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O FUTURO DO SER HUMANO À ESPERA DE UMA NOVA ADAPTAÇÃO

O futuro do ser humano à espera de uma nova adaptação ambiental e comportamental

A desnaturização, como ideologia e comportamento de vida, fenômeno pelo qual o homem se julga não fazer parte do mundo natural, afastando-se dele e atribuindo a si próprio um poder divino sobre os outros elementos do , vem desencadeando um universo de consequências nocivas, que nos atingem diariamente de diversas formas, mudando inclusive nosso modo de ser, com consequências inimagináveis.

Por Altair Sales Barbosa 

Desde que surgiram na África, após uma série de processos evolutivos e adaptativos coroados de êxito, estes primeiros humanos, conhecidos como Homo habilis, começaram a desenvolver comportamentos egoístas e extremamente possessivos, que levaram à extinção várias espécies de animais, incluindo alguns dos nossos primos.

Também fizeram guerras entre si e, possivelmente, levaram à extinção alguns grupos dissidentes.

À medida que as técnicas foram se desenvolvendo, tornando-se mais eficientes, para seus propósitos, o gênero Homo se tornou uma espécie cosmopolita e, por onde passava, deixava marcas de destruição e extinção de espécies. Eles eram ainda caçadores-coletores.

Depois desse tempo, várias noites, vários dias e várias estações se passaram e, após longos processos de aprendizagem e de adaptação, uma revolução no modo de ser de alguns humanos começa a se desenhar, numa nova forma mais complexa de vida.

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Foto: Wikimedia Common

Eles aprendem a domesticar as plantas e os animais. Este fator os transforma de nômades em sedentários e os obriga a construírem moradias fixas para protegerem suas hortas e criações, tanto dos predadores humanos como de outros animais.

Esta nova organização social, chamada inicialmente de aldeias, traz no seu bojo uma série de problemas, que vão desde aqueles ligados aos relacionamentos sociais até problemas de saúde, partilha dos bens etc., que eram resolvidos quase sempre com a cisão dos grupos.

Mas, de maneira geral, parece que a abundância superou as vicissitudes e logo essas aldeias se transformam em cidades que imediatamente vão se constituindo em impérios. Para a construção dos impérios, os humanos que os conceberam, embora esse processo seja fruto de exigências sociais e políticas, quase que imperceptíveis, num primeiro momento, engendram mecanismos de dominação política.

Num segundo momento, começam a proporcionar as primeiras grandes modificações nas paisagens, exploram pedreiras, constroem castelos, templos, campos de jogos, recreação e competições, aquedutos, sistemas rudimentares de esgotos, destroem para implantar grandes campos de cultivo, e assim seguem sua marcha.

Entretanto, é bom salientar, nada disso seria possível sem a criação de uma sociedade estratificada socialmente e obediente às divindades e crenças impostas de forma cruel e sanguinária. Dessa forma, foram construídos os grandes impérios, ilustrados por alguns dos quais assim denominados:  Império Faraônico, Império Grego, Império Romano, Império Otomano, Império Asteca, Império Inca etc. Assim como os novos impérios, que surgiram depois da época das grandes navegações.

Uma dinastia, ligada diretamente a uma divindade, se organizava em torno dela, um grupo de obedientes ordenadores, que por sua vez organizavam grupos de guerreiros, exércitos, que davam ordens ou escravizavam hordas estranhas ao seu bando para fazerem os trabalhos pesados.

Com o incremento desse modelo, escravizaram-se continentes quase que por inteiro, porque os povos que possuíam costumes estranhos, que andavam nus ou que fisicamente eram diferentes, não eram considerados seres humanos, precisavam ter um Deus e precisavam também pensar como aqueles que lograram mais poderio bélico.

Sociologicamente surge a ideologia dos incluídos e excluídos, que permite aos humanos escravizarem outros humanos e os venderem e trocarem como mercadorias.

O modelo de universidade, casa da sabedoria, imposto no mundo ocidental, contribuiu largamente para o embasamento científico da desnaturização do homem, uma vez que separou os saberes em ciências humanas e ciências naturais, modelo cujos frutos colhemos até os dias atuais.

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Foto: Wikimedia Commons

Porém, é bom também salientar que as intervenções humanas, que começaram a permear a ciência, vêm desde a revolução neolítica, com o cruzamento entre espécies de uma mesma característica física, para adquirir certa homogeneidade de raças.

Isso aconteceu com os galináceos e com os cães, em seguida com a castração de touros, para impedi-los de deixar descendentes e torná-los mais mansos para o trabalho pesado. A castração dos seres humanos criando a classe dos eunucos, para cuidarem dos haréns, é só a ponta do iceberg de uma grande revolução que estamos começando a vivenciar: a engenharia genética e a inteligência artificial.

Há bem pouco tempo poderia descrever a humanidade atual como o resultado de dois processos evolutivos que se sobrepuseram ao longo do tempo: a evolução biológica, que compartilha com os demais seres vivos e que fundamentalmente consiste na transferência de adaptações biológicas que facilitam a sobrevivência e a seleção das espécies, e a evolução cultural, resultado dos avanços tecnológicos logrados pela espécie humana em sua evolução biológica.

A evolução cultural tem significado, por um lado, a organização do homem em grupos sociais que têm gerado problemas demográficos, problemas de saúde, problemas de , problemas institucionais etc.

Por outro lado, a evolução cultural agregou ao fluxo básico de energia e de informação e de circulação de matéria o fluxo do dinheiro, como resultado dos intercâmbios e das transações, gerando assim uma série de variáveis econômicas relacionadas com produção, capital, trabalho, comércio, indústria, consumo, níveis de preços, planificação de inversões, maximização de ganhos, transferências de tecnologias etc.

