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Restauração do Cerrado: é preciso sonhar acordado

Restauração do Cerrado: é preciso sonhar acordado

Depois de um longo tempo de estudo e observação pelo Planalto Central do Brasil, percorrendo o território de leste a oeste e de norte a sul, certo dia, direto do coração do Cerrado, afirmei, em uma longa entrevista, que o Cerrado já está extinto na plenitude de sua biodiversidade. 

Por Altair Sales Barbosa

Essa afirmação resultou de mais de 40 anos de pesquisas neste Sistema Biogeográfico, denominação hoje utilizada pela Biogeografia e que deriva do aprendizado e das observações que fiz, juntamente com inúmeros pesquisadores que passaram pela minha vida e me fizeram entender que essa matriz ambiental é detentora de uma história evolutiva “sui generis”. 

Trata-se um Sistema composto por diversos subsistemas e microambientes intimamente interligados, razão por que uma modificação em qualquer um desses subsistemas e microambientes provoca modificação no Sistema como um todo, do quadro da vegetação a todos os elementos que compõem um ecossistema, tanto natural quanto artificial. 

Quando me refiro aos ecossistemas naturais, destaco também o oligotrofismo do solo do Cerrado, o fogo, os fenômenos atmosféricos de modo geral, as formas de relevo, as águas superficiais e subterrâneas, as biogeoestruturas, a atmosfera, a litosfera, a hidrosfera e a biosfera. 

Refiro-me também ao Entorno, com seus variados matizes, caracterizados por regimes climáticos, relevo e outros elementos peculiares, e também aos Sistemas Externos Incidentes, com a influência do Universo como um todo e, especificamente, do Sol, que emana para a Terra forças energéticas extraordinárias.  

Quando me refiro aos ecossistemas artificiais, estou salientando as cidades, as metrópoles, as rodovias, as ferrovias, os campos de cultivo, as represas e todas as grandes obras impactantes realizadas pelo homem.

Todavia, num dado momento, um estalo clareou a minha mente e, tentando duvidar da minha própria afirmação, de que o Cerrado se encontra extinto, saí em busca de respostas, como faz qualquer inquieto pesquisador. 

Reavaliando em detalhes as teorias científicas, bem como suas premissas básicas, os modelos de economia, as ações governamentais e seus recheados relatórios, como também as atividades e comportamento das populações ditas conscientes, percorri centímetro por centímetro os chapadões centrais da América do Sul e, com olhos aguçados, reparei nos detalhes, tanto os microscópicos, visíveis somente aos pesquisadores, quanto os macroscópicos, visíveis por muitos. 

Conversei com professores indígenas, com ribeirinhos e outros habitantes tradicionais, bebendo dessa fonte, sempre na ânsia de encontrar uma resposta satisfatória, que pudesse contradizer minhas afirmações. Mergulhei na vasta literatura existente, com a preocupação inicial de negar ou reforçar minhas afirmações.

Quisera eu demonstrar que o argumento da temporalidade e da irreversibilidade que alicerçava minha argumentação estava equivocado e que, por isso, o Cerrado, pelo menos enquanto vegetação, poderia perfeitamente se regenerar de onde havia se extinguido. 

Mas a descoberta das leis do não equilíbrio e dos rumos que tomaram a nova evolução da dinâmica clássica, que vem demonstrando o caráter imprevisível do desenvolvimento da ciência, fez renascer ou ressurgir com clareza o papel do tempo. 

A descoberta das leis do não equilíbrio me fez perceber, tanto a nível microscópico quanto a nível macroscópico, que a predição do futuro mistura determinismo e probabilidade e que a irreversibilidade só é destrutiva para os modelos de ações que a criaram.  Na seta de um tempo maior, ela pode trazer novas configurações e até novas ordens.

RESTOS DE GUERRA

O período compreendido entre o final da segunda guerra mundial e a década de 1970 já pode ser considerado o período em que a humanidade alcançou o apogeu, no sentido de transformar restos de guerra em insumos para produção.

Para que isso pudesse se transformar em realidade, o grande capital se uniu e houve investimento em massa apenas em uma perna da ciência, aquela que busca a produção. A perna da preservação foi ignorada ou por falta de conhecimento ou talvez por conveniência. 

Países foram eleitos como cobaias para as novas experiências científicas, que buscavam aumentar a produtividade, principalmente na área da agricultura e pecuária. Centros de excelência científica foram montados nesses países, incluindo no México, Sri Lanka e Brasil, e, com base na seleção de pessoal capacitado e muito investimento em infraestrutura, os resultados salpicaram de imediato, feito milho de pipoca estourando na gordura quente.

Foram criadas tecnologias para transformar o solo oligotrófico do Cerrado em solo altamente produtivo para muitas espécies de vegetais exóticas. Com as sobras de insumos químicos, criaram venenos poderosos para combater as pragas, tanto vegetais como animais, que as novas plantas traziam. Surgiram herbicidas fungicidas e inseticidas eficazes.

E, no dizer do mestre Milton Santos, no Brasil direcionaram suas vistas, num primeiro momento, para as terras abençoadas ou lugares iluminados, representados pelos chapadões, campinas e interflúvios, situados no Cerrado.

TIRO CERTEIRO 

Escolhido o alvo inicial, era preciso o tiro certeiro. E assim, imediatamente, investiu-se na criação de uma tecnologia que colocasse por terra as plantas existentes nos locais. Os criadores de tais insumos tecnológicos não estudaram sistematicamente o ambiente, desconheciam as   funções ecológicas das plantas que ali estavam, tampouco buscaram um conhecimento mais profundo dos processos evolutivos do Cerrado. 

