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A Ayahuasca e a Guerra

A Ayahuasca e a Guerra

Durante minhas andanças pela Amazônia peruana tive a oportunidade de conhecer ao menos três veteranos de guerras e um assistente social que trabalhava com veteranos em Los Angeles. Para que o texto não fique absurdamente longo, irei me concentrar aqui em apenas um dos relatos, que achei o mais revelador…

Por Leandro Altheman Lopes

Digo que foi uma experiência interessante, conhecer um pouco dessa dimensão da ayahuasca na reabilitação de veteranos de guerra sobretudo em relação aos transtornos pós-traumáticos.
 

Antes que comece meu relato, sobretudo registro meu profundo respeito a essas pessoas, que por mais que discorde das razões da guerra, em geral, e as levadas a cabo pelo EUA, em particular, sou capaz de compreender suas razões e é provável que se fosse o meu país em guerra, e não o deles, que eu próprio teria algum envolvimento, de modo que esse não é um relato condenatório, mas antes, sobre a capacidade de a ayahuasca, quando bem dirigida, auxiliar na reabilitação, física e psíquica de veteranos de guerra.

Armas Químicas, TPT e os ‘Soldiers of Divine’

O relato mais interessante foi de um veterano da guerra do Iraque, na casa entre os 30-40 anos. O mesmo apresentava sinais de extensos danos à pele a qual afirmou serem resultado de contato com armas químicas. O veterano afirmou que as ditas armas químicas do Iraque de fato existiam, mas jamais foram reveladas pois havia muitos elementos que as ligariam a fabricantes, intermediários e treinamento conectadas diretamente ao departamento de estado. Não tenho condições de verificar tal afirmação, mas foi o seu relato.

O veterano afirmou ainda que estava em tratamento por mais de um ano, realizadas em etapas de meses em uma comunidade nativa shipibo na região do Ucayalli. O tratamento a que se referiu inclui a questão da pele, mas sobretudo o Transtorno Pós-Traumático a que vítimas de guerra (aí incluídos os próprios soldados também) são acometidos.

Afirmou sobretudo que o tratamento baseado em plantas nativas obteve mais sucesso que o tratamento convencional. Aqui cabe um rápido parêntese sobre o uso da ayahuasca na Amazônia peruana, que difere do uso religioso no Brasil sobretudo na ênfase que é dada aos aspectos de cura. Muitas vezes a ayahuasca é usada não exatamente ela como promotora da cura, mas como uma guia que indica plantas e tratamentos a serem aplicados. Sobre seu uso na reabilitação de TPT há trabalhos de médicos a respeito.
 

Por fim, o veterano do Iraque disse que tanto ele quanto seus colegas sofriam imensa pressão por parte do sistema de saúde oficial para seguirem tratamentos que tem por objetivo final, evitar surtos que resultem em homicídio ou suicídio, ou ambos. Contudo, ainda segundo seus relatos, tais medicamentos deixam a pessoa sem iniciativa e não curam de fato o TPT. Por essa razão, um grupo de veteranos vinha organizando-se como forma de ampará-los através da ayahuasca na Amazônia peruana, guiada pelos experientes médicos tradicionais, a tal organização deram o nome de ‘Soldiers of Divine’.

Haveria outros temas ainda a serem explorados, como por exemplo, a dimensão da guerra xamânica presente no universo ayahuasqueiro, como representada na imagem abaixo, do pintor visionário Pablo Amaringo.

Mas acho que poucos estão preparados para essa conversa.

 
Ayawasca e Guerra Leantro Altheman
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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