A aplicação das diversas tecnologias sobre as biogeoestruturas naturais originou diversas manufaturas como: artesanato, instrumentos, maquinários etc., como também deu origem a uma grande quantidade de ecossistemas artificiais, cidades, metrópoles, megalópoles, campos de cultivos, áreas de pastoreio, pastagens artificiais, represas, canais de regadio, rodovias, vias férreas, aeroportos, grandes usinas, complexos atômicos etc. Por último, a evolução cultural tem originado uma série de estruturas culturais ou ideofacturas: ideias filosóficas, crenças, conhecimentos, valores, normas etc.

Se tudo isto, aliado aos avanços eletrônicos, já nos causa surpresas, às vezes desagradáveis e espantosas, devemos nos preparar muito mais para o que nos aguarda com os resultados da engenharia genética, as possibilidades incertas da inteligência artificial, a vida biônica e até com a possibilidade de outras vidas. Somos mais poderosos do que nunca.

Desde o início da década de 1970, eu, como simples professor universitário, procurava colocar para meus alunos esses tipos de conhecimento e preocupações, frutos de minhas pesquisas, tanto aquelas desenvolvidas em campo, laboratório, mas também frutos das leituras de centenas de livros.

Às vezes, até achava que estava exagerando, quando falava do desaparecimento dos rios, dos ambientes naturais, ou mesmo quando ousava preconizar sobre o futuro do homem, sua liberdade e felicidade etc.

Entretanto, o tempo se encarregou de trazer a certeza das preocupações. Não é preciso ter cérebro brilhante nem ser um gênio da futurologia para sabermos que, de uma forma ou de outra, a bomba Z já foi plantada.

Também não é necessário ser genial para perceber que vivemos num planeta inteligente, cuja capacidade foi adquirida ao longo de bilhões de anos de experimentação e evolução, por isso, ele cobra caro pelos desequilíbrios provocados pelas intervenções mal planejadas nos elementos que compõem o meio ambiente, que por sua vez influenciam os comportamentos humanos, pois ambos são unos.

A revolução cibernética, que não veio sozinha, trouxe no bojo uma série de incontáveis invenções, com impactos profundos na humanidade atual e na perspectiva do futuro. Essas explosões estão criando super-homens com incomensuráveis poderes.

Air pollution near homes
Foto: Wikimedia Commons

Um desses poderes se refere ao conhecimento atômico, com suas infindáveis possibilidades, que a fissão e a fusão nuclear podem oferecer, desde a possiblidade da destruição em massa até a capacidade de implantação de grandes usinas atômicas, capazes de produzir energia, num momento crucial depois que a humanidade descobriu que as reservas de combustíveis fósseis são finitas e em que é crescente a limitação imposta ao uso desses combustíveis, por discursos mais recheados de ideologia que de embasamento científico.

A dessalinização da água do mar, também fruto da implantação dessas usinas, pode brindar o exponencial crescimento da população humana com o fornecimento de água potável.

Seguindo os exemplos acima, a busca constante por motores elétricos e por fontes eólicas de produção de energia tem trazido perspectivas cujas consequências apenas começam a se delinear.

Desde o evento televiso que transmitiu para o mundo a chegada do primeiro ser humano à lua em 1969 e, em seguida, a transmissão também em caráter mundial da copa do mundo de futebol, realizada no México em 1970, descobriu-se que a televisão, tal qual o rádio no início, tinha um poder magnifico de manipular massas e difundir informações em nível mundial, com a criação de cadeias globais.

Os cursos de jornalismo e outros intimamente ligados tiveram uma explosão mundial. No início, a ética era a estrela guia, mas logo em seguida os donos dessas corporações descobriram que esses meios eram instrumentos importantes para imporem suas “verdades” e logo se transformaram em senhores poderosos. A manipulação estava apenas no início, mas, como um raio, logo atingiram os sistemas nervosos de grande parte da humanidade, mudando crenças, hábitos e provocando o comodismo, que é a antessala da alienação.

No mesmo caminho surgem o raio laser, as micro-ondas, que vão revolucionar os telescópios, revolucionar a nossa visão do universo e proporcionar o aparecimento de incontáveis formas de meios de comunicação, causando um transtorno nunca visto na história da humanidade. Se as migrações modernas já haviam proporcionado uma grande mestiçagem genética, agora a humanidade está diante de uma mestiçagem cultural sem precedentes.

O fato é que a teoria de sistemas, a teoria do caos, foi reforçada no âmago da sua compreensão, e o Homem pode compreender que seu novo mundo é agora o universo. Esse fato o impulsiona à busca de um novo arranjo dos sentidos individuais e coletivos e à busca de novos modelos educacionais de ensino e aprendizagem.

Junte-se a todos esses ingredientes os avanços da genética, a partir da descoberta do ácido ribonucleico na década de 1960, capaz de modificar o ser humano. Isto sem contar os tranquilizantes, os excitantes e outros capazes de criarem novas percepções.

É preciso compreender que um Novo Mundo já começou e que a revolução que está contida nele não nos permite divisões da humanidade, quer seja de comportamento, clãs, raça e de riquezas extremas em detrimento de outros.

Não podemos conviver mais com as super populações exageradas. Por fim, uma nova adaptação está à espera. Se não, uma extinção em massa varrerá parte da humanidade da face do Planeta Terra.

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Foto: Wikimedia Commons/NASA

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Altair Sales Barbosa – Pesquisador do CNPq. Sócio Emérito do Instituo Histórico e Geográfico de Goiás. Professor convidado da Universidade Evangélica de Goiás. Membro do Conselho da desde a fundação da Revista, em 2014.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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