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Tata Txanu Natasheni fez a passagem

Tata Txanu Natasheni: O grande pajé Yawanawa fez a passagem 

 “Tata fez a passagem”. Com essas poucas palavras, o líder indígena Tashka Yawanawa, presidente da Associação Sociocultural Yawanawa, informou sobre o encantamento do grande pajé Tata Yawanawa, aos 104 anos de idade. Ao povo Yawanawa nosso carinho, nosso afeto, nosso abraço solidário. Ao Tata, nossa gratidão pelo rastro de luz que deixa neste mundo. Para homenageá-lo, publicamos seu perfil, escrito por Tashka Yawanawa há pouco tempo atrás. Paz e Bem.

Tata Txanu Natasheni Yawanawa

Sentado numa rede, o pajé reza toda a noite para curar uma pessoa enferma. Reza também para a comunidade global viver saudável, em harmonia  com as pessoas e com o meio ambiente em que vivem. 

Shumo é o pote de barro  que o pajé Rumeya utiliza para rezar para uma pessoa enferma. Os cantos de reza são a comunicação direta entre o Rumeya e os espíritos. Uma reza pode durar toda a noite.

O pajé nunca repete as mesmas palavras, porque reza exatamente o que vê em sua visões de Uni. É a tradução da força do pensamento em forma de palavras, que são depositadas na Caiçuma dentro do pote de barro.

Após terminar de rezar, a Caiçuma já se transformou em medicina com poder de curar a pessoa enferma. Para que a reza traga a cura, a pessoa enferma tem que cumprir a dieta que o Rumeya lhe passar.

Engana-se quem pensa  que se trata de uma pessoa frágil. Tata possui uma energia de dar inveja a qualquer jovem. Ele dirige, canta e dança durante todo dia e a toda noite, durante os 5 dias do Mariri e Festival Yawanawa.
 
Quem tiver o privilégio e a honra de conhecê-lo,  logo vai descobrir que esse velhinho tão humilde e caladinho é um Rei no mundo espiritual.
Tata tem dedicado a vida inteira à espiritualidade Yawanawá.  Enquanto muitos jovens desfrutavam da vida, ele seguia o caminho dos mais velhos. Sentava nas grandes rodadas de Uni com os pajés, ouvia os cantos e as rezas atentamente.
Quanto perguntavam a ele o porque de seu interesse em ser um aprendiz de pajé tão jovem, ele respondia, que era para quando os mais velhos não estivessem mais vivos, ele poderia continuar repassando os conhecimentos do mundo espiritual para nosso povo.
 
Ainda jovem foi aceito e iniciado no caminho do shamanismo Yawanawa pelos grandes pajés Yawanawá de sua época.

Na época em que não utilizávamos a medicina ocidental, Tata, curou muita gente.  Graças a ele, nosso povo continua a perpetuar por gerações. A Agente de Saúde e liderança indígena, Mariazinha Luiza Naiweni, faz as seguintes descrições:

Os pajés Rumeya, reza a caiçuma. A caiçuma (bebida feita de mandioca) para curar uma pessoa doente, mas também como medida preventiva. Quando alguém tinha um sonho ruim, conta para o pajé, que interpreta o sonho e, de acordo com esse sonho, reza a caiçuma para a pessoa beber evitando assim que adoeça. Essa caiçuma atua como uma vacina”.
Tata tem sido um amigo, um guia espiritual e uma pessoa de extrema sabedoria, com quem temos aprendido muito para viver neste mundo. É uma das pessoas mais séria, honesta e respeitosa que conhecemos. Ele representa a memória viva dos Yawanawa.
 
Desde muito jovem, tem dedicado sua vida ao shamanismo. Tem usado sua sabedoria e a ciência indígena para curar as pessoas enfermas que o buscam atrás de cura.
Tata sempre usou sua força espiritual em prol de fazer o bem da humanidade.
Em 2006, quando duas jovens Yawanawa pediram para serem iniciadas no shamanismo Yawanawa, Tata quebrou um tabu ao iniciar duas mulheres no shamanismo,  que antes sempre foi uma função exercida exclusivamente por homens.
Uma das coisas que admiramos do Tata, é a sua humildade. Tata é uma pessoa com muita sabedoria do conhecimento espiritual Yawanawa, no entanto ele sempre diz que “não sabe de nada, que ele não é de nada.”
 
Diferente de muitos “pajés” espalhados pelo mundo que dizem saber de tudo. Mas ele é sim. Ele nem precisa dizer que ele é o pajé mais forte, mais sábio e autêntico, porque suas próprias ações falam e mostram isso ao mundo.
Podemos afirmar que Tata pode ser considerado uma das personalidades do milênio, pela sua sabedoria, humildade e pela paz que transmite a todos que o conhece.

NOTA DE PESAR DO GOVERNO DO ACRE

A cultura e a história indígena do Acre perdem um dos seus principais líderes. O mais respeitado ancião da etnia Yawanawá, Tata Txanu, faleceu na tarde da última segunda-feira, 19, aos 104 anos de idade.

Mais que um líder, o pajé era um irmão de espiritualidade, e um grande amigo que sempre nos trazia o brilho do sol, e a luz do amor, regidos pelos ensinamentos da floresta.

Direto da mata, o pajé viveu um centenário de muita sabedoria, preservando a cultura Yawanawá, além de transpor as curvas dos rios e tornar a cultura dos povos da floresta acreana conhecida mundialmente, por meio do encantador Festival Yawa.

Tata parte deixando um legado de conhecimento que é uma verdadeira inspiração para a busca do equilíbrio e vida em harmonia.

O Acre se solidariza com a partida deste homem que representou na sua totalidade não apenas a cultura dos Yawanawá e das demais etnias desse estado, mas de todos os povos da floresta. Estendemos nosso abraço e solidariedade a todos os txai [irmãos], certos de que todos nós sentimos e lamentamos tamanha perda.

Tião Viana –  Governador do Estado do Acre

Nazareth Araújo –  Vice-governadora do Estado do Acre

Imagem: ceudomar.org

Créditos: Exceto pela última foto desta matéria, as demais fotos acima são todas de autoria de Tashka Yawanawa.

 
 
Pajé Tata voltou para o reino de Yushibu, entrou no mundo dos encantados e por la vai ficar iluminando todo povo Yawa, toda a floresta, e todos nós! Haux ao grande Pajé!” Hilas Mariante Al Khouri
 
 
 Fiquei muito triste quando recebi a notícia da morte do pajé Tata, aos 104 anos. Anteontem quando embarcava pra Brasília, encontrei o Joaquim que, sabendo da minha amizade com ele, me falava de seu delicado estado de saúde, fiquei muito preocupado. Seu Tata agora se junta a outro grande líder Iawanawa, e também meu amigo, seu Raimundo. Eles foram os guardiões das tradições, da cultura e da história desse povo milenar. Tenho orgulho de ter ajudado na conquista da terra e no resgate das tradições deste povo tão importante. Mas, a vida é assim pra todos, sempre chega a hora da partida. Espero que o Bira, o Joaquim e tantas outras lideranças Iawa possam dar conta da responsabilidade de levar adiante essa história tão bonita. Como amigo me ofereço pra seguir ajudando. Naquela terra sagrada vivi uma das experiencias espirituais mais fantásticas da minha vida e assim fui aprendendo a respeitar ainda mais a força de pajés como Seu Tata. Faço aqui essa homenagem em nome de todos que respeitam as tradições de nossos povos originários e manifesto meu pesar ao povo Iawanawa por essa grande perda. Jorge Viana – Senador Acreano

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

 
 
 
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