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Forte: um quilombo que a história desconhece

FORTE: UM QUILOMBO QUE A HISTÓRIA DESCONHECE

Forte é distrito de São João da Aliança- Goiás, um quilombo que a história desconhece. Atrás da Serra Geral se esconde um povoado que ficou perdido no tempo. 
 
Na região norte e nordeste de Goiás se formaram vários quilombos entre os séculos 18 e 19. Em  sua maior parte eram escravos fugitivos das minas de ouro que abundavam nas redondezas.
 
Estes formaram comunidades autossuficientes que permaneceram isoladas por muito tempo em regiões remotas e de difícil aceso. Os quilombos registrados na região foram os de Acaba Vida, Muquém e Papuã (Niquelândia, GO), Forte (São João d’Aliança, GO), Mesquita (Luziânia, GO), Pilar (Goiás) e Kalunga (Cavalcante, Teresina e Monte Alegre) e o quilombo Flores Velha, em Flores de Goiás.
 
O estado de Goiás ainda teve outros quilombos, sendo que o Quilombo do Cedro, em Mineiros, oeste do estado, existe ainda hoje e também foi reconhecido como território quilombola.
 
O Quilombo Kalunga foi o maior e mais importante da região. Aos habitantes foi dado o nome de Kalunga ou Calunga, que na língua banto – uma das diversas línguas africanas que eram faladas pelos negros trazidos na diáspora, principalmente de Angola, Congo e Moçambique – significa lugar sagrado e de proteção.
 
No território dos Quilombo do Forte destaca-se a figura de Seo Nego, que faz o trabalho maravilhoso com madeira as famosas “colheres de pau”, e outros utensílios. Dona Chiquinha, boleira e seus  biscoitos escaldadinhos fervido. Deliciosos!
 
As políticas públicas ainda são muito deficientes. Apenas 3,6% dos moradores receberam recursos do Programa Nacional de Apoio à Agricultura Familiar.
 
A religiosidade é a forma de organização predominante do povo do Quilombo do Forte. “Se deixamos nossas tradições, nossas festas, nossas danças, nosso modo de vida, deixamos de ser quilombolas” – explica Lereci dos Santos Rosa.
 
É nas festas onde os santos são louvados que o povo se organiza e festeja sua identidade. As festas, assim como a religiosidade, expressam o sincretismo entre o catolicismo e as influências africanas. Há as festas de Império – que remontam aos impérios africanos, deixados no outro continente – e romarias, que se ligam às tradições católicas.
 
Em todas as festas são louvados santos católicos e também figuras que relembram os orixás africanos. As festas também servem como ritos para celebrar as colheitas e como ritos de iniciação (namoro) e passagem (casamento).
 
A maioria das pessoas que ali moram, se declaram como católicas e apreciam as festas. Nestas festas, também são tradicionais as danças como a sussa , o batuque, catiras e o forró.
 
“Desde que me entendo por gente isso é desse jeito.” A frase se repete entre os velhos moradores do Forte. Desvela, nesse modo antigo de dizer, a preguiça do tempo. O decorrer dos dias, dos meses e dos anos pouco altera a forma e o sentido do que ali existe.
 
É um povoado plantado ao pé da Serra Geral, longa cadeia de montanhas que separa a Bahia de Goiás e depois entra em território goiano e no percurso corta o município de São João d’Aliança de ponta a ponta.
 
Tivesse memória, aquele trecho da Serra Geral teria muito a contar. Só ele poderia revelar aos pesquisadores tudo o que se desconfia do que ali tenha acontecido. Embora conste do mapeamento chamado Territórios das Comunidades Remanescentes de Antigos Quilombos no Brasil, de Rafael Araújo dos Anjos, o Forte ainda não foi oficialmente reconhecido como remanescente de quilombo e portanto seus habitantes não receberam a titulação das terras ocupadas.
 
Encostado num paredão da Serra Geral, o Forte ficou isolado do mundo por mais de 60 anos, desde que deixou de ser sede do município, em 1931. Conheceu televisão em meados dos anos 80.

