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Preta Ferreira desabafa: “Estou presa porque nasci mulher, preta e pobre”

Preta Ferreira desabafa: “Estou presa porque nasci mulher, preta e pobre”

Na prisão há mais de 30 dias, Preta Ferreira desabafa: ‘Estou presa porque nasci mulher, preta e pobre'

A ativista por moradia, presa junto com sua família no dia 24 de junho por denúncias anônimas de extorsão, foi entrevistada pela Rádio Atual
 
 
 
São Paulo – Janice Ferreira da Silva, a Preta Ferreira, está presa há 30 dias mesmo sem ter cometido crime nenhum. Foi detida junto de seu irmão, Sidney Ferreira e sua mãe, líder do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) e da Frente de Luta por Moradia (FLM), Carmen Silva. A acusação é de extorsão, por cobrança de uma taxa de moradores em condomínios ocupados do centro de São Paulo – num processo que desconsidera que essas contribuições são decididas em assembleias de moradores, registradas em cartório e comprovadas por recibos. Para Preta, a verdade é outra. “Não sou bandida, sempre trabalhei. Estou presa porque nasci mulher, preta e pobre em um país aonde quem manda são homens machistas e racistas.”
Preta foi entrevistada no dia 23 de julho pela repórter Nahama Nunes, da Rádio Brasil Atual. A entrevista foi gravada e transmitida na edição do Seu Jornal, da TVT. Ele está na Penitenciária Feminina de Santana, na zona norte da capital paulista.
A ativista da luta por moradia critica a decisão, justifica a cobrança da tal taxa e, emocionada, classifica sua prisão como política. “Estou presa porque briguei por direitos constitucionais. Quem deveria estar preso é quem não cumpriu com seus deveres constitucionais. Moradia é um direito constitucional”, disse.
A ativista está em cela especial, já que tem formação superior e em Publicidade. Ela argumenta que o movimento social passa por um processo de criminalização no país e que, idealmente, sequer gostaria de travar sua luta cotidiana. “Ninguém ocupa porque quer. Ocupamos por necessidade, para não morrer de frio. Não somos vândalos. Ocupamos porque precisamos. Acha que eu não queria ter minha casa? Queria, mas como vou comprar? Trabalho para comer ou para pagar moradia. Aonde em São Paulo alguém vive com um salário mínimo?”, questionou.
 

Acusações

A defesa de Preta alega que nem sequer teve acesso completo ao inquérito que a levou para a prisão. No último dia 10, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou liminar que pedia a libertação dos presos. O que se sabe é da acusação de extorsão, que teria sido feita por anônimos para a polícia. Tal acusação já havia sido aplicada contra Carmen no ano passado. Ela foi inocentada. “Como ela está respondendo duas vezes pelo mesmo crime?”, pergunta Preta sobre sua mãe.

Extorsão

Sobre os valores cobrados a moradores de ocupações sob controle do MSTC, Preta diz que elas existem, são justas e estão em acordo com a lei. “Tudo que eles pagaram eu também paguei. Não posso extorquir alguém e dar comprovante disso. O movimento dá comprovante dos pagamentos. Essas taxas foram decididas pelos próprios moradores, justamente para não haver roubo”, disse.
Ela explica que, após o movimento ocupar um prédio do governo, ele não está adequado para moradia. A própria prefeitura – após o desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, centro de São Paulo, no ano passado – exige padrões de qualidade das localidades, sob pena de desapropriar. “A prefeitura, o governo deixa o prédio abandonado. Nós vamos e ocupamos. Quando chegamos o prédio não está lindo, maravilhoso. Quem vai pagar por isso? De algum lugar tem que sair.”
Preta ainda explica que, além de luz, água, extintores de incêndio e manutenções estruturais, as ocupações precisam ainda contar com o serviço de alguns profissionais, todos pagos pelos próprios moradores. “Os recursos são utilizados dentro das próprias ocupações. Pagamos advogado, porteiro. Quem trabalha de graça? Porteiro 24 horas, advogado, corpo administrativo, assistente social. Nem o governo trabalha de graça. Temos que pagar para pessoas que trabalham para o movimento”, disse. Tudo isso, relata, acordado em assembleias do movimento que são lavradas em cartório.

PretaPreta Ferreira, em entrevista à repórter Nahama Nunes: “Não podem me manter aqui para sempre. Vou lutar duas vezes mais do que já lutava.” Foto: TVT/Reprodução

Mistura de movimentos

A ativista afirma que a Justiça trata todos os movimentos de moradia como se fossem um só; junta todo o movimento social em um grande bolo para criminalizar. Por isso, fatos sobre o caso do edifício Wilton Paes de Almeida, que desmoronou após um incêndio, estariam em seu processo, mesmo seu movimento não tendo ligação com aquele prédio. “Eles misturaram vários movimentos que não têm nada a ver. Misturou Ananias que eu nunca vi na vida. Misturou MSTC com o prédio do Payssandú, mentira. Não posso pagar o preço de uma coisa que não tenho nada a ver. O prédio caiu, investigue. Tem esse homem foragido, por que?”

Intimidação política

Preta era a apresentadora, antes de seu cárcere, do Boletim . Ela chegou a receber uma carta do ex-presidente, que está preso em Curitiba. A ascensão da extrema-direita no cenário político tem relação com sua prisão e a de Lula, afirma. “Lula deu oportunidade, ouviu movimentos sociais e os mais pobres. Eu sei o que ele está passando e ele sabe o que estou passando. Sabemos porque estamos presos. Essa é a ditadura de 2019.”
A ativista ainda denuncia que foi intimidada por um delegado e um carcereiro. “O delegado disse que era de direita e que o ano que vem ia se candidatar e quem era do PT tinha que se foder. Ele disse isso no Deic. Então, minha prisão é política. O carcereiro do Deic disse que ‘esse povo do PT tem que se foder.”

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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