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Um macaquinho me contou…

Um macaquinho me contou…

Um macaquinho  muito bonito, morador de uma serra mais bonita ainda, estes dias, meio desconfiado me contou que não confiava nos homens. Eu quis fazer a defesa da espécie humana, mas por fim preferi escutar. E ele dizia que tinha perguntado ao seu pai sobre o ser humano, o pai tinha ficado nervoso e a conversa foi assim:

– Papai, o que são humanos?

– Meu filho, cuidado com esse bichos. São macacos sem cabelos. Pensam que são donos de tudo ao redor. Constroem cavernas de pedra que chegam ao céu. Seu ego, sua condição, não tem limites. Tomam mais terras do que eles precisam, destroem a floresta, sujam os mares, poluem o ar.

O pequeno pedia para o papai parar de falar no humano:

– Para papai, que tô com medo, vou chorar!

O papai bem paciente dizia:

– Espera, tem mais. Humanos escravizam humanos e deixam parte da manada morrer de fome para que poucos sejam mais ricos. Eles constroem máquinas para matar os próprios humanos. Mais cedo ou mais tarde eles se exterminarão. Os humanos são uns macacos loucos, meu filho! Fuja deles.

Quando vi, o macaquinho enxugava minhas lágrimas e me consolava: – Ah, neim Tieda! Não vá acreditar em tudo que o papai diz. Ele é muito exagerado.

Dei um beijo demorado no mocinho e segui estrada, atrás de mim deixe a reservada, em devida parcimônia, a Linda Serra dos Topázios, que se tornara toda alarajanda com os últimos raios do sol. Mais um dia terminara no meu cerrado e ele, ainda, estava de pé.

Sequei novamente os olhos, cocei a poeira com a mão em croque, enchi o peito de ar, bati p ´´e bem forte no chão, como faz o caboclo Jupiara, alinhei o horizonte e falei comigo mesmo: – Vambora, há muito o que fazer!

Iêda Vilas Bôas

NOTA DA REDAÇÃO: Este texto, da escritora Iêda Vilas-Bôas, foi publicado originalmente em 09 de dezembro de 2021. Iêda partiu para o mundo dos encantados em 8 de abril de 2022. Para honrar sua memória, no primeiro aniversário de seu encantamento, republicamos parte dos textos memoráveis que IVB, como ela gostava de ser chamada,  publicou na nossa Revista Xapuri. Este  é um deles. Paz e Bem. 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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