(…)

“A primeira indústria de viagem que conheci foi a bicicleta”, diz seu Leão da Silva Bastos, 79 anos, joelho quebrado e nunca engessado desde os 15, uma bengala para segurar a idade e um turbilhão de histórias para contar no seu português de singular construção sintática. Seu Leão viu a primeira bicicleta em 1966. Um pouco depois, o Forte entrou em pânico: uma zoeira sobrevoava o céu do povoado. Os cavalos dispararam, as galinhas cocoricavam desesperadamente, correndo em círculo e dando saltos para fugir do que elas não sabiam e até hoje não sabem.

Seu Leão: “Teve gente que deu tremura. Olhava pro céu e não via nada. Só o vrummmm. Nós não sabia o que era isso até que um que tinha mais inteligência disse que era um aeroplano”.

Antes do aeroplano, a cidade conheceu o caminhão. Logo depois da bicicleta, seu Leão ajudou a limpar o caminho, com foice e facão, para que a outra “indústria de viagem” chegasse ao Forte. Dessa, eles não tiveram medo. Só admiração pelo tamanho do bicho, pelo tanto de rodas e pelo vrummmm quase parecido com o do aeroplano.

Uma serra e oito pontes:  A Vila do Forte foi oficialmente criada em 1862 e três anos depois já abrigava a Prefeitura, o cartório, a agência de Correios, a escola. Quando perdeu tudo isso para São João d’Aliança, enfurnou-se na solidão. A nova sede do município ficava, e fica, do outro lado da Serra Geral, um paredão de 1.400 metros de altitude. Para chegar a São João é preciso vencer uma estrada estreita, pedregosa, sinuosa, que beira abismos e se abre para uma imensidão de cerrado.

Há mais a vencer para chegar ao Forte. Depois de escalar os 33 quilômetros de Serra, há mais 45 de estrada de chão. São oito pontes de madeira em precaríssimo estado. Madeiramento antigo, roído pelo tempo, desalinhado pelo uso, empenado pelas chuvas. Por debaixo delas, passam córregos cujas águas balançam sobre o chão de pedras e areia, muito mais aquelas do que essas. Águas acinzentadas e cintilantes. O Forte é cercado de nascentes e abastecido pelo Rio Piripiri.

Há pouco mais de 60 casas no povoado. Casinhas de adobe, algumas de tijolos. As antigas têm alicerces de pedra, caibros grossos, portas e janelas talhadas à mão. Algumas das casas são separadas por muros de pedra, resquício do duro trabalho escravo. Só os mais velhos têm lembranças de histórias da escravidão, que lhes foram contadas pelos pais. Seu Leão ainda viu uma comunidade negra vivendo à beira do riacho. “Os preto do ribeirão”. Era assim que eram identificados pelos morenos e mulatos que viviam ao redor do largo da Igreja de São Sebastião, Nossa Senhora do Rosário e Divino Espírito Santo.

Uma igreja para três santos. Onde os homens ficam nos bancos à esquerda do altar e elas, à direita. Dona Adalcina Pinto de Belém, 61 anos, diz que desde que ela se entende por gente é assim. A mulher de cabelos negros, pele morena e inesperados olhos azuis limpava o cálice e o ostensório, ambos de prata, na tarde quente e abafada. Adalcina herdou da mãe a tarefa. E se casou há 35 anos com um amigo de infância.

Ela guarda também o andor e a bandeira da Caçada da Rainha, festa religiosa que ocorre todo mês de julho, desde que todos ali se entendem por gente. De bem antes, na verdade. A caçada é tradicional no nordeste de Goiás, região de portas abertas para a imigração de baianos e de escravos ao longo dos dois últimos séculos. A festa é um tributo à Princesa Isabel pela Lei Áurea.

O espetáculo consiste em procurar a “rainha” que se escondeu no mato com medo de o pai, Dom Pedro II, lhe punir por ter posto fim à escravidão no Brasil. O cavaleiro que encontra a moça no cerrado a leva à cidade, onde é recebida por uma multidão.

Um lugar que virou filme

Depois que conheceram a zoada do aeroplano, se espantaram com o caminhão, viram o carro, a tevê e o celular, os moradores do Forte descobriram que eles têm uma história para contar e que ela interessa ao mundo lá fora. Muitos deles guardam em casa, como um bem precioso, um documentário gravado em DVD, Um lugar chamado Forte, resultado de um trabalho de final de curso de jornalismo de duas alunas do Unicesp.

