SOBRE A ARTE INDÍGENA CONTEMPORÂNEA

Sobre a arte indígena contemporânea 

Jaider Esbell 

Num primeiro olhar, surgem questões básicas: de onde vem? quem é? quem faz? o que faz o artista indígena contemporâneo? os artistas, as artistas? por quê? o que difere? por onde anda a arte indígena contemporânea? é arte? é arte indígena? é arte indígena contemporânea? é arte contemporânea indígena? Onde é o próximo encontro?

O próximo eu não sei, provavelmente em mais uma live, nestes tempos de pandemia. O que temos pra hoje são conversas com o artista wapichana, Gustavo caboco, neste encontro proposto pela agência escola, da UFPR, no “Movimento Conexão: Culturas Compartilhadas”.

Para começo de conversa, precisamos pontuar que esta ideia da AIC, este conceito-sistema, é proposto e nomeado pelo artista do povo Macuxi, Jaider Esbell. Pelo menos é de onde ouvi a primeira vez (me corrijam pesquisadores, por favor!). Depois, ouvi a boca de muitos outros, o Baniwa, a Terena, a Tukano, a Pataxó, o Huni Kuin, e minha boca começou a falar também, arte-indígena-contemporânea-arte-indígena contemporânea-arte-indígena-contemporânea.

A boca já falava. Entendo esta ideia como um lugar, um ponto de encontro entre nós, parentes de vários povos, a ciência acadêmica, os museus, o sistema da arte contemporânea, os centros culturais, galerias de arte indígena, museus nativos, a literatura, o cinema, a roça, a casa da  tia, da vovó, e tantos outros campos. 

Mais que isso, um ponto de articulação e caminhos da autonomia: a nossa sobrevivência. Na minha visão, crio a arte-ponte Paraná-Roraima que conecta nossas histórias, cruzamentos, deslocamentos. Roraima-Roraimã. Se em dado momento (1975), inauguraram a ponte dos Macuxi, que atravessa o rio Branco e liga a cidade de Boa Vista com outros municípios (Cantá, Bonfin, Normandia) onde há diversas terras indígenas e vai até a Guiana, foi em outro tempo, antes desta ponte, em 1968 que um projeto de ponte dos Wapichana se iniciou com a doação de uma criança indígena.

É nesta travessia que eu trabalho, interagindo com os meus parentes, a comunidade onde está nossa família, os artistas indígenas destes dois estados e também os que eu encontro no meio desse caminho, e muito temos a colaborar. A ponte Wapichana foi construída pela nossa nossa família.

Nessa ponte, na Macuxi e na Wapichana, já fui parado muitas vezes e questionado sobre ser índio de verdade? Veracidade, legitimidade. Apontação de dedos: “Sua história é de mentira”. “Você não é índio não, você come macarrão”. Na ponte dos Macuxis, em 2019, a polícia me interceptou enquanto eu dirigia um carro, fez bafômetro, eu e meus parentes Wapichana demos risada, estava tudo bem. Na ocasião, estávamos indo para um Parichara, na formatura de uma turma de estudantes indígenas.

Brincamos com a situação para não nos sentirmos constrangidos com a abordagem. Na ponte Wapichana, atravesso o marco de 33 anos de história para a sua inauguração (2001), quando re-encontramos nossos parentes. Leia-se: quando minha mãe re-encontrou minha avó, depois de três décadas. O fato é, que a arte indígena contemporânea, possibilita o trânsito nesta ponte, na ponte Wapichana.

Foi por essa via também que eu e jaider esbell botamos de pé uma exposição no MUSA-UFPR, chamada Netos de Makunaimî. Encontros Makuchana, povos Makuxi e Wapixana trabalhando juntos, re-atualizando todo o histórico de conflitos entre estes povos de Roraima. Plantando sementes de Wazaká.

A ideia Makuchana já havia sido anunciada pela avó da minha mãe, antes mesmo de iniciar o tal projeto da ponte Wapichana. Não foi profecia, foi observação e consciência do seu lugar, nossa história, entendimento do contexto político nos anos 60 e das relações daquele tempo. No tempo de hoje, muitos netos makuchana estão por aí representando nossas cosmologias e o vovô Makunaimî. Acredito que há espaço para todos nós, e muitos outros parentes, nessa história. Cabem todos os netos e primos no abraço do vovô e da vovó, e as responsabilidades que o abraço implica.

Os choques de realidade são necessários neste trânsito Paraná-Roraima. Entender a história desta ponte é importante para observar os campos que ela conecta. Entender, por exemplo, que ela atravessa também a BR174 para conectar Boa Vista à Manaus. BR cheia de memória, quando percebemos o cruzamento com o caminho dos Waimiri-Atroari, aqueles que são sobreviventes de um extremo massacre e genocídio nos anos 70. Mesmo olhando da janelinha do ônibus, da janelinha do celular na live, ou plantando bananeira nessa via, essa história está ali marcada. O trânsito da ponte Wapichana nesta via, também.

