pobre não entende de arte, mas criei com amigos o Urucum, um grupo para ensinar pintura, artesanato e teatro para pessoas da periferia, sempre com a temática de meio ambiente e direitos humanos.

Então, você levou esse espírito ativista para sua vida profissional…

Sim. Escolhi estudar História porque queria mudar o jeito como ela é contada. Como sempre estive perto dos povos da floresta, via que o que estava nos livros não era real, não trazia o sofrimento, a voz das pessoas, sobretudo dos indígenas. Depois, fui trabalhar na Funai, mas denunciei um caso de corrupção e fui exonerada. Foi então que resolvi criar a Kanindé, há 27 anos.

Quais as frentes de atuação e como trabalha a Kanindé?

Somos uma ONG de Rondônia, com uma equipe fixa de 15 pessoas, mas conforme o projeto, podemos chegar a ter mais de 50 colaboradores. Trabalhamos com meio ambiente e direitos humanos dos povos indígenas e de outras comunidades. Atuamos com proteção de territórios, capacitação e formação para que conheçam seus direitos, apoiamos a produção indígena. Também fazemos diagnósticos, planos de manejo, projetos de fortalecimento cultural e acompanhamos as reivindicações indígenas em relação às políticas públicas.

Construímos dois Centros de Referência, aliando a arquitetura indígena com a moderna. Em um deles, mantemos uma pousada e uma escola, e construímos uma quadra de basquete onde desenvolvemos trabalhos com adolescentes não-índios, voltados a sensibilizar também essa população para o meio ambiente. Já fizemos até campeonatos internacionais.

Sempre lutamos muito, mas agora está mais difícil. Por conta de nosso trabalho contra o desmatamento e as invasões de terras indígenas e unidades de conservação, nossa equipe vem sendo bastante ameaçada.

Por atuar em locais tão remotos, você e sua equipe sempre foram alvo de ameaças. O que tem tornado essa condição mais difícil?

Sempre houve muito risco. Rondônia é a região que mais mata ativistas. Sofria ameaças de morte porque achavam que, com isso, eu fosse desistir. Ao apoiar os índios contra invasões, incomodamos forças econômicas muito fortes que querem se apropriar dos territórios deles. O que mudou foi que, antes, os invasores temiam ser tirados das terras, mas hoje se sentem fortalecidos por conta do discurso do governo federal. Invadem e acham que não terão punição. As ameaças aumentaram, estamos preocupados de ser atacados na rua.

Antes, temíamos apenas os invasores, hoje o governo fala contra nós. Disse, por exemplo, que as ONGs estão queimando a floresta, o que é um absurdo! Com isso, coloca a vida de ativistas em risco. Os invasores e os que realmente queimam as florestas acham que, agora, podem atacar quem quiserem e nada vai acontecer.

Por isso gostei muito da ação movida pelo Instituto Terra Azulpara obrigar o governo a dizer quem está denunciando.

Você tem um exemplo concreto dessas ameaças recentes?

Em geral, as invasões explodiram. Se antes eram localizadas, agora estão generalizadas. Nas terras dos Uru-Eu-Wau-Wau estávamos implorando desde janeiro para que o governo mandasse forças para retirar os invasores. Mas isso só aconteceu quando a imprensa internacional denunciou. Deu um certo alívio porque os invasores ameaçavam os índios de matar até as crianças.

Hoje, quando vamos para essa área, vamos com cuidado. Agora o governo está fazendo operações, mas e quando o Exército sair da área? Se o governo não mudar o discurso, é muito provável que voltem.

O fato de ser mulher já te trouxe dificuldades no trabalho?

Sempre tive dificuldade com a maneira como homens agem com ativistas mulheres. Fui a primeira na Funai a trabalhar com índios isolados, ir a campo para procurá-los. Quando decidi fazer isso, amigos meus de anos diziam que eu não deveria ir porque era trabalho de homem. Briguei com muita gente para poder assumir essa função.

Na primeira expedição de que participei, deram um jeito de colocar o maior peso para eu carregar e não paravam para descansar, para ver se eu desistia. Mas sou tinhosa, ainda mais quando querem me desbancar. No segundo dia, deixei todos para trás e segui na frente. Aí disseram que eu era uma mulher diferente das outras. Refutei e garanti que sou igual a todas as outras. Anos depois, fiquei feliz de ver outras mulheres trabalhando com índios isolados.

Uma vez estava em uma fiscalização da Funai e, quando chegamos no campo, o chefe da operação começou a dividir o trabalho: fulano vai arrumar o acampamento, os demais vão procurar os invasores e a Neidinha vai fazer a comida. Disse a ele que não sabia cozinhar e que ia prender invasores. E foi o que fiz.

Costumam me perguntar como é com os índios. Por incrível que pareça, nunca tive problema com eles, sempre me respeitaram pelo meu trabalho. Sinto mais resistência em homens não indígenas. Na Kanindé, sou fundadora junto com várias outras pessoas, mas é uma organização com alma feminina, porque as mulheres estão sempre à frente. Os homens estão junto conosco, trabalhando lado a lado, mas foi desafiador chegar até aqui.

Não é fácil ser mulher nesse trabalho, porque quem invade terra indígena e unidade de conservação é homem. Para enfrentá-los tem que ser muito firme; se for mulher tem que ser mais ainda. Mas estou nessa luta com espírito de onça-pintada, das mais bravas.

Fonte: Conexão Planeta

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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