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Guarani-Kaiowá: Despejo em Caarapó agendado

Guarani-Kaiowá: Despejo em Caarapó agendado

Funai já foi notificada de data e hora do despejo. Indígenas afirmam que não sairão e temem um segundo massacre no local onde foi assassinado Clodiodi, em 2016

Polícia irá despejar acampamentos Guarani e Kaiowá nesta segunda em Caarapó (MS)

POR RUY SPOSATI E TIAGO MIOTTO/ASCOM DO CIMI

Dois acampamentos Guarani e Kaiowá poderão ser violentamente despejados pela polícia nesta segunda-feira (9) em Caarapó (MS), no mesmo local onde foi assassinado o indígena Clodiodi Aquile de Souza, em 2016. A Polícia Federal deverá convocar a Polícia Militar para realizar a ação, prevista para iniciar às 6 da manhã.

A informação foi recebida neste sábado (7) pela comunidade, que teme um conflito sem precedentes. “Nós estamos preparados para qualquer coisa”, explica por telefone a liderança Kunumi Apyka’i Rory. “O segundo massacre tem data marcada, porque a comunidade não aceitou recuar. Vamos esperar a polícia”.

Em meio à iminência do despejo, os indígenas aguardam que o Supremo Tribunal Federal (STF) acate os recursos da Fundação Nacional do Índio (Funai), pedindo a suspensão da reintegração de posse das áreas. Cabe à presidenta do STF, Cármen Lúcia, analisar os pedidos.

Brutalidade

“O despejo em Caarapó pode atingir níveis de violência nunca antes visto nestas operações”, avalia o missionário  do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no Mato Grosso do Sul, Flávio Vicente Machado.

“Mais de cinco mil pessoas moram na reserva. Poderá ser um massacre ainda maior que o que matou Clodiodi”, analisa Flávio, relembrando o episódio de junho de 2016, conhecido como o massacre de Caarapó.

Na ocasião, dezenas de fazendeiros e homens armados invadiram um acampamento em caminhonetes e tratores, matando o agente de saúde indígena e deixando mais 20 pessoas feridas, entre crianças, professores e idosos.

Na última semana, a PF enviou de Brasília o delegado Luiz Carlos Porto para tentar convencer os Kaiowá e Guarani a sair das áreas ocupadas. “Tentamos de todas as formas convencer a comunidade a (…) evitar a reintegração com força policial, que é sempre muito traumática”, afirmou o delegado federal em entrevista coletiva.

Segundo o policial – especializado em negociações com indígenas -, “os índios têm um orgulho pela terra e isso dificulta a saída. Eles entendem que a ordem judicial não tem de ser cumprida por estarem nas terras que sempre lhes pertenceram”.

Em outro processo de reintegração de posse em Caarapó em 2017, a PF alertou a Justiça sobre a “probabilidade concreta de mortes” durante a execução do pedido. O ofício da polícia, na época, acabou embasando uma decisão da Justiça Federal de adiar, até então, um dos despejos contra a comunidade.

Manifestação contra despejo no Tekoha Jeroky Guasu, em 2017. Foto: Rafael de Abreu

Manifestação contra despejo no Tekoha Jeroky Guasu, em 2017. Foto: Rafael de Abreu

Polícia

“A situação é muito mais complexa do que ocorreu em Buriti, em 2013”, argumenta Flávio, referindo-se à violenta operação das polícias federal e militar que resultou na morte do indígena  Oziel Terena, também no Mato Grosso do Sul.

Para que a polícia tenha acesso às áreas a serem despejadas em Caarapó, explica Fláivo, será preciso atravessar toda a área da reserva de Tey’i kue, onde vivem mais de cinco mil indígenas, o que potencializará os cenários de conflito ao longo da operação.

Mais grave ainda, para ele, é a participação da PM no despejo. “O Mato Grosso de Sul é um estado aparelhado pelo agronegócio, e a PM, muitas vezes, reflete isso. Os indígenas de Caarapó sempre nos contam que, depois do massacre, a atuação da PM piorou muito na área”. Ele aponta, também, a possibilidade de haver “um desejo de vingança por parte da PM” contra os Kaiowá e Guarani acampados nas fazendas.

“Temos que cumprir a ordem judicial e a lei que garante o direito de propriedade, mas a reintegração de posse não adianta porque as ocupações vão continuar. Só existe uma solução: é demarcar ou demarcar”, afirmou o delegado da PF Luiz Carlos Porto.

Judicialização

As duas áreas com ordem de despejo para esta segunda-feira são reivindicadas pelos indígenas como seus antigos tekoha, territórios originários dos Kaiowá e Guarani que foram transformados em fazendas ao longo do século 20.

Parte da área ocupada já está em processo de demaração – a Terra Indígena (TI) Dourados-Amambaipegua I, que faz limite com a reserva Tey’i kue, e cujo relatório de identificação e delimitação foi publicado em 2016.

Apesar disso, o governo não deu continuidade à demarcação, e um emaranhado de processos judiciais de proprietários rurais contra os indígenas surgiu. São ao menos dezoito ações de reintegração de posse e interditos proibitórios que estão em curso na Justiça Federal de Dourados contra a comunidade indígena de Caarapó.

Um dos acampamentos com despejo marcado, o tekoha Jeroky Guasu, está dentro da TI. O outro, o tekoha Guapo’y, é reivindicado pelos indígenas como parte de seu território tradicional e teve o despejo determinado por uma decisão liminar do Tribunal Regional Federal da Terceira Região (TRF-3). No caso de Jeroky Guasu, o despejo foi determinado por uma sentença da 1ª Vara da Justiça Federal de Dourados, depois de uma liminar ter sido suspensa pelo STF no início de 2017.

Além das duas áreas citadas, também a aldeia Pindo Roky – outra área dentro da mesma TI – tem uma ordem de despejo, e pode ser cumprida a qualquer momento. Em 2013, o local foi ocupado pelos Kaiowá e Guarani, após um indígena de 14 anos ter sido assassinado com um tiro na cabeça pelo proprietário da área por pescar no açude da fazenda. Apesar de ter admitido o crime, o fazendeiro não foi condenado.

Crise humanitária

Para o agente do Cimi, a paralisação da demarcação de Dourados-Amambaipegua I é o principal motivo da violência. “O que existe ali na reserva é uma crise humanitária, que obriga estas pessoas a arriscarem suas vidas ocupando fazendas, uma vez que o governo paralisou as demarcações”, afirma Flávio Vicente Machado. “As retomadas acabam sendo a única medida destas comunidades”

O delegado da PF, em sua declaração à imprensa, manifestou uma posição semelhante.

“A comunidade não é composta de criminosos e sim de trabalhadores que lutam por seus direitos. Temos que cumprir a ordem judicial e a lei que garante o direito de propriedade, mas a reintegração de posse não adianta porque as ocupações vão continuar. Só existe uma solução: é demarcar ou demarcar”, afirmou Luiz Carlos Porto.

 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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