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Presente cósmico

Presente cósmico
Presente cósmico – Naquele instante; espaço-tempo inseparáveis./Uma fagulha que salteou o espaço./

Amizade estranha, entranhável,/inesquecível, um prazer-não-completo./Um inacabado chamado./Chamo-o de presente cósmico.
 
Por Reinaldo Bueno Filho
 
Acordar em meio a madrugada,
assim meio que sem querer
só querendo você, com a sua aura a iluminar,
de seus olhos estelares brilhando vívidos;
assim quando despertei por essa hora,
em outra cama, em outro lugar,
em outro tempo, talvez outro universo.
(Não saberia dizer, meu tempo ali se perdia).
E suas estrelas, luas e planetas sussurravam
lentamente, dormente, lentamente,
mostrando a mim que sou quase cego,
porque amo cedo e cegamente,
uma aura cosmicamente perfeita.
Falavam seus olhos
o que ainda reverberara baixo,
mas distinto é claro, em minhas entranhas:
o desejo de correr por seu infinito,
ascender suas luzes, reviver sua aura,
ver brilhar ainda mais as estrelas
dos seus olhares múltiplos, perdendo o conter,
em matemática perfeita, conhecer:
multiplicando os meus beijos,
perdendo-os por sua pele macia,
buscando a imensidão de sua alma
em sua nuca, seu pescoço, sua boca,
fortalecendo de seu beijo o meu abraço
por sobre você, duas forças infinitas.
As auras, sua e minha, se tomaram um pouco.
Naquele momento. Naquele estado estelar.
Tomando para mim o fogo abrasador
e solar do seu olhar a me acordar,
para o dia e para a vida,
iluminando um rastro de minha escuridão,
e abraçando com toda viril força
de meus braços e mãos desavergonhados,
a galáctica força orbital, cósmica e cômica,
de seus olhos estelares a me levantar
chamando meu mundo para seu infinito.
Naquele instante; espaço-tempo inseparáveis.
Uma fagulha que salteou o espaço.
Amizade estranha, entranhável,
inesquecível, um prazer-não-completo.
Um inacabado chamado.
Chamo-o de presente cósmico.
 
Toda vida amei a complexidade do céu, e o fato de ser infinito, como aquele instante seu e meu. Presente Cósmico, Rio de Janeiro, 15 de Maio de 2020.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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