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O Sabor do Mar Negro

O Sabor do Mar Negro

Por Maria Prestes/Portal vermelho

Em Moscou, na cozinha, eu entrei no túnel do tempo! A geladeira era como aquelas bem pesadas do final da década de 1950. A máquina de lavar roupa russa andava mais do que lavava! Não existia a sombra de um liquidificador, batedeira de bolo, panela de pressão e o ferro de passar era tão pesado que parecia ser de carvão. Assim, os primeiros meses foram de muito aprendizado! Até a vassoura mais usada naqueles anos, chamada de “vênik”, não tinha cabo, tínhamos que varrer agachados.

A vassoura russa sem cabo se chama vênik

Algumas semanas após nossa chegada em Moscou, toda a família foi convidada para conhecer a cidade de Yalta. Foram cerca de duas semanas tranquilas naquela linda península da Criméia. Os soviéticos chamavam de “sanatório” os estabelecimentos de lazer para a população. As fábricas, sindicatos, o partido comunista e outras entidades, enviavam seus funcionários para essas casas onde podiam desfrutar com maior qualidade o raro sol do verão.


Península da Crimeia

Pode-se dizer que nos hospedamos numa boa pousada onde tínhamos todo o cuidado médico e nutricional. Foi diferente para nossa família, acostumada a ir às praias no Brasil sem qualquer preocupação, ter que se apresentar a médicos que podiam, ou não, liberar os banhos de mar, definir horários específicos e fixar o tempo de exposição ao sol. Uma enfermeira nos acompanhava e ficava de olho para que as crianças não permanecessem dentro da água mais do que uma hora.
Todos os dias tínhamos aulas de educação física e programas para passeios culturais que nos permitiram conhecer as belezas e a história local. Numa dessas ocasiões estivemos no jardim museu chamado de Árvore da Amizade, criado pelo cientista russo Ivan Michúrin. Era incrível como aquela árvore se destacava no meio de um enorme pomar com mais de 150 outras frutíferas de todo o mundo. Na Árvore da Amizade eu vi, no mesmo galho, laranjas, limões, toranjas e tangerinas! Contaram que já tinham sido feito mais de 500 enxertos e a árvore não parava de dar frutos. Mostraram o ponto em que o líder revolucionário vietnamita Ho Chi Mim deixou a sua marca. Foi uma honra para nossa família fazer um enxerto também.
Depois daquela primeira viagem, em outros anos realizamos inúmeras outras para as cidades de Sochi e Adler, no Cáucaso. Dos nove anos que residi em Moscou, pude conhecer o Mar Negro soviético e a costa da Bulgária e da Romênia – nas quais lembro bem as cidades de Varna e de Constança.

Josef Stalin

Numa das ocasiões em que fomos para o Cáucaso, conhecemos na Geórgia a cidade de Sukhumi. Ficamos hospedados numa casa que fora construída para o descanso de Josef Stalin. Lembro que o Velho não gostou muito. Disse que desconhecia o aspecto de vida de luxo daquele governante soviético que implantou o culto à personalidade.
Era uma casa bem dividida, decorada com móveis pesados. Na sala central, almoçávamos. Meu genro, José Nicodemos Rabelo, casado com a Ermelinda, que sempre tocou muito bem acordeom, em algumas ocasiões arriscou ali a dedilhar melodias brasileiras no piano. Existia um salão de jogos com mesas de pano verde para baralho, xadrez e gamão. Ao lado da lareira ficava o bilhar. Na varanda, guardavam um projetor de cinema através do qual assistimos filmes soviéticos, alemães, poloneses, franceses, italianos, cubanos, tchecos e húngaros. A casa ficava no meio de um pomar com macieiras, pessegueiros e figueiras. Ali, entre as videiras, encontrei pés de maracujá. Estes não prosperavam por conta da brevidade do verão. Normalmente para dar fruto são necessários de seis a nove meses. O verão naquela região dura três meses somente.

Calçadão junto ao Mar Negro

É muito difundida no Brasil a gastronomia do Mar Mediterrâneo. Pois, nessas viagens eu conheci a gastronomia do Mar Negro que não deixa nada a desejar. Tanto em Yalta como em Sukhumi vivemos experiências incríveis nos cafés da manhã, almoços e jantares. Mesas fartas de embutidos, creme de leite, frutas da época, pão preto de centeio, sementes e temperos dos mais diferentes. No restaurante da pousada de Yalta, como ao redor da mesa da casa de Stalin em Sukhumi, aprendemos a saborear pratos incríveis.
RECEITAS:

Sopa de Peixe
Ingredientes: 3 cabeças de peixe grandes; 1 cebola; salsa; cebolinha; pimentão; 1 colher de sopa de azeite; 1 tomate; 1 colher vinagre; sal a gosto.
Modo de Preparo: Coloque as cabeças de peixe, temperadas, numa panela grande com água. Acrescente o azeite. Leve ao fogo e deixe ferver até o peixe se desmanchar. Após o esfriamento coe o conteúdo numa peneira, retirando as cartilagens. Devolva o caldo à panela e leve ao fogo. Acrescente salsa e cebolinha picada, junto a meia xícara de farinha de mandioca para engrossar o caldo. Serve-se com pimenta do reino.
Observação: Este era um dos pratos preferidos do Velho. Lembro como ele dizia para os nossos filhos que ao tomar essa sopa as pessoas ficavam mais inteligentes.

