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Amazônia

Amazônia ameaçada se curva à linha tênue entre a preservação ambiental e a expansão agrícola

Sob tensão, Amazônia se curva à linha tênue entre a preservação ambiental e a expansão agrícola

e unidades de conservação localizadas no pulmão do mundo

estão na mira das eleições desse domingo

Por MARINA ROSSI

Amazônia
Fronteira entre uma fazenda, à esquerda, e o Território Indígena Suruí. VICTOR MORIYAMA

À bordo de uma caminhonete robusta, Almir Narayamoga Suruí, acelerou. “Segura, tá?”, disse ele à repórter do EL PAÍS, enquanto o veículo atravessava parte da selva amazônica, rumo à Terra Indígena Sete de Setembro. É ali que mora seu povo, que lhe dá o sobrenome, a etnia Suruí Paiter. “Temos medo”, diz Almir, ao mencionar o candidato Jair Bolsonaro, que pode ser o próximo presidente do Brasil. Durante a campanha, o ultradireitista repetiu seguidas vezes que acabará com o “ativismo ambiental xiita” e com a “indústria de demarcação de terras indígenas”. As falas soam descoladas de um país que diminuiu o registro oficial de terras dos povos originais já no Governo de , por pressão de ruralistas, e onde notícias de assassinatos de ativistas têm se multiplicado. “Suas palavras de ódio podem representar um retrocesso para nós”, sentencia.

As aldeias da Sete de Setembro – entre os municípios de Cacoal (RO) e Rondolândia (MT), — já convivem com esses sinais de retrocessos na disputa para preservar seu território, cada vez mais cercado por invasores. Há um mês, a área foi alvo de uma operação da Polícia Federal em parceria com o Instituto Brasileiro de (Ibama) na região, deflagrada para frear exploração ilegal de madeira nas terras indígenas locais. Segundo a PF, toras de árvores nobres, como mogno e ipê, eram derrubadas das terras dos índios e cortadas em serrarias próximas às reservas indígenas dos Suruí Patier, e também da reserva Igarapé Lourdes, do povo indígena Gavião. O EL PAÍS visitou a região na última semana e encontrou serrarias no entorno das reservas funcionando a todo vapor.

A madeira roubada dali era levada a um depósito na região, que regularizavaas toras com documentação falsa. A ação da polícia havia afastado os madeireiros temporariamente. Mas eles voltaram, como sempre voltam. “Eu só não achei que seria tão rápido”, lamenta Almir Suruí, em meio a imensos troncos derrubados. Muitos acampamentos ilegais sequer foram desfeitos, e o rastro de lixo e até de roupas no meio da floresta evidenciava a presença recente dos exploradores na mata.

A terra Sete de Setembro é onde o ilegal mais cresce entre os dois Estados. De 2015 até maio deste ano, a devastação aumentou 77% na reserva, segundo estudo do Instituto de Conservação e da Amazônia (Idesam) feito em Rondônia e Mato Grosso. Além da exploração madeireira há registros de invasões e atividades ligadas ao garimpo de ouro e diamante, muito presentes na região.

“A extração de madeira vai aumentar drasticamente porque quem é pego nessa atividade é tido como trabalhador, diferentemente do tráfico. Mas tem um lucro tão alto quanto o tráfico e ainda recebe apoio político”

Embora seja crime, o assalto de terras indígenas conta com uma certa aceitação pela falta de controles. “A atividade [de exploração] é intensa, porque compensa financeiramente. O lucro é muito alto e o risco é baixo, porque os órgãos ambientais estão sucateados”, afirma uma fonte que acompanha ações de fiscalização do meio ambiente. Nos últimos cinco anos, o Orçamento do ministério do Meio Ambiente, que sustenta órgãos fiscalizadores como o Ibama e o Instituto para a (ICMBio), diminuiu mais de 1,3 bilhão de reais, segundo levantamento da ONG Contas Abertas e a WWF-Brasil, divulgados em março deste ano.

Sem dinheiro para fiscalizar e punir, o quadro futuro é muito preocupante. “A extração de madeira vai aumentar drasticamente porque quem é pego nessa atividade é tido como trabalhador, diferentemente do tráfico. Mas tem um lucro tão alto quanto o tráfico e ainda recebe apoio político”, afirma a mesma fonte. Bolsonaro já desdenhou de órgãos, como o Ibama. Quando passou para o segundo turno, ele declarou suas intenções para o órgão. “Vamos acabar com a indústria de multas do Ibama”. Já prometeu também fundir os ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura. Acabou recuando dizendo que está aberto a negociar.

Ainda que recue, as palavras do candidato acertam em cheio o já incerto direitos dos indígenas. Arildo Gapane Suruí teme as ameaças proferidas pelo capitão. “Com essas palavras, ele subsidia as ações de quem tem interesses sobre a Amazônia”, diz. “Os interesses vão aumentar e as ameaças também. E para qual órgão nós vamos denunciar essas ações, se ele quer acabar com o Ibama e o ICMBio?”, questiona.

Ao redor da terra dos Suruí Patier há muitas igrejas —a imensa maioria evangélicas— e pastos para o gado. Parecem reproduzir a sociedade das bancadas da bíblia e do boi no Congresso – deputados que defendem interesses religiosos e dos ruralistas, respectivamente –. A tensão na região, gerada pelos conflitos de terra, ganham força com a representatividade da bancada da bala, formando a tríplice BBB, a ala mais conservadora do Congresso. Com pouca representatividade em Brasília, os interesses de quem defende a mata são deixados de lado.