Aprender sobre a ponte Wapichana é entender que ela é gente, ponte-gente, que minha mãe construiu com sua história de vida, no deslocamento do seu corpo Wapichana. Um deslocamento colonial-afetuoso. Entender que esta nossa história e minha mãe são sobreviventes. Sobreviventes de um povo e um lugar. Muita gente já morreu na construção de estradas, perdeu sua memória, muita gente indígena morre em BRs, com ataques, atropelamentos. As rodovias e pontes são estratégicas nos projetos de genocídio e apagamento da história.

Em nosso caso, a história vive. perdura. Por isso falo para os meus parentes que só o fato de conversamos, já estamos fazendo arte, criando. Criando mundos, possibilidades de existência indígena Wapichana e a troca de saberes com outros povos e isto não é ficção, metáfora. É realidade e arte indígena contemporânea.

Do mesmo modo que nossos parentes criaram marcos na história da academia: seja com Coudreau, Farage, Sirino, Grunberg e tantos outros. Pouco nos devolvem, presencialmente. São sábios, mas não sabiás, que cantam livremente. Por isso fazemos arte, por quê atravessamos a ponte da ciência acadêmica, nos alimentamos dela também. Colaboramos, mas temos, felizmente, a ponte dos Wapichana, a ponte com o povo Macuxi, e a possibilidade de nos encontrarmos dentro do sistema da arte indígena contemporânea e suas particularidades. As nossas particularidades.

Estamos na década da arte indígena contemporânea, que será celebrada, festejada, ritualizada em 2028, com o marco do centenário da obra de Mário de Andrade. Jaider Macuxi iniciou essa série de lançamentos em Roraima, depois veio até Curitiba e fizemos o lançamento juntos, com Lucilene Wapichana, Ana Elisa, Paula Berbert, e continuou os anúncios na Rádio Yandê, juntamente com Denilson Baniwa, Naine Terena e Daiara Tukano. O pássaro do bico preto e todo o público que estava interagindo neste bom papo-fogueira-virtual durante as ações do abril indígena 2020, sabe. A nossa quarentena lembra. 

Aproveito esta ocasião pra dizer: vamos trabalhar parente Wapichana. São muitas as pontes, muito trabalho a ser feito, trabalho de formiguinha. Seguimos nessa picada, entendendo quando mato é mato, gente é gente, respeitando o tempo e o espaço de cada um. Nos unamos e vamos trabalhar coletivamente, fazendo ajuri, caminhando, cantando, desenhando, conversando, falando. Boca boca boca boca boca boca do antepassado, antepresente, do presente, boca boca boca boca. Continuemos falando, não apagarão nossa memória.

Foto: Paula Berbert em mais um crime contra as árvores vovós do Paraná!

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MULHERES INDÍGENAS: DIVERSOS OLHARES, MUITOS PAPÉIS

Observando a imagem que a revista Xapuri selecionou para ilustrar uma crônica minha, não deixei de perceber a beleza e a força que ela emanava. A imagem era uma fotografia, de Eliane Fernandes,  que mostrava duas indígenas Ashaninka, entre elas a agente de saúde Dora Piyanko Ashaninka.

Por Jairo Lima

Isso me fez pensar nessa figura, “mulher indígena”, na contemporaneidade indígena do Aquiry e o assim chamado “papel” que ocupa em sua comunidade e nos processos de interações e interlocução social com o mundo do Yura.

É muito comum que, ao ouvirmos falar da mulher indígena, somente façamos a ligação mental com os afazeres ditos “femininos” em uma aldeia, como cuidar dos filhos, preparar alimentos, cuidar da casa. Visão enganosa que podemos comparar com a ideia tradicional e conservadora de nossa sociedade, que ainda insiste no termo cafona e limitante do papel da mulher, enquadrando-a tão somente como “do lar”.

– Só que não, cara pálida!

Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis
Mãe Kaxinawa – Foto: Nicole Algrantti

O assim chamado “universo feminino indígena” é muito amplo, e sem o qual, o que conhecemos como cultura indígena não teria a riqueza e profundidade que estamos acostumados a ver. Foi para as mulheres que a sagrada jiboia Yube ensinou os mistérios e os segredos dos kene e dos mitos do seu povo Huni Kuin. O povo Puyanawa não teria a técnica da pesca tradicional se não fosse graças a uma mulher.

O feminino em tudo se faz presente na cultura indígena e isso fica claríssimo quando analisamos a expressão máxima do sagrado indígena: ayahuasca. Resultado mágico da união da força do cipó com os encantos da folha. E aí que se mostra a força feminina que, representada pela folha, é responsável por revelar os mistérios sagrados da cultura ancestral e dos caminhos espirituais que oyuxin deve seguir.

