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O filme da ararinha azul e o reino do presidente

O filme da ararinha azul e o reino de Bolsonaro – Nossas dores, problemas civilizatórios, necessidades humanas: ele simplesmente ignora. Não é somente uma decisão sumária de não atender; é uma patologia societária, isto é, ele está residindo numa dimensão tão loucamente esquizofrênica que não é capaz de escutar, embora nos veja, nos queira tocar, e sinta o cheiro de nossas “penas”

Por Marconi Burum

Desde que Bolsonaro ascendeu ao poder, na maioria dos dias sinto como se estive no filme “Rio”, aquele desenho animado do tão simpático Blue, uma ararinha azul que, ainda filhote, é sequestrada pelo tráfico de animais e vai parar nos EUA, sendo resgatado por uma personagem humana, a Linda.

No retorno ao Brasil – anos mais tarde – para o planejado [pelos humanos] acasalamento a fim de salvar a espécie da extinção, Blue é apresentado à Jade, a ararinha fêmea – aparentemente as duas únicas ainda existentes – com quem viverá uma enormidade de aventuras e desventuras.

Enfim, a estória se desenrola de forma envolvente e ao mesmo tempo cheio de trapalhadas. Um filme encantador que vale a pena você assistir[1].

E por que eu disse que giro o pensamento na sensação de estar dentro deste filme?

Senão, vejamos. Uma coisa que poucas pessoas notam quanto assistem à película que falo é que em “Rio” temos duas dimensões de diálogo (portanto, de semântica de sociedade), a saber, uma dimensão verossímil e uma dimensão fabulosa.

No que estou chamando de dimensão verossímil, apenas os humanos conversam e são, por conseguinte, compreendidos por eles mesmos. Os humanos falam entre eles, vivendo o mundo deles e se relacionam com os pássaros (e demais animais) no plano da realidade fática, isto é, imaginam não serem compreendidos pela mesma operação de linguagem que nós. Seja na demonstração de afeto, ou desprezo pelos bichinhos, os humanos seguem sua rotina normalmente e falam sua língua da mesma maneira, “obrigando” a que os bichinhos entendam o que dizem.

Ocorre algo fenomenal (uma pegada da produção do filme) que cria uma realidade paralela sincrônica à realidade do fluxo humano: trata-se da “sociedade dos animais” (por isso chamei de dimensão fabulosa) em cujos pássaros dialogam entre seus pares, contudo, como se fossem humanos; com a língua/gem humana; as idiossincrasias humanas; e mesmo as personalidades e manias humanas.

Nesta “sociedade”, apenas os bichos se compreendem, melhor dizendo: se escutam. Os seres humanos “dentro” do filme[2] não ouvem (em sua língua) os bichos. A sacada do diretor de “Rio” foi tanta que, em certos momentos ele faz com que os espectadores captem o pássaro falar (para nós), todavia, sincronicamente, grasnar (para os humanos “dentro do filme”).

Portanto, humanos não escutam os animais[3], entretanto, estes mesmos animais estão vivenciando absolutamente toda a dinâmica de sua sociedade (dos pássaros), seus traumas, alegrias, desafios pela sobrevivência e também a sociedade humana (fugindo da “perseguição” a eles).

Doravante, é aqui que reside o paralelo entre a nossa sociedade: dos humanos “normais” (comparadamente, as ararinhas azuis), e do sistema bolsonarista de sociedade “humana”, governada por Jair Messias Bolsonaro, um ser doente, um sociopata, um genocida, todavia, pasme: um ser extradimensional. Sim, Bolsonaro não está na nossa dimensão, a dos humanos típicos. Bolsonaro deve falar outra língua que não a nossa e ouvir um tipo de grasnar quando falamos.

Nossas dores, problemas civilizatórios, necessidades humanas: ele simplesmente ignora. Não é somente uma decisão sumária de não atender; é uma patologia societária, isto é, ele está residindo numa dimensão tão loucamente esquizofrênica que não é capaz de escutar, embora nos veja, nos queira tocar, e sinta o cheiro de nossas “penas”.

Talvez isso explique um ser estranho desses afirmar ao País que: “Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. A frase do Presidente, frente ao esforço possível dos brasileiros de sobreviverem à pandemia da COVID-19, é dita no mesmo dia em que o Brasil perdia mais 1.910 vidas para o coronavírus, atingindo quase 260 mil pessoas que deixaram seus entes queridos chorando aqui neste plano (dimensão), enquanto Jair Messias curte – no seu reino do absurdo – sua esquizofrenia de prazer com a morte numa extra-dimensão inacessível para nós, “simples” humanos.

……………………….

[1] A história escrita e dirigida por Carlos Saldanha, o brasileiro que se consagrou no cinema dos EUA, especialmente pelo trabalho em “A Era do Gelo 3”, “Rio” é uma animação estreada em 2011 (EUA, Brasil e dezenas de outros países) e tem a cidade do Rio de Janeiro como principal cenário.

Assista ao trailer aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=jDAJCc1IkPI

[2] Diria que há uma terceira dimensão, ou hiperdimensão real, a nossa, as dos espectadores que, assistindo, conseguem entender (ouvir na própria língua) ambas as personagens da animação, sejam os humanos; sejam os bichos.

[3] Numa das cenas mais engraçadas do filme, logo nos primeiros 10 minutos da película, o personagem Túlio Monteiro, um cientista e protetor dos pássaros, simula gestos (como se batesse asas) e começa a grasnar.

Linda, ao ver (uma mera coincidência) o seu bicho de estimação “repetir” os gestos e também grasnar, afirma:

“Nossa! Não é que vocês estão se entendendo”.

Túlio reforça:

“Isso! Isso! Eu me apresentei e balancei as penas da calda no sentido anti-horário, reconhecendo que o território é dele”.

Sem que Túlio o escute (e apenas nós, o público), Blu é categórico:

“Não foi isso que eu entendi, não, moço!”

Sempre sorrio dessa cena bizarra…

Marconi Burum é professor e escritor. 


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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