Pesquisar
Close this search box.

A Raça Esmagada

A Raça Esmagada

Trecho IV do poema Os doentes

Por Augusto dos Anjos (1884-1914)

Começara a chover. Pelas algentes 

Ruas, a água, em cachoeiras desobstruídas, 

Encharcava os buracos das feridas, 

Alagava a medula dos Doentes! 

Do fundo do meu trágico destino, 

Onde a Resignação os braços cruza, 

Saía, com o vexame de uma fusa, 

A mágoa gaguejada de um cretino. 

Aquele ruído obscuro de gagueira 

Que à noite, em sonhos mórbidos, me acorda. 

Vinha da vibração bruta da corda 

Mais recôndita da alma brasileira! 

Aturdia-me a tétrica miragem 

De que, naquele instante, no Amazonas, 

Fedia, entregue a vísceras glutonas, 

A carcaça esquecida de um selvagem. 

A civilização entrou na taba 

Em que ele estava. O gênio de Colombo 

Manchou de opróbrios a alma do mazombo

Cuspiu na cova do morubixaba!

E o índio, por fim, adstrito à étnica escória, 

Recebeu, tendo o horror no rosto impresso, 

Esse achincalhamento do progresso 

Que o anulava na crítica da História!

Como quem analisa um apostema, 

De repente, acordando na desgraça, 

Viu toda a podridão de sua raça… 

Na tumba de Iracema!…

Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone, 

Exercia sobre ele ação funesta 

Desde o desbravamento da floresta 

À ultrajante invenção do telefone.

E sentia-se pior que um vagabundo 

Microcéfalo vil que a espécie encerra 

Desterrado na sua própria terra, 

Diminuído na crônica do mundo! 

A hereditariedade dessa pecha

Seguiria seus filhos. Dora em diante 

Seu povo tombaria agonizante 

Na luta da espingarda com a flecha! 

Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos.

Uma desesperada ânsia improfícua 

De estrangular aquela gente iníqua 

Que progredia sobre os seus despojos!

 

Mas, diante a xantocroide raça loura, 

Jazem, caladas, todas as inúbias, 

E agora, sem difíceis nuanças dúbias, 

Com uma clarividência aterradora,

Em vez da prisca tribo e indiana tropa 

A gente deste século, espantada,
Vê somente a caveira abandonada

De uma raça esmagada pela Europa!

ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. p.134-136

Fonte: Alma Acreana

Block

 

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Parcerias

Ads2_parceiros_CNTE
Ads2_parceiros_Bancários
Ads2_parceiros_Sertão_Cerratense
Ads2_parceiros_Brasil_Popular
Ads2_parceiros_Entorno_Sul
Ads2_parceiros_Sinpro
Ads2_parceiros_Fenae
Ads2_parceiros_Inst.Altair
Ads2_parceiros_Fetec
previous arrowprevious arrow
next arrownext arrow

REVISTA

REVISTA 115
REVISTA 114
REVISTA 113
REVISTA 112
REVISTA 111
REVISTA 110
REVISTA 109
previous arrowprevious arrow
next arrownext arrow

CONTATO

logo xapuri

posts recentes