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Vozes do Campo: Margaridas em Marcha

A era em que quase tudo é descartável

A era em que quase tudo é descartável

Todos e todas nós queremos ser reconhecidos e aceitos pela sociedade em que vivemos, e pensamos ser validados por aquilo que adquirimos, vestimos, pelo aparelho celular que exibimos em público ou pelo número de amigos que fazemos nas redes sociais. Ciente das inseguranças sociais que nos acompanham, a sociedade de consumo nos faz querer o carro novo, a roupa e o sapato da moda.

Não que haja problema em se desejar adquirir um produto ou um bem. Ao contrário, pequenas extravagâncias, tais como saborear uma boa comida ou degustar um bom vinho, ou, até mesmo, comprar um tão sonhado objeto de consumo, são recompensas saudáveis e merecidas a quem dedica esforços na busca de uma melhor qualidade de vida.

O cerne da questão é que vivemos em uma era em que quase tudo é descartável, onde os produtos têm pouco tempo de vida útil e já são fabricados para não durarem e para serem trocados com frequência. Vivemos bombardeados pelo grande estímulo provocado por propagandas de consumo, o que nos cria novos e incessantes desejos a cada dia. E o que desejamos hoje, abolimos amanhã, tão grande é a insatisfação que permeia a sociedade moderna.

As necessidades de consumo criadas pela sociedade desconsideram o impacto de seus atos sobre o meio ambiente. A grande demanda de produção e do consumo afeta diretamente a retirada de matérias-primas da natureza e, em nome do progresso e da economia, destroem-se matas, florestas, rios, e matam-se animais. E esse consumo exagerado prejudica o meio ambiente, afinal o raciocínio é lógico: papéis, sacolas, tecidos ou móveis não surgem do nada.

Por outro lado, sabemos que pequenas atitudes diárias, tais como separar o lixo, diminuir o consumo de água, evitar desperdícios, ou mesmo usar com mais frequência o transporte público, podem provocar melhoras significativas que diminuam o impacto ambiental, mas preferimos agir como se nossas ações não tivessem qualquer reflexo na vida dos outros ou não influenciassem o meio em que vivemos. Pensar no outro ou no impacto que nossas ações causam para as próximas gerações é algo não condizente com a forma de vida adotada pela sociedade moderna.

Todos e todas nós devemos e podemos participar do processo de conscientização dos padrões de consumo, por exemplo, priorizando o consumo sustentável, com produtos que não agridam tanto o meio ambiente.  Há que se pensar, inclusive, numa mudança de paradigmas: a relação de consumo e o desenvolvimento andam juntos. Todavia, prolongando-se a satisfação e o ciclo de vida dos bens produzidos, reduz-se, drasticamente, a quantidade de matéria-prima e também a sobrecarga de lixo que é jogada nos ecossistemas.

O consumo exagerado é um ótimo exemplo deste fato. E assim vamos desperdiçando tempo e dinheiro em produtos que sequer serão usados por muito tempo, pois sequer foram feitos para durar. Da mesma forma, desperdiçamos enorme energia na sede insaciável pelo reconhecimento e aprovação dos outros, o que inclui a necessidade de ser notado por todos, de parecer “feliz” e de colecionar conquistas.

Conforme diz Zygmunt Bauman, “vivemos em tempos líquidos, nada é para durar”. De acordo com Bauman, cada vez mais a sociedade em geral tem menos contatos aprofundados entre os indivíduos e as relações duram cada vez menos, “escorrem pelos vãos dos dedos”.

Dessa forma, estabelecer o hábito de adquirir produtos com maior durabilidade (e de se satisfazer com os mesmos) ou manter relacionamentos sociais mais aprofundados exige que deixemos de ter uma visão micro para ter uma visão macro, onde a cumplicidade e o compromisso com o futuro da sociedade adquiram um peso maior.

A preservação do meio ambiente – direito difuso, fundamental, de terceira geração – importa na superação de relações meramente individuais, externando o máximo de uma vida social fundada na solidariedade. Implica um aprimoramento dos indivíduos e da sociedade, tal como preconizado no filme Rouge, de Kieslowski, ao demonstrar o quanto a aceitação das nossas próprias fragilidades humanas pode despertar no outro a compaixão.

Sentindo-nos aceitos e integrados, podemos diminuir o egoísmo social e assumir uma conduta mais responsável para com o meio ambiente e para com os outros, visando um futuro melhor para as próximas e futuras gerações e, assim, desenvolver um dos grandes pilares para o bem-estar social, a fraternidade.


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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