HONESTINO NAS TELAS DE CINEMA
Com pré-estreia no dia 5, no Cine Belas Artes, em São Paulo; sessão especial no Palácio da Alvorada, em Brasília, no dia 10; e, desde o dia 13 de agosto, está disponível nos circuitos nacionais de cinema. O filme “Honestino”, produção de Nilson Rodrigues (Mercado Filmes), com direção de Aurélio Michiles, é um importante registro histórico para a memória da democracia brasileira.
Por Arthur Wentz e Silva
Honestino, estudante de Geologia da UnB e ex-presidente da UNE, foi sequestrado e assassinado pela repressão em 1973. Seu corpo jamais foi encontrado, e ele se tornou símbolo da resistência contra a ditadura militar (1964-1985).
A obra de Michiles opera uma necessária desfetichização da figura política, utilizando uma tessitura híbrida entre o documentário e a ficção, técnica que o diretor domina desde produções anteriores, como “O Cineasta da Selva”, para transpor o líder estudantil do plano abstrato da historiografia oficial para a vibração do corpo presente.
O longa-metragem reúne um acervo denso de cartas, poemas, fotografias e filmagens de arquivo que nos permite vislumbrar não apenas o militante insurgente, mas também o jovem leitor de Carlos Drummond de Andrade, que se recusou a aceitar a barbárie e o autoritarismo dos anos de chumbo.
Com o “desaparecimento” durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, a narrativa evita o congelamento do herói em uma fotografia antiga, preferindo percorrer os caminhos de sua vida cotidiana e as advertências contundentes que ele recebeu de familiares, como seu irmão Norton, sobre o risco iminente de morte na clandestinidade.
Reside aí a potência estética da produção, recentemente premiada com o Troféu Redentor de Melhor Montagem no 27º Festival do Rio, que utiliza o subsolo do “Minhocão” da Universidade de Brasília como uma poderosa metáfora espacial da vida clandestina daquela geração. Sob as luzes frias e o piso coberto por uma camada fina de água dessa construção curva do Instituto Central de Ciências (ICC), o espectro de Honestino caminha como uma mão no escuro, vigiando seus próprios passos enquanto o Estado operava sua necropolítica de silenciamento e desaparecimento forçado.
É preciso, contudo, notar que o documentário não se furta a expor a ferida aberta da ausência, materializada nos depoimentos viscerais de sua segunda mulher, Shoshana Rapoport, e de sua filha, Juliana Guimarães, que descreve uma infância impregnada por um sobressalto permanente e por uma única lembrança fragmentada de uma tarde de sol que flutua entre o fato e a invenção da saudade.
Não há aqui tentativa alguma de encerrar essa história, pois, como o próprio Michiles sugere no lançamento da obra, o propósito primordial do cinema é tornar o personagem vivo e tangível para que as novas gerações não permitam que o hoje repita o silenciamento de ontem.
Arthur Wentz e Silva – Estudante de Letras, Língua Portuguesa e Respectiva Literatura na Universidade de Brasília (UnB) e redator da Revista Xapuri. Matéria produzida com informações do Jornal Brasília Capital e da Revista Piauí.
Capa: Honestino Guimarães com sua filha (1973). Foto: Arquivo familiar










