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Raduan Nassar: O maior de todos

Raduan Nassar: O maior de todos – Esse texto nos conta sobre o Pindorama – a Terra das Palmeiras – O Brasil. Pindorama, palavra sonora, que lembra poesia. É também o nome da cidade do escritor Raduan Nassar, nome maior de nossa literatura contemporânea. 

Por Jaime Sautchuk

Pindorama, na linguagem de indígenas dos Andes peruanos, quer dizer “terra das palmeiras” e é como eles se referem ao Brasil. Inspirado nisso, o poeta maranhense Gonçalves Dias escreveu “Canção do Exílio”, sua obra-prima, que a gente decorava e declamava na escola, e abre com esta estrofe:

Minha terra tem palmeiras                                                                                       

Onde canta o Sabiá                                                                        

As aves, que aqui gorjeiam,                                        

Não gorjeiam como lá.

Pindorama é uma palavra sonora, que lembra poesia. Mas é, também, o nome de uma pequena e encantadora cidade do Oeste de São Paulo, onde nasceu e passou a infância o escritor Raduan Nassar – maior nome da literatura contemporânea em solo auriverde. De carreira meteórica, trocada há 30 anos pela de agropecuarista, ele acaba de doar sua fazenda e outros bens, no município de Buri, à Universidade Federal de São Carlos.

Sua obra completa se resume a dois romances (Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera), publicados em 1975 e em 1978, e umas parcas dezenas de contos, publicados esparsamente nesse período. Isso é pouco, mas é muito, pois são obras que revelam um estilo próprio, muito forte, e uma narrativa intrigante, com extremo cuidado no manejo da Língua Portuguesa.

Ele começou a escrever aos 40 anos e, cinco anos depois, já famoso e publicado em muitas línguas, no mundo inteiro, ele concedeu uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo e anunciou que iria largar a Literatura e mudar de atividade. Evitou dar muitas explicações sobre suas razões, dizendo que passava a se preocupar com máquinas agrícolas, implementos, sementes e essas coisas. E, por nosso azar, cumpriu a promessa.

Com muitas referências bíblicas e religiosas que enriquecem sua construção, Lavoura Arcaica trata do profano e do sagrado como opostos e complementares. Embora o ato de retornar seja fundamental na história original do filho pródigo, no romance ele já representa um elemento de subversão da parábola pela forma com que é abordado. O rompimento com os moldes da história bíblica se faz presente desde o início pela linguagem criada por Nassar para o relato de André.

Narrado em primeira pessoa, o livro adota um idioma próprio, muito além da linguagem poética já conhecida, contendo nela própria a rebeldia do filho fugitivo. Mais do que pelos quilométricos períodos e pela inusitada pontuação, a expressão adotada pelo personagem André destoa da simplicidade sempre estimada por seus familiares através do ajeitado desordenamento que nela imprime traços de requinte formal

Muitos fatores ajudaram na divulgação da obra, inclusive o cinema. Falo da magistral adaptação cinematográfica do livro, dirigida por Luiz Fernando Carvalho em 2001, inspirada nos princípios barrocos de proporção e da contraposição escuridão/luz para reproduzir no filme os contrastes tão importantes em Lavoura Arcaica. Em certa medida, o romance de Nassar é uma confissão sincera – e não necessariamente arrependida – e blasfemadora de André, a ovelha que se revolta contra a onipotência de um deus, que lembra seu pai sentado à mesa nas refeições. 

VIDA INTENSA

Raduan Nassar nasceu em 22 de dezembro de 1935. Era o sétimo filho do casal de imigrantes libaneses João Nassar e Chafika Cassis. Seus pais haviam se casado em 1919, numa pequena aldeia do sul do Líbano e em 1920 emigraram para o Brasil. Seu pai se junta a parentes que já estavam aqui e se inicia no ramo do comércio, em várias localidades, até que, em 1923, foram  morar em Pindorama e lá seu pai abre uma venda, que posteriormente seria transformada em uma loja de tecidos, a Casa Nassar.

Em 1943, Raduan ingressou no Grupo Escolar de Pindorama. Expansivo e de ótima memória, ele era frequentemente chamado a recitar poesias nas datas comemorativas, mesmo com sua dificuldade em pronunciar corretamente o “r” fraco. Segundo ele, neste ano tem “uma das melhores alegrias da infância” de que se lembra, ao ganhar um casal de galinhas-de-angola do pai.

Tornou-se coroinha em 1946, após dois anos do início de sua fase de fervor religioso que o levava a ir à missa todos os dias, pra comungar. Nesse ano, sentado na varanda de sua casa, livra-se definitivamente do “trauma” do “r” fraco, ao tentar decorar o Hino à Bandeira (cantando inúmeras vezes o verso “Salve lindo pendão da esperança”).

Ficou doente novamente, mas no ano seguinte reinicia o curso ginasial na vizinha cidade de Catanduva e começa a trabalhar com o pai na loja, durante o dia, e indo à escola à noite. Lá, tinha como professora de português sua irmã Rosa e, orientado por ela, começa a ler clássicos brasileiros como parte do currículo escolar. Com sua assistência também, faz consideráveis progressos no aprendizado da língua, em casa.

Com loja na capital, Raduan segue ao lado do pai durante o dia e, em 1955, ingressa na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP),  Nesses dois cursos,  conhece quatro outros estudantes que tinham projetos literários e forma com eles um grupo de estudos que se reunia uma vez por semana, pra debater literatura.

No ano de 1958, Raduan praticamente interrompe o curso de Filosofia, restringindo sua frequência a uma única disciplina (Sociologia). No ano seguinte, decidido a se dedicar integralmente à literatura, abandona o curso de Direito (estava no último ano) e atende só com trabalhos ao curso de Estética na Faculdade de Filosofia. Nesse período, deu uma volta pelo Canadá e Estados Unidos, mas voltou ao Brasil e concluiu o curso de Filosofia. Recusou vaga de professor na USP de São José do Rio Preto após o golpe militar de 1964.

Em mutação constante, em 1967 fundou, com os amigos do grupo de estudos, o semanário Jornal do Bairro, iniciando sua carreira no jornalismo. Apesar de regional, o jornal dedicava parte de seu espaço a textos referentes à política nacional e internacional, e chegou a tiragens de 160 mil exemplares.

Passou a participar da leitura comentada que a família fazia do Novo Testamento. Ao mesmo tempo, retomou as leituras do Velho Testamento e do Alcorão (esta iniciada em 1968). Em 1973 conheceu a professora Heidrun Bruckner, do Departamento de Línguas Germânicas da USP, que viria a se tornar sua mulher. Em 1975, com a ajuda financeira do autor, a José Olympio publicou Lavoura Arcaica.

No governo de Dilma Rousseff, em maio de 2016, o júri do Prêmio Camões, dos governos do Brasil e de Portugal, tido como o mais importante prêmio literário da língua portuguesa, escolheu Raduan Nassar. Em fevereiro de 2017, durante a cerimônia de entrega do prêmio, o escritor agradeceu a Portugal e, em seguida, fez de sua fala um libelo contra o governo golpista de Michel Temer, acusando-o de repressor – “contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim” e de ser “atrelado ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro”.

Em resposta, o então ministro da Cultura do Brasil, Roberto Freire, abandonou o discurso preparado e rebateu as críticas do escritor, ao som de gritos de “fora, Temer”. Raduan foi defendido por outros escritores presentes.

Jaime Sautchuk – Escritor, jornalista e editor da Revista Xapuri.


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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