Por isso, nem de longe imaginavam que aquelas ações, carentes de um conhecimento sistêmico, eram apenas o início de uma transformação ambiental sem precedentes que, paulatinamente, colocou em entropia os elementos ambientais de modo geral, atmosféricos, litosféricos, hidrosféricos, bióticos e culturais, não só em termos de dinâmica, mas também de termodinâmica, cujo processo cumulativo, em poucos anos, é capaz de se manifestar globalmente.

Inicialmente instalaram-se em formas de empresas agrícolas, depois em complexos agroindustriais. Os agentes nacionais aliados funcionaram e ainda funcionam como cabeça de pontes do grande complexo multinacional interessado nos monocultivos para exportação. Para produzirem passam a contar com a carteira creditícia do Banco do Brasil para obtenção de financiamento.

Em suma, o próprio capital externo emprestado ao governo brasileiro, que deveria ser utilizado para desenvolver a agropecuária de base nacional, retorna ao seu primitivo dono acrescido de juros, taxas e correção monetária ao ser direcionado para financiar parte dos investimentos locados na cadeia produtiva da grande empresa multinacional. O exemplo mais claro é o avanço da soja sobre os chapadões do Cerrado, em virtude do fácil manejo desses terrenos, da fartura de água e das novas tecnologias desenvolvidas.

A partir da anexação do campo à economia de mercado, implementada de forma agressiva e acelerada, tem-se a destruição da unidade familiar camponesa pela grande empresa monocultora, na medida em que essa última, ao se instalar no território regional preferido, necessita cada vez mais de terras para incrementar a produção e expandir os monocultivos e criatórios, incentivos destinados ao abastecimento do mercado nacional e externo.

Consequentemente, para os nacionais que persistem pelo trabalho em permanecer livres na própria terra, ocorre a contínua e progressiva redução dos espaços habitados e habitáveis.

Nos anos subsequentes, no meio rural e regional do Cerrado, foram-se avolumando as situações conflitivas entre as forças produtivas dominantes e as relações de produção dominadas pelos pequenos e médios proprietários e trabalhadores rurais. 

As contradições surgidas entre agentes da velha estrutura fundiária nacional e os da nova estrutura emergente, aqueles que detêm a força do capital financeiro, tornaram-se cada vez mais antagônicas e desiguais, a ponto de romper, em questão de alguns anos, o lado mais fraco da cadeia produtiva. 

Desestabiliza-se a tradicional estrutura agrária brasileira, carente de suporte de capitais, de assistência técnica e de políticas públicas que garantam empréstimos e preços competitivos aos seus produtos.  

De posse das novas tecnologias, os grandes proprietários rurais expandiram suas plantações para diversos subsistemas do Cerrado, como o cerrado stricto sensu, cerradão, as veredas e os cerrados existentes nas mesetas dos interflúvios, que são aqueles espaços que separam as micro bacias hidrográficas. 

E assim, dessa forma, alcançaram todo o Cerrado, criando infraestrutura de suporte para o escoamento, vários pontos urbanos novos surgiram e as comunidades que viviam dos sistemas agrícolas tradicionais foram ou estão sendo totalmente desestruturadas. 

Também a venda e a partilha de heranças ocasionaram acelerada fragmentação da propriedade do produtor nacional, acompanhada de rápida desestabilização do seu “modo de vida”.

Em contrapartida, a compra induzida e efetivada a favor de empresários e empresas conduziu à concentração da propriedade da terra nas mãos dos magnatas do capital. Essas transações, com os seus respectivos desdobramentos econômicos e sociais, contribuíram para a perda da estabilidade do trabalhador rural brasileiro, juntamente com a sua família, nos moldes dos seus padrões de vivência campesina. 

A progressiva desestabilização do seu “modus vivendi” econômico, social e cultural terminou por expulsá-lo do meio onde vivia na condição de pequeno ou médio proprietário ou de trabalhador agregado como meeiro, posseiro, tarefeiro, diarista etc. Rapidamente, ocorreu a queda de sua vivência coletiva uno-familiar, obrigando-o a ser um itinerante-peregrino, boia-fria, a perambular pelas estradas do Brasil à procura de terra e trabalho, terminando o seu percurso migratório como mão de obra explorada nas médias e grandes cidades brasileiras, lugares onde a vida é totalmente monetária, onde tudo se compra e tudo se paga. 

Nelas, na maioria das vezes, passa a viver como marginalizado social, na condição de subempregado ou de assalariado urbano ou de desempregado. Nessa última condição, faz parte do contingente de reserva de mão-de-obra barata a ser utilizada, no amanhã, no momento em que se fizer necessário. Muitos, para se manter no plano existencial, procuram se incorporar à economia informal, como única opção de sobrevivência no meio citadino. Continua na próxima edição…

Altair Sales Barbosa Arqueólogo. Antropólogo. Sócio-Titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Pesquisador do CNPq. Conselheiro da Revista Xapuri desde dezembro de 2014. Pesquisador convidado da Universidade Evangélica de Goiás. Por limitação de espaço, esta matéria, excepcionalmente, será publicada em duas partes, nos meses de novembro e dezembro de 2023. Foto: José Cícero/Agência Pública.

Divulgação / Rosario Xavier / Pixabay
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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