As chamadas “artes indígenas” são impregnadas do saber e da energia tradicional

Eu, como me considero extremamente espiritualizado e dou muito valor às simbologias, faço questão de só usar kene kuin.feminina, emanadas a partir de sua manifestação física. Por exemplo, as famosas e populares pulseiras e colares Huni Kuin (Kaxinawá) feitas de miçangas possuem uma peculiaridade interessante, quando feitas por uma mulher são chamados kene kuin(desenho verdadeiro) e que traz uma energia especial e verdadeira dos ancestrais.

Quando feitas por homens, são conhecidos como dami (desenho qualquer, coisa, etc), que são bonitos e são da cultura, mas não tem a energia espiritual e sagrada dos ancestrais. Vale citar que outros povos indígenas locais tem, de modo geral, a mesma regra.

E o que dizer das pinturas corporais? Lindas e cheias de simbologias.

Tive inúmeras oportunidades de ter meu corpo pintado de desenhos tradicionais por mulheres de diferentes povos, e testifico que este é um processo único que vai nos remetendo, a cada traçado pintado em nossa pele, às origens e logos universais, bem como à nossa união com a força da natureza, com a qual convivemos enquanto viventes e com a qual nos harmonizaremos quando sob esta formos sepultados.

Uma prática que vem sendo recuperada nas aldeias é o da parteira tradicional. Figura importante e que liga a criança à tradição de seu povo logo ao nascer.

Os movimentos de fortalecimento ou recuperação da cultura tradicional seriam incipientes, se não contasse com o engajamento delas. Temos vários exemplos deste engajamento, espalhados pelas aldeias do Juruá. Um que acompanho de perto é o lindo trabalho desenvolvido pela Vari Puyanawa que, em breve, estará publicando suas pesquisas e “estudos” espirituais sobre kene tradicionais inspirados pelas mirações do Uni.

Jovem Yawanawa. Foto: Sérgio Vale

Outros papéis comunitários vêm sendo ocupados pelas mulheres: professoras, agentes de saúde, presidentes de associações e cooperativas, entre outros.

Anos de convivência com os povos indígenas do Aquiry muito me ensinaram, principalmente a respeitar o papel da mulher e sua importância na dinâmica e no funcionamento de uma aldeia.

É por isso que sempre digo para os que não conhecem a cultura indígena: no fim das contas, acho que quem manda numa aldeia são as mulheres, pode ter certeza.Claro que, por ser homem, sempre fui excluído dos momentos em que as mulheres se dirigem aos roçados para colher macaxeira ou banana. Mas, pelos relatos de minhas companheiras indigenistas que já acompanharam estes momentos, é onde se pode aprender muito sobre a cultura e seus processos de tomada de decisão.

O mundo está sempre em transformação social e cultural, e claro, as comunidades indígenas, à exceção dos povos isolados, não estão imunes a estas transformações. Só que estas transformações, além de novos desafios, também vem trazendo ventos de mudança e expansão do papel da mulher neste universo social e cultural.

Temos muitos exemplos disso.

É cada vez mais comum esta participação nos processos de tomada de decisão e representatividade do movimento indígena, bem como de outros espaços ditos “de poder” que, até bem pouco tempo, tinham a figura masculina como referência.

Palavras como pajé, cacique, liderança, são só algumas que deixaram de se referir exclusivamente a atividades do homem. Pelo menos aqui no Aquiry. Assim, temos figuras queridas e fortes que assumiram papéis de referência em suas comunidades e em instituições, dando, além de um brilho e energias diferentes, um toque especial no trato da questão indígena.

São figuras como a Cacique Enir Shanenawa, que resolveu criar uma aldeia, a Shanekaya, com o objetivo de fortalecer a cultura do seu povo e não permitir a interferência dos maus costumes dos nawa, como o uso de bebidas alcoólicas. Esta comunidade hoje é referência em organização para seu povo, e vem se destacando na região como um local que cada vez mais recebe visitas e onde são realizadas atividades ligadas ao movimento indígena local.

E como não citar a coordenadora da Coordenação Regional Alto Purus, em Rio Branco, Maria Evanízia Puyanawa, que conseguiu recolocar em pleno funcionamento esta unidade da FUNAI, que praticamente estava inoperante e deteriorada.

E como não se encantar com o vídeo “Nixpu Pima – Rito de Passagem Huni Kuin”? Aqui no Juruá acostumamos com a presença e as palavras fortes de lideranças como Lucila Nawa, na luta pela regularização fundiária de sua terra; e da Edna Shanenawa, que vem encampando e lutando pelas políticas de gênero e fortalecimento dos conhecimentos do artesanato indígena, através da Associação de Artesãs e Artesãos do Vale do Juruá.videasta Pãteani Mara Vanessa Huni Kuin, apresentando uma visão única e rica da cerimônia de batismo tradicional de seu povo?

