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Saulo, um viajeiro em duas rodas

Saulo, um viajeiro em duas rodas

Saulo, um viajeiro em duas rodas conta a história de viagens e aventuras do formosense Saulo Corrêa dos Santos, rodando o mundo de bicicleta 

Por Iêda Vilas-Bôas

– Conhecer o mundo é meu sonho e destino!

É assim que começa minha conversa com Saulo Corrêa Dos Santos, formosente, nosso ciclista maior, não por ganhar prêmios, mas por percorrer grande parte do mundo sobre sua bicicleta, levando por onde vai e chega uma valorosa mensagem de ambiental, de amor ao ser humano e respeito com tudo que o cerca.

Saulo decidiu sair pedalando por influência de um filme que assistiu, quando ainda criança. Destaque para sua fala, que traduz sua filosofia de vida:

Sobre duas rodas vou colecionando minhas histórias e compartilhando o que vejo e aprendo. É de bicicleta que vou descobrindo o mundo.

O corajoso rapaz sai em pedaladas, muitas vezes sem patrocínio, mas nada o desmotiva a rodar. Segue sem carro, sem poluir o e com muita emoção. Saulo prefere viver desse jeito livre porque diz que no final da vida só levará com ele valores, virtudes e sabedoria, mais nada.

Esse desapego demonstra sua evolução espiritual. Pedalar lhe dá a sensação de ser um balão ao vento: “Sinto o ar e o fogo me fazendo em chama e voo”.

O viageiro consegue pelo caminho feito com pedaladas acompanhar as mudanças das cidades e do mundo e vai fazendo suas considerações:

– Aprendi pedalando, sobretudo, a dominar meus demônios maiores e meu ego.

Saulo admira a filosofia japonesa e procura seguir seus ensinamentos: kaizen – uma melhoria contínua: o hoje melhor que ontem, o amanhã melhor que hoje.

O jovem Saulo dá sempre o seu melhor em todos os projetos que abraça e espera sempre muito dele próprio. Em seu coração só tem espaço para as coisas leves da vida. Ele ama conhecer pessoas comuns, filósofos. Saiu para aprender e tem aprendido muito.

Aprendeu sobre as gentes, suas culturas, seus saberes, sobre a relação das pessoas com o meio ambiente, com a natureza. Aprende e também ensina o que aprendeu com as valorosas pessoas que encontra pelo caminho. O lema de Saulo é: Eu faço minhas escolhas e elas fazem o meu caminho.

Na sua bagagem vai somente o necessário. Sempre descarta o peso extra deixando a carga mais simples, mais leve. Dessa forma a vida fica mais simples, e a simplicidade, para ele, é sinônimo de felicidade, de uma vida mais próxima da natureza, de uma alimentação mais saudável, de maior contato com a terra, com o chão, com a vida em si.

O viageiro formosense aprendeu e constatou que machucamos a natureza e estamos sem imunidade. Sente necessidade de fazer seu papel no mundo ajudando no equilíbrio entre o ser humano, a natureza e o .

O ciclista escolhe um norte e vai pedalando. Faz do seu norte sua meta, seu objetivo e sua estratégia. Assim, por onde passa, leva o melhor que pode apreender nas ideias e conversas trocadas e também deixa seu rastro. Observa, em especial, o bicho-gente, que é um campo enorme de pesquisa.

Outra coisa que Saulo gosta de observar são as construções. Acha lindo o casario e repara bem nos detalhes. Lamenta que o mundo corrido e moderno esteja relativizando as obras. Tudo quadrado, plano. E a beleza arquitetônica? E o valor da arte? Esse é um ponto para reflexão:

Hoje a arquitetura perdeu a alma. Os pequenos detalhes tornam os ambientes mais belos. A beleza está no mínimo. Precisamos dar vida ao que nos rodeia. Eu vi casas simples de madeira com um jardim lindo. A complexidade presente nesta engenharia da vida me deixa maravilhado e perplexo.

Riqueza, para mim, é poder viver estas experiências. Precisamos cuidar e respeitar tudo que temos, os animais, as plantas, as construções. A beleza nos convida a despertar a nossa beleza interna.

As lindezas que vejo vão se internalizando em mim e me transformam em uma pessoa melhor, mais integra, mais amável e mais feliz. A sociedade é um espelho onde me reconheço. Vivo e sinto um constante espaço de renovação interior.

O Saulo pretende conseguir realizar seus projetos pessoais: é músico e compositor e suas ideias e observações estão se transformando em um livro que já tem nome: Dois procurando um. Para explicar o título de seu livro, o viageiro me disse:

Vivemos num mundo dual com altos e baixos, aclives e declives, vazios e cheios, quente e frio… Sempre temos dois lados e vamos buscando a unidade. As partes compondo o todo que se torna uno. No todo cabe tudo. Aí, destaco o respeito às diferenças. A estrada é comprida e grande e eu sigo certeiro de que após cada meta atingida, assumo outro propósito e vou firme na certeza de vencer. Melhorando continuamente.

Ele pretende voltar para -Goiás. Entende que não pode guardar essa rica experiência para si.  Quer contribuir com sua cidade, quer plantar, distribuir seu conhecimento adquirido em vários países, de diversas culturas. Traz as mãos cheias de sementes. Essa volta também será uma estrada de (re)conhecimento.

Este é o viageiro formosense que vai pedalando e circulando energias: rodando a roda do viver. Sem pressa – uma pedalada depois da outra, saboreando cada detalhe de sua viagem.

Iêda Vilas-Bôas – Escritora

Nota: Este texto foi sugerido pelo publicitário e jornalista Elias Lopes, do portal focala.com.br


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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