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Por que me persegues, Bolsonaro?

Por que me persegues, Bolsonaro?

Que a coragem do jornalista contamine a todos nós na luta contra o fascismo

Por que me persegues, Bolsonaro?

Por Felipe Pena

Quem és tu na fila do pau de arara, capitão?

Um Fleury com baba de poodle ou um Médici na sombra do guarda da esquina?

Querias matar 30 mil e já triplicastes a meta. Querias o genocídio indígena e aproveitas a pandemia.

Querias o fim da floresta amazônica e teu ministro vai passando a boiada.

E agora queres o meu silêncio, minha cumplicidade, meu aceno de Jarbas Passarinho.

Não, não conseguirás colocar mordaça em quem te denuncia, capitão.

Quem és tu para me incluir numa lista de inimigos do estado?

Achas mesmo que somos apenas 500 antifascistas no serviço público?

Achas que não sabemos que ser antifascista é um dever cívico diante da tua necropolítica?

Achas que um relatório sigiloso, produzido nos porões do teu DOPS particular, servirá para nos intimidar?

Se queres me torturar, mostra a tua cara nesta gaiola das loucas.

Não te escondas por trás do ministro que abana o rabo.

Não te acovardes na saia do diversionismo.

Não afunde o nariz na lama dos perdigotos que te bajulam.

Venha aqui e me encare, capitão! Ou és tu a real fraquejada de que tanto te envergonhas?

O artigo 4.42 da nota técnica 1556/2020 da CGU, publicada em 29 de julho,

diz que “a divulgação em mídia social de manifestação de indignação com superiores é exemplo de conduta

que não se identifica com a consecução dos deveres legais do servidor.

” Pois esta carta é o registro da minha indignação. Quando baterás à minha porta, capitão?

Mandarás o cabo e o soldado? Ou serei alvo das milícias de tua família? Que covardia tu escolherás?

A nota da CGU vem na esteira do relatório secreto do ministério da justiça

com a lista de 500 funcionários públicos identificados como antifascistas.

Censura sem disfarce, inconstitucional e imoral.

Seu objetivo, claro e preciso, é continuar a intimidação dos servidores.

Sei que não lestes a nota, capitão.

Não saberias o significado da palavra “consecução”.

Tampouco conseguirias acompanhar um texto de nove páginas.

Mas isto não te livra da canalhice feita em teu nome.

Se estás com tanto medo de um professor, precisarás de fraldas para encarar as togas do Tribunal de Haia.

Sou antifascista, capitão.

Toda a constituição é antifascista.

E quando pergunto por que me persegues, a resposta é coletiva.

Ela está inscrita nas ideias dos outros 499 nomes que me acompanham na tua lista de inimigos.

Chama-se democracia.

Felipe Pena é jornalista, professor e escritor.`

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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