Não poderia deixar de citar a prof Francisca Yaka Shawãdawa, que iniciou sua trajetória no magistério indígena sob meus cuidados, há dezesseis anos atrás, e hoje é a presidente da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), referência na luta pelos direitos dos professores e pelas políticas voltadas à educação escolar indígena.

A presença e trabalhos cada vez mais reconhecidos e procurados das pajés Yawanawá  contribuíram para a quebra de paradigmas nesse nosso mundo em transição, onde o papel da mulher no assim chamado “sagrado indígena” assumiu nova posição. E, ao contrário do que acham, os assim chamados “puristas”, este movimento deu nova vida a este povo e serviu de referência para que outros passassem a considerar cada vez mais esta participação e protagonismo.

A saúde indígena do Juruá recebeu de braços abertos a médica Gilda Maria Yawanawá, primeira médica indígena do Acre, nascida e criada na Terra Indígena Rio Gregório e que, através de parcerias de seu povo foi para Cuba para cursar medicina e que, tendo retornado, atuará no atendimento de saúde aos povos indígenas do estado.

Citei estes exemplos, e poderia citar muitos outros, só aqui no Aquiry, isso sem contar no restante do país onde várias lideranças mulheres se destacam.Um movimento crescente, e que está se consolidando cada vez mais, é o intercambio e participação em diversas atividades no Brasil e no exterior de mestras e aprendizes da tradição, divulgando e apresentando a cultura de seus povos, sempre com alegria e com a energia cativante de sua presença. Entre estas mensageiras, não poderia deixar de citar a filha do saudoso Inkamuru, Ayani Huni Kuin.

Recentemente estive em Rio Branco, em uma série interminável de reuniões e, numa destas, reparei estar “cercado” de mulheres em destaque nos diferentes nichos de sua atuação. Foi um pensamento de relance, mas notei que estas se dividiam, em igual quantidade, entre indígenas e indigenistas. Lindo.

Não posso negar que me senti minoria, juntamente com outros colegas do sexo masculino, mas, ao contrário do sentimento de disputa, senti um algo reconfortante de saber que estas mulheres estavam ali, e que isso, pelo menos para mim, significava que teríamos sucesso no que estávamos discutindo.

Sempre achei a mulher indígena uma criatura linda, imbuída de uma beleza que transcende o material.Ah, sim! Não poderia deixar de citar que muitas destas mulheres são mães, esposas, estudantes, amigas, avós, etc. E sempre observei que, independentemente do que estejam desenvolvendo, jamais se esquecem destes compromissos familiares, sociais e culturais em que estão inseridas.

Sua presença nos ambientes nunca passa despercebida, pois inunda o espaço com a energia suave e colorida de seu yuxin. Carregando sobre si toda a sabedora e força entregues a seu ser pelos seres fantásticos e sagrados dos antepassados.

Não gosto da palavra “guardião” para classificar qualquer conhecedor da tradição indígena, por isso creio ser a mulher indígena, em vez de guardiã, a representação viva da força ancestral do seu povo e sem a qual este não teria razão de existir.

Não poderia terminar minha reflexão sem citar outra “categoria” de mulheres que, por seu engajamento, são consideradas como parte da cultura. Falo das indigenistas que dedicaram ou dedicam suas vidas ao trabalho junto às comunidades.

Pessoas maravilhosas, representadas pela figura guerreira e incansável da querida e eterna professora de indigenismo, Dedê Maia, que mesmo após ultrapassar a idade de aposentadoria, continua envolvida em projetos e lutas em prol dos direitos e chamada “agenda indígena”, e com a qual tenho a felicidade de cruzar, vez ou outra, em diferentes ambientais de trabalho.

Diferentemente de outras crônicas, nesta não citarei frase de algum pensador – ou pensadora – sobre o tema que discorri. Decidi isso simplesmente porque não acredito haver pensador ou filosofo que seja capaz de definir a mulher e, no caso em questão, a mulher indígena com toda a honra e louvores que esta merece.Finalizo atentando que iniciamos o mês chamado “outubro rosa”, dedicado à campanha que nos impele a refletir e contribuir, de alguma maneira, para a conscientização sobre a prevenção e o diagnostico precoce do câncer de mama. Não poderia me furtar de citar isso.

Notas do autor: Aquiry – Nome original do Estado do Acre. Yura – Não-índio

Jairo Lima  : Indigenista acreano. Escreve e publica crônicas semanais. Para ver mais e conhecer melhor o belo trabalho do Jairo, visite o blog Crônicas Indigenistas.

Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis
Mulheres Ashaninka – Foto: Eliane Fernandes
 

 

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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