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Pé-de-Ferro, campeão formosense de 1970

Pé-de-Ferro, zagueiro do Formosinha, campeão formosense de 1970 – Outro dia fui almoçar com meu amigo Walter, vulgo Pé-de-Ferro, formosense de raiz, há 28 anos radicado em Vila Boa de Goiás, pacata cidadezinha goiana cortada pela BR-020, distante cerca de 90 quilômetros de Formosa…

Por Zezé Weiss

De profissão marceneiro, há algum tempo aposentado por um acidente de trabalho, Pé-de-Ferro vive com Neuza, sua companheira de 41 anos, em uma casa simples, coberta com telhas de barro, com um pé de jurubeba na porta da rua, e o luxo de um quintal com fogão de lenha, sombreado por uma frondosa mangueira, rodeada por canteiros de horta por todos os lados.

Depois do rango delicioso e farto – arroz, feijão, salada, pequi, quiabo, almôndegas, frango assado à moda da casa (feito pelo próprio Walter, excelente cozinheiro) e “otras cositas más”, Pé-de-Ferro e eu nos sentamos com Neuza e Valéria (minha companheira de viagem) para uma linda sessão de lembranças dos nossos tempos de juventude na Formosa dos anos 70.

Pra começar, em nossa época Pé-de-Ferro era o que hoje chamam de pop: bom de bola e bom de viola, Walter tocava e cantava em um conjunto chamado Sexta Geração. Mas Pé-de-Ferro brilhava mesmo era nas rodas de viola do Bar do Seu Elpídio, ponto de encontro da nossa boemia, que ficava aberto a noite toda ali na rua Emílio Póvoa, perto do antigo cinema Imperatriz.

O apelido Pé-de-Ferro veio do fato de ser um excelente jogador, disputado por todos os times,  num tempo em que o futebol movia os domingos da juventude formosense. E foi falando de futebol que Walter nos presenteou com a melhor memória do dia, a de como se tornou zagueiro do Formosinha.

 

Como eu era bom de bola, todos os times de Formosa me queriam. O Formosa, o Bancários, o Lagoa, todos disputavam o meu passe. Para o campeonato de 1970, só o Formosinha não tinha falado comigo, porque era um time considerado fraco, sem equipe e sem estrutura.

Enquanto eu matutava sobre que time escolher, cada vez mais eu fui pensando em uma situação que me incomodava  e que tinha a ver com meu amigo Expedito – Ditinho (nome fictício), jogador do Formosinha. Ditinho e eu trabalhávamos juntos na CEM, depois SUCAM, eu na parte administrativa, ele como auxiliar de serviços gerais.

Por razões diversas, Expedito era sempre muito humilhado, sofria muito com o que agora chamam de bullying. E uma das maiores gozações era sobre o Formosinha. Pegavam no pé dele por insistir com um time que nem chuteira tinha. O pobre sofria, aguentava calado, talvez por ser muito humilde, talvez por timidez, talvez por achar que não tinha com quem contar. Eu me sentia cada vez mais incomodado. 

Mas para mim o caldo entornou mesmo foi quando um dia passaram do ponto e fizeram o Expedito chorar de tanta humilhação. Foi então que eu disse a ele: ‘Ditinho, já escolhi o meu time, eu vou jogar com você no Formosinha.’ Expedito, claro, custou a acreditar, mas eu nunca tinha falado tão sério em toda a minha vida.

O resto é história, nós nos organizamos, treinamos muito, fomos pra cima e o Formosinha ganhou o campeonato formosense de futebol do ano da graça de 1970”.

Essa linda história quem me contou foi meu amigo Walter Pé-de-Ferro, no aconchego de seu lar vilaboense, ao passo de uma boa prosa, regada a água e afeto, em uma calorenta tarde de verão, num dia de sábado do mês de janeiro de 2020, na cidade de Vila Boa de Goiás, no coração do nordeste goiano.

P.S. Expedito – Ditinho é nome fictício. Como o personagem é vivo e não foi consultado, Pé-de-Ferro e eu optamos por usar outro nome, para preservar sua privacidade.

 


 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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