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Quem são os racialistas no Brasil?

Quem são os racialistas no Brasil?

Por Iêda Leal

É a pergunta que nos vem quando lemos o artigo publicado na Folha de São Paulo, em 16/12/2017, do escritor Antonio Risério, no qual ele acusa ativistas do movimento negro de implantar um “apartheid amoroso-sexual”, faz sua defesa do fenômeno e da prática social da miscigenação à brasileira como parte da formação do país, sem tocar no tema do racismo e nas suas profundas implicações na cultura brasileira.

Ao destacar a diferença entre a miscigenação biológica e o que chama de ideologias da mestiçagem, o autor cai na armadilha das mesmas ideologias que ataca. Sugere que a crítica feita pelos movimentos negros, da mestiçagem como dominação política, nasce não do enfrentamento a um modelo de poder e da hegemonia racializada e eugenista de um grupo populacional sobre outro, mas de influências externas.

O autor parece não perceber – ou não quer ceder a esta leitura – o uso social da prática da miscigenação e da população de mestiços, como parte da operação racial brasileira, que relega pretos e pardos/mestiços às mesmas condições de vida na sociedade brasileira, em uma verdadeira apartação social. Cumprindo o Estado brasileiro com uma parte desta operação de poder e dominação racial.

Sim, a mestiçagem biológica é parte da história do Brasil como o é, de resto, em quase todas as sociedades humanas. A questão que se coloca é: qual o papel dos mestiços na sociedade brasileira? E qual o uso que o Estado e a sociedade fazem dessa identidade. Tema exposto de forma brilhante na obra Rediscutindo a mestiçagem no Brasil do antropólogo Kabengele Munanga, que parece não ter sido bem lida pelo autor do artigo em tela.

  1. Risério é muito rápido e raso. Propõe que a racialização, histórica na vida da República, é produto da ação do movimento negro; ataca luminares da vida pública brasileira; faz uma leitura rasteira – e raivosa – da vida e obra de Abdias do Nascimento e, de quebra, oferece à leitora uma pequena fresta de onde se pode ver suas preocupações com o que chama de “apartheid amoroso-sexual”, “lugar de cama”, “segregação erótica”.

Uma evidente continuidade à leitura que vastos setores da elite nacional têm de nosso país como um lugar onde o congraçamento sexual interétnico permitiria ao Brasil o título de oásis da democracia racial. Aqui temos um ponto fulcral para pensar os efeitos do racismo brasileiro.

Não, os movimentos negros não criaram e nem propõem a racialização e a apartação racial. Inclusive a crítica ao racismo cientificista do século XIX foi estabelecida no Brasil também por intelectuais negros com origem ou forte aproximação aos movimentos negros. Assim como a crítica à apartação social dos negros é pauta política constante nas lutas encabeçadas pelos movimentos negros no Brasil.

O autor do artigo parece ter dificuldades em respeitar a demarcação da identidade política da coletividade engendrada no contexto dos movimentos negros, que disputa o direito de ancorar suas reivindicações pelo direito integral à cidadania a partir da crítica a um regime de exclusão que nasce da matriz colonial, escravocrata e racista que – desafortunadamente – deu   base à sociedade brasileira contemporânea.

Temos que enfrentar o racismo estrutural, sistêmico. Porque ainda que certa ideologia afirme um Brasil miscigenado, quem é negro –  ou quem estuda os dados da violência – aqui sabe que racismo mata.

Centro de Referência Negra Lélia Gonzalez

Comissão Permanente de Políticas de Igualdade Étnicorracial/IFG

Núcleo de Estudos das Relações Raciais, de Gênero e Africanidades/IFG

Secretaria de Combate ao Racismo

Negritude Socialista Brasileira/NSB

Conselho de Igualdade Racial do Estado de Goiás

Fórum de Mulheres Negras do Estado de Goiás

Movimento Negro do Centro Oeste na luta contra os racistas.

Iêda Leal

Vice Presidenta do Sintego

Secretária de Combate ao Racismo da CNTE

Conselheira do Conselho Estadual de Educação – CEE/GO

Coordenadora do Centro de Referência Negra Lélia Gonzales

Coordenadora Nacional do Movimento Negro Unificado – MNU

Vice Presidenta da CUT – Goiás

Obs.: publicado originalmente em 19 de jan de 2018

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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