Batata Frita Russa:
Ingredientes: 6 batatas e 2 colheres de sopa de manteiga.
Modo de Preparo: Descasque as batatas e coloque para cozinhar durante 10 minutos. Depois corte as mesmas em rodelas grandes. Doure todas elas juntas na frigideira.
Observação: Esta batata não fica crocante e seca como a que fazemos no Brasil. Parece como se estivesse somente cozida, mas com uma crosta saborosa. Na casa da minha aluna no curso de português, Lena Romadina, pude degustar várias vezes este acompanhamento.

Purê de Batatas com Salsicha
Ingredientes: 1/2 kg de batata inglesa; 200 gramas de salsichas; 1 colher de sopa de manteiga; 1/2 xícara de leite; 1 colher de chá de sal; 1 ovo.
Modo de Preparo: Cozinhar bem as batatas de modo que fique bem cozidas. Passar no espremedor, colocar em uma panela e acrescentar 1 colher de manteiga e meia xícara de leite. Levar ao fogo baixo mexendo bem com uma colher de pau, acrescentar 1 colher de chá de sal e o ovo, misturando bem por alguns minutos até que o ovo suma por completo. Acompanha salsicha cozida com molho de tomate e cebola.
Observação: Em muitos cafés da manhã de diferentes hotéis nos quais fiquei hospedada em cidades russas, pude conferir que a população adora esta combinação de purê de batata com salsicha.

Katléti – Bolinhos de Carne à Moda Russa
Ingredientes: 1/2 kg de carne moída; 2 pães dormidos; 3 dentes de alho; 1 cebola; 1 pimentão; louro e sal a gosto.
Modo de Preparo: Tempere bem a carne moída com todos os temperos e amasse bem com o pão, até o conteúdo se transformar em uma massa. Faça pequenos bolinhos na mão e leve à frigideira.
Observação: Katléti são muito tradicionais em todas as casas russas.

Tira Gosto de Caviar
Ingredientes: Torradas de pão de forma de centeio, chamado de pão preto, cortados em quatro partes; 1 pão de forma; 1 pote de caviar preto; 1 tablete de manteiga; azeitonas cortadas ao meio; folhas de salsinhas para enfeitar.
Modo de Preparo: Em uma forma, levar ao forno o pão já cortado em 4 pedaços. Quando estirem torrados, passar em todos a manteiga, o caviar e meia azeitona. Colocar a salsa e a cebolinha para enfeitar.
Observação: Experimentei o caviar, tanto o preto como o vermelho, na minha primeira viagem à União Soviética, em 1964. Tive a oportunidade de conhecer Volgogrado (antiga Staligrado) e Leningrado (hoje São Petersburgo). Nessas viagens, em várias ocasiões pude degustar essa iguaria.

Tira Gosto de Seliodka
Ingredientes: 1 Peixe chamado de Seliótka em conserva (um peixe que lembra a nossa sardinha); salsa picada e cebolinha a gosto.
Modo de Preparo: Em um prato colocar os pedaços de peixes e enfeitar com a cebolinha picada e a salsa. Já está pronto para ser consumido.
Observação: No deslumbrante cenário do Palácio dos Tsares, dentro do Kremlin, vi pela primeira vez esse tira gosto. Quando entramos no salão das recepções já estava lá sobre as mesmas. Foi durante a recepção do XXIV Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1971.

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Tira Gosto de Caranguejo
Ingredientes: 1 lata de caranguejo; 1/2 kg de batatas cozidas cortadas em cubos; azeite de oliva; azeitonas.
Modo de Preparo: Cozinhe as batatas de modo que não fique muito cozida. Em uma tigela já fria, coloque as batatas, a salsinha, as azeitonas e a carne do caranguejo. Tempere com azeite e mexa bem para pegar o sabor dos temperos. Se quiser, pode fazer com maionese.
Observação: Durante as férias de verão, nos anos de 1970-1979, viajamos várias vezes para o Mar Negro, tanto para a Criméia como para o Cáucaso. Foi numa dessas ocasiões que experimentei o krab, um caranguejo russo que é servido em salada de batata, pepino e maionese.

Cogumelos com Batatas
Ingredientes: 500 gramas de cogumelos frescos. 500 gramas de batatas.
Modo de Preparo: Corte as batatas em rodelas. Distribua-as bem em um frigideira, com manteiga preservando-as sempre. Em seguida, corte os cogumelos em pedaços e junte com as batatas, coloque uma pitada de sal. Quando já estiver quase cozida coloque algumas rodelas de cebolas. Pode servir.
Observação: Esse é um prato que vem à mesa russa após as primeiras chuvas de verão.

Salada de Pepino com Creme de Leite (Smetana)
Ingredientes: 2 pepinos médios cortados em rodelas (não tirar a casca); ervilhas verdes; creme de leite; salsinha e sal a gosto.
Modo de Preparo: Colocar em uma travessa, juntar a ervilha verde, a salsinha picada, em seguida juntar o creme de leite.
Observação: O Pepino e o repolho sempre fazem parte de toda salada russa, é muito apreciado em Moscou e em toda República Russa.
BEBIDAS:

KVINDZMARAÚLI – Vinho preferido de Josef Stalin
Maria Prestes, viúva de Luiz Carlos Prestes
Livro “Meu Companheiro – 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes” de autoria de Maria Prestes

 

http://xapuri.info/a-pernambucana-das-minas-gerais-por-maria-prestes/

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revista 115

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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