Loiane Ribeiro e Gisele Neves encontraram muito mais do que esperavam. Entre os documentos maltratados e carcomidos que estão no Cartório do 1º Ofício de São João d’Aliança, há uma carta de alforria (texto ao lado) de 20 de janeiro de 1862. Foi nesse ano que a Vila do Forte foi oficialmente criada, segundo pesquisa de Raquel Lopes Caribé Grando e Anna Izabel Costa Barbosa, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB.

“Aqui tinha prefeito, cartório, coletor, promotor, tabelião, escrivão, professoras, agência do Correio. Acabou tudo”, conta Vitezino Pereira, seu Vité, no documentário. (Seu Vité mora hoje em Formosa, Goiás). Nem tudo, seu Vité. O Forte mantém uma ponte intangível com seu longo e rico passado e ela está guardada na memória dos mais antigos.

Seu Leão e seu Vité são os dois mais preciosos baús de histórias que a tradição oral passou de pai para filho ao longo do tempo. Uma das que seu Leão mais gosta de contar, sentado no longo tronco de madeira que serve de banco na porta da casa, é a do sumiço do carteiro.

Foi assim: o carteiro saiu do Forte para levar cartas em Flores, cidade vizinha. Ia a cavalo com sua matula de comida e a sacola de cartas. Saiu, mas não chegou. Nem lá nem cá. Durante dias, os moradores fizeram e refizeram a trilha por onde o carteiro deveria passar e nenhum indício dele. Só o cavalo reapareceu numa fazenda próxima.

Até que um vaqueiro, casualmente, encontrou a matula e a sacola à beira do Piripiri. A marmita bem à margem, quase tocando a água do córrego. Donde todos deduziram o que para eles é certo como o nascer do sol do outro lado da serra: uma sucuri havia engolido o carteiro quando ele se agachou para tomar água ou lavar as mãos ou sabe-se lá o quê. Seu Leão mesmo já viu sucuri de cinco metros com um bezerro no bucho. E todos por ali sabiam que ela andava comendo o gado das redondezas. Se comia boi…

Faz tempo que a sucuri esfomeada sumiu. Também já não se vê mais, na quantidade de antes, a onça, o lobo guará, a anta. Mas basta passar pela estrada a qualquer hora do dia que o viajante cruza com siriemas, iraras, tucanos, veados. Durante a semana, quase não se cruza com gente. A maioria está na roça, ganhando o trocado de cada dia. Isso, dos que não foram embora. Muitos dos filhos do Forte saem do povoado antes da adolescência para terminar os estudos e procurar um outro modo de vida. Só voltam nas férias e na Caçada da Rainha.

Os que ficam padecem de abandono. A escola, de ensino fundamental, tem quatro salas de aula e uma improvisada na varanda. Antes de começar a aula , as crianças rezam o “santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me ilumine, amém”. Muitos são dos assentamentos próximos.

Taís Souza Silva, de 13 anos, e Lucileide Teles Nunes, 15 anos, são nascidas no Forte. Taís é branca, nunca namorou nem ficou, mas já aprendeu o que é ficar. Lucileide é negra, tem namorado. As duas querem sair do Forte, fazer faculdade, se casar e ter filhos. Elas sabem vagamente a história da terra onde nasceram.

“Tem um negócio no fundo do quintal, de pedra, parece que eram os escravos que faziam”, diz Taís, docemente envergonhada.

O Forte tem posto de saúde, mas o médico só vai uma vez por mês. Transporte só um caminhão pau-de-arara que leva os moradores a São João d’Aliança, toda primeira terça-feira do mês, e traz no mesmo dia. V

ão amontoados e espreitam os abismos da serra morrendo de medo. O subprefeito do povoado, Elísio Pereira dos Santos, 54 anos, diz que “de caminhão, o risco é menor”. E que São João d’Aliança é a única prefeitura da região que oferece transporte gratuito a moradores, e que o fato já foi motivo de interpelação por parte do Ministério Público.

 
 

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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