Nos últimos 30 anos, o desmatamento na Amazônia totalizou uma área equivalente à da Suécia. Somente entre agosto do ano passado e agosto deste ano, a derrubada da floresta cresceu 40%, impulsionada por invasões, caça e pesca, grilagem de terras e . O estrago só não foi maior porque raramente a derrubada massiva de árvores acontece em territórios indígenas, que pertencem por lei ao ao Governo Federal. Essas áreas costumam ser vigiadas também por órgãos de proteção ao meio ambiente e encontram na nativa, baseada em plantio e caça de subsistência, uma agressão ambiental menor. Mais virgens, e ricos em minério, esses territórios são fortemente cobiçados e estão em constante risco.

 

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Foto aérea de uma serraria à margem do Território Indígena Suruí. VICTOR MORIYAMA

O crime que rasga a Amazônia segue um roteiro. Primeiro, limpa-se o terreno. As árvores são subtraídas ilegalmente para que, pouco a pouco, se abra mais espaço para a chegada da agricultura e da agropecuária. “Os cultivos mais rentáveis, como o de soja e de cana, ocupam as melhores terras, do ponto de vista de fertilidade, da topografia e da logística”, explica Marcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), ONG que atua na defesa dos direitos indígenas. “Assim, empurra-se a pecuária menos produtiva para as terras menos valorizadas, deixando para os grileiros e madeireiros o serviço sujo do desmatamento nas áreas de expansão da fronteira agrícola”.

Cada vez mais, essa fronteira empurra as reservas e terras indígenas, compactando as áreas, em um avanço facilmente perceptível que mostra quais são os interesses que se sobressaem na Amazônia. As estradas que ligam os centros urbanos às aldeias e interligam os Estados de Rondônia e Mato Grosso são chamadas de linhas e seguidas de números. Muitas delas, como a Linha 9, espelham a realidade do que representa parte do Congresso brasileiro hoje.

Com a chegada da eleição, o clima de tensão que já paira sobre os territórios em disputa na Amazônia se intensificou ainda mais. Dados recentes divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sugerem aceleração da área desmatada durante o período eleitoral: nos meses de julho, agosto e setembro, o desmatamento cresceu 61% na região em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Thiago Mendes, secretário de Mudanças do Clima e Florestas do ministério do Meio Ambiente (MMA), confirma esse fenômeno. “Existe uma percepção de que a aplicação de multas por parte de governos municipais e estaduais tendem a perder voto ou financiamento de campanha ou inviabilizam alianças futuras”, diz. “Por isso, às vezes o poder público local diminui um pouco a fiscalização nesses períodos, e o desmatamento acaba aumentando”.

Mas o novo presidente não tem como fechar os olhos ou fragilizar o controle do desmatamento. O Brasil, como signatário do , firmou o compromisso de reduzir a emissão desses gases em 37% até 2025. Atualmente, o país é o sétimo maior emissor mundial de gases de efeito estufa no mundo. Thiago Mendes, do Ministério do Meio Ambiente, afirma que, até o momento, o Brasil está caminhando para cumprir a sua meta. “Aquilo que as árvores removem de CO2 que estão manejados dentro das áreas indígenas do Brasil contribuem com um volume de redução de emissão muito significativo”, diz. A rigor, prejuízos ambientais fariam o Brasil perder credibilidade lá fora. E, no meio de uma guerra comercial agressiva, exportações para os países que não aceitam comprar de empresas sem compromisso com o meio ambiente.

Assinado em 2015 por 195 países, o Acordo de Paris foi mais um dos temas ligados ao meio ambiente com os quais Bolsonaro tropeçou. Após dizer que, se eleito, poderia tirar o Brasil do Acordo por não concordar com as premissas, assim como fez Donald Trump nos Estados Unidos no ano passado, o presidenciável voltou atrás nesta quinta-feira afirmando que o Brasil não sairá do tratado. Nessa esteira, a fusão do ministério da Agricultura com o Meio Ambiente foi outra ideia lançada pelo capitão reformado, que reconheceu, nesta semana, estar aberto a “negociar” a proposta. Em maio, durante um discurso em Natal (RN), Bolsonaro, que prega o nacionalismo, afirmou que “a Amazônia não é nossa”. “A Amazônia não é nossa e é com muita tristeza que eu digo isso, mas é uma realidade e temos como explorar em parcerias essa região”.

Essas propostas defendidas por Bolsonaro e sua equipe para o meio ambiente e sua mira sobre os órgãos fiscalizadores deixaram a comunidade ambientalista em alerta, principalmente após o registro de dois ataques na última semana. No sábado, três viaturas do Ibama foram queimadas em Buritis (RO) durante uma operação de combate ao desmatamento. No dia anterior, agentes do ICMBio sofreram uma emboscada no município de Trairão (PA), enquanto verificavam o desmatamento na Floresta Nacional Itaituba 2. A ponte que dava acesso à estrada fora queimada, mas ninguém se feriu. Os ataques, porém, deixam claro que preservar o meio ambiente pode ganhar novos tons a partir de agora.

 

Amazônia
Acampamento de exploradores de madeira dentro do território Suruí. VICTOR MORIYAMA

ANOTE AÍ

Fonte: El País

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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