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ZIRALDO: A CARA DO BRASIL

Ziraldo: a cara do Brasil

Ziraldo foi  um artista que se dedicou desde sempre às crianças, mas é respeitado, lido, curtido por milhões de pessoas adultas, mundo afora. Seu nome jamais sumirá de nossa história, pois se trata de um enorme ser humano das artes e do jornalismo, com forte ressonância na educação e na política, sempre em defesa de um terreiro chamado Brasil…

Por Jaime Sautchuk 

Ele nasceu em Caratinga, Minas Gerais, em outubro de 1932, cidade que adorava, mesmo vivendo no mundão de Deus, como ele dizia. E se tornou muito conhecido ainda na década de 1960, por criar e produzir as histórias em quadrinhos “A Turma do Pererê”, um marco da literatura brasileira.

Em especial, porque ele deu nova vida a personagens do folclore nacional, em contraponto ao que vinha do exterior. A revista saiu de circulação pela primeira vez logo após o golpe de estado de 1964. O que tínhamos, à época, em forma de gibis, eram os Pato Donald e Mickey, do hollyhoodiano Walt Disney, que levavam mundo afora a ideologia dominadora dos Estados Unidos, em plena Guerra Fria. Isso, mesmo quando Disney incluiu em sua trupe um personagem abrasileirado, com o nome de Zé Carioca.

Mas, por incrível que pareça, esses são detalhes na vida deste sujeito. Só de livros, por exemplo, ele tem mais de cem publicados. É isso mesmo, quase 200. E papel destacado na imprensa. Foi um dos criadores, e, como editor, segurava a onda do jornal “O Pasquim”, do Rio de Janeiro, criado em 1969 e que se tornou uma importante referência da imprensa nacional.

Em plena ditadura militar, o jornal reunia os maiores nomes do humor no jornalismo tupiniquim pra propagar uma mensagem de liberdade, de democracia, e por isso padecia. A Censura Federal era feroz, cortava dois terços do que era produzido. E os seus editores, inclusive esse de que falamos, foram presos várias vezes. Mas ele, sempre sorrindo.

De suas criações, as gerações mais novas são familiarizadas, talvez, com o “Menino Maluquinho”, obra de 1980. É um personagem que nasceu meio por acaso e se tornou por demais conhecido por meio de revistas, TV e um filme que é um dos maiores sucessos de bilheteria nas últimas décadas, nos cinemas do país e fora daqui.

Ainda menino, foi morar com a avó no Rio de Janeiro, mas dois anos depois voltou pra sua cidade natal, onde terminou o segundo grau e prestou serviço militar, no Tiro de Guerra local. De família modesta, era um entre sete filhos, entre os quais, Zélio, também renomado cartunista.

Casou-se com dona Vilma, gente da terra, e tiveram dois filhos, também artistas, que são a cineasta Daniela Thomas e o compositor Antônio Pinto. Formou-se em Direito em 1957, em Belo Horizonte, pela Universidade Federal de Minas Gerais, mas nunca exerceu a profissão.

Estamos falando, já é claro, de Ziraldo Alves Pinto, que completa 83 anos de idade. Mas não lhe passa pela cabeça pedir penico, pensar em aposentadoria no trabalho. Muito pelo contrário, ele faz inveja a muitos jovens que já pegaram o boné. E mantém seu jeito alegre, festivo, sempre bem-humorado, de bem com a vida. É um jeitão desprendido, de coração aberto, generoso ao extremo.

Desde criança, sempre teve no desenho sua paixão e com isso se destacava na escola ou onde quer que estivesse. Trabalhou como cartunista nos jornais Folha da Manhã (hoje Folha de S. Paulo) e Jornal do Brasil e nas revistas A Cigarra e O Cruzeiro, onde criou personagens como “Jeremias, o Bom”, sempre com humor afiado. E são incontáveis os trabalhos que já fez, como cartazes de filmes, murais e ilustrações de todo tipo. E seria enfadonho, também, enumerar os prêmios com que já foi agraciado, no Brasil e no exterior.

Ele gosta de pessoas de bem em qualquer setor da vida. É amigo de empresários e operários, de comunistas e conservadores. E muito antes de pedir qualquer coisa, prefere doar. Mesmo quando se trata de dinheiro. Ele, pela sua trajetória de vida, poderia ser milionário, rasgando notas de cem. Mas não é. Leva uma vida comedida, como um cidadão de classe média que tira seu sustento dos afazeres que tem. O resto, dividiu com alguém que precisava mais ou com projetos mais engajados que lucrativos.

É certo que gerou polêmicas por ser beneficiado com uma razoável bolada como anistia, reparação de danos da ditadura, e um valor mensal pelo resto da vida. Ele e mais vinte jornalistas haviam entrado com ação coletiva e tiveram seu pleito atendido pela Comissão de Anistia do Governo Federal. Quando criticado, ele rebateu alegando que, de fato, tinha sido severamente prejudicado pelo regime militar, com prisões e censura, e que merecia o reparo.

De igual modo, ele entra em aventuras bastante custosas. Foi o caso, por exemplo, de uma revista que criou já nos anos 2000. Pra satirizar a revista “Caras”, que enaltece as ostentações das elites nacionais, ele inventou outra revista, a “Bundas”, no mesmo formato, com edição refinada, mas com conteúdo popular.

Gastou mundos e fundos, a revista ficou de excelente qualidade, mas com um problema: não vendia. Só depois ele veio a saber o porquê. Pesquisas revelaram que as pessoas chegavam nas bancas e tinham vergonha de falar “eu quero a ‘Bundas’”. Resultado: o projeto quebrou. Em seguida, reeditou o antigo sucesso, com o nome de “O Pasquim21”, que durou alguns anos, mas também sucumbiu por problemas financeiros.

Entretanto, quem pensa que Ziraldo se abala com isso, está muito enganado.  A todo instante, vemos novas realizações desse cara que é a cara do Brasil.

Publicado originalmente em 24 de abril de 2021

NE: Ao deparar-me com o texto da genial mente de Jaime Sautchuk pude ter a certeza de que o tempo é complexo e relativo. Nas muitas linhas do Jaime, Ziraldo apresenta-se como, de fato, foi: astuto, revolucionário e habilidoso com as artes escritas e visuais. Perdemos Ziraldo em 06 de abril de 2024, assim como perdemos Jaime em 14 de julho de 2021. Encantados, hão de fazer muita beleza no misterioso destino nos traça.

Capa: